WERTHER SANTANA/ESTADÃO CONTEÚDO
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Com a variante Delta, Brasil deve ter nova alta de infecções. Resta saber o tamanho da onda

Os poucos dados reunidos no Brasil demonstram que aproximadamente 20% das amostras coletadas para sequenciamento nas últimas semanas já são dessa variante. Se por aqui ocorrer o que ocorreu em outros países, no próximo mês serão 90%

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2021 | 05h00

A variante Delta surgiu na Índia, dominou o Reino Unido, os Estados Unidos e Israel. Os poucos dados reunidos no Brasil demonstram que aproximadamente 20% das amostras coletadas para sequenciamento nas últimas semanas já são dessa variante. Se por aqui ocorrer o que ocorreu em outros países, no próximo mês serão 90%. Em todos os países em que chegou, essa variante provocou uma nova onda de casos. Nos países em que o nível de vacinação é alto, esse aumento de casos não se traduziu em um aumento da mesma magnitude das internações e mortes. A questão é saber o que vai acontecer no Brasil.

Apesar dos poucos dados disponíveis, os cientistas acreditam que a variante Delta provoca uma doença um pouco mais grave, mas sua principal característica é a facilidade com que se espalha. Enquanto uma pessoa infectada com a variante original é capaz de infectar entre 1 e 3 pessoas, uma pessoa infectada com a Delta infecta 5 a 9 pessoas, uma taxa de espalhamento similar à da catapora. Isso ocorre porque a quantidade de vírus presente nas vias respiratórias em pessoas infectadas com a Delta é mil vezes maior e, portanto, o aerossol que sai da boca dessas pessoas contém muito mais partículas de vírus. Por essas características, se espalha facilmente. Isso ocorreu na Inglaterra, onde a onda já está regredindo, está ocorrendo nos EUA e em Israel, todos países com altos índices de vacinação.

Para tentar entender o que pode acontecer no Brasil é preciso compreender quem são as pessoas que estão sendo infectadas pela variante nos outros países. São principalmente pessoas ainda não vacinadas. Nos países com altas taxas de vacinação, isso significa que um número crescente de jovens está se infectando e sendo internado. É o grupo com a menor fração de vacinados. Além disso, a Delta infecta pessoas que ainda não foram completamente imunizadas com duas doses, mas a fração dessas pessoas que acabam infectadas varia de acordo com a vacina usada. As de mRNA fornecem uma proteção maior que a da AstraZeneca e da Jansen. Nada se sabe ainda sobre a Coronavac. Entre os vacinados com duas doses, entre 0,01% e 0,29% acabam infectados, mas apresentam formas leves da doença. Pessoas com formas leves da doença ou assintomáticas espalham a doença com maior facilidade quando infectadas pela Delta.

Todos esses dados sugerem que ela vai provocar um número grande de casos no Brasil, onde somente 20% das pessoas tomaram as duas doses. Provavelmente veremos mais jovens internados e muitas pessoas não vacinadas morrendo. Me parece quase certo de que teremos uma nova onda, mas o tamanho é difícil de prever, por vários motivos. O primeiro é que não sabemos com precisão a quantidade de pessoas que já foram infectadas no País. Quanto maior esse número, menor vai ser o estrago. O segundo é que não sabemos ao certo como essa variante vai se comportar frente às pessoas parcialmente vacinadas ou imunizadas com vacinas que ainda não foram usadas em locais onde a Delta se espalhou (principalmente a Coronavac).

Países com alto nível de vacinação estão tentando diminuir o efeito dessa variante aumentando as medidas de distanciamento social, principalmente o uso de máscaras. Além disso, estão se apressando para vacinar com a segunda dose os ainda não vacinados (diminuindo o espaçamento entre as doses). Também estão vacinando jovens entre 12 e 18 anos e iniciando programas de vacinação dos idosos com uma terceira dose, preferencialmente usando uma vacina mais eficaz que a usada anteriormente. Como é fácil observar, fora o aumento no distanciamento social, o Brasil dificilmente poderá tomar essas medidas, pois não temos vacinas suficientes. Não foram feitos novos contratos com os fornecedores atuais e a produção de vacinas no Brasil (IFA nacional) ainda está meses distante no caso da Fiocruz e talvez seis meses no futuro no caso do Butantan. Como sempre, continuamos correndo atrás do atraso. 

Em suma, me parece que teremos uma nova onda de infecções, só resta esperar que a pouca vacinação que fizemos até agora seja suficiente para evitar um grande crescimento no número de mortes. Mas, como sempre, é difícil ter certeza, e sinceramente espero estar errado.

*É BIÓLOGO, PHD EM BIOLOGIA CELULAR E MOLECULAR PELA CORNELL UNIVERSITY E AUTOR DE A CHEGADA DO NOVO CORONAVÍRUS NO BRASIL; FOLHA DE LÓTUS, ESCORREGADOR DE MOSQUITO; E A LONGA MARCHA DOS GRILOS CANIBAIS

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