Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

A variante Delta está deixando os jovens adultos 'mais doentes, e mais rapidamente'?

Muitos médicos nas linhas de frente afirmam que pacientes não vacinados com idades na casa dos 20 e 30 anos estão adoecendo mais gravemente e mais rapidamente. Mas faltam dados abrangentes

Roni Caryn Rabin, The New York Times

05 de agosto de 2021 | 10h00

Recentemente, um paciente de 28 anos morreu de covid-19 no Centro Médico CoxHealth, em Springfield, Missouri. Na semana passada, um universitário de 21 anos foi internado na UTI.

Além de não terem se vacinado, muitos dos pacientes que chegam ao hospital com covid-19 têm muito menos do que 50 anos, um contraste absoluto em relação aos frágeis pacientes idosos afetados no início da pandemia, no ano passado.

Em Baton Rouge, Louisiana, jovens adultos que não apresentam nenhum dos fatores de risco para desenvolver formas graves da doença — como obesidade ou diabetes — também estão chegando aos pronto-socorros gravemente doentes. Não está claro por que os casos são tão graves.

Médicos que trabalham nos epicentros de covid no país afirmam que os atuais pacientes de seus hospitais não são como os do ano passado. Os novos pacientes — quase nenhum vacinado — tendem a ser mais jovens, muitos deles com idades na casa dos 20 ou 30 anos. Eles apresentam sintomas mais graves do que os pacientes jovens do ano passado e seu estado de saúde se deteriora mais rapidamente.

Os médicos cunharam uma nova expressão para descrevê-los: "mais jovens, mais doentes, mais rapidamente". Muitos dos médicos que os tratam suspeitam que a variante Delta do coronavírus, responsável por mais de 80% das novas infecções no país, influencia o fenômeno.

Estudos realizados em alguns outros países sugerem que essa variante pode causar doença mais grave, mas não há dados definitivos mostrando que a nova cepa seja de alguma maneira mais prejudicial para jovens adultos.

Alguns especialistas acreditam que a mudança no perfil dos pacientes resulta estritamente das taxas de vacinação mais baixas nesse grupo demográfico.

Até o domingo, mais de 80% de todos os americanos com idades entre 65 e 74 anos tinham sido completamente vacinados, contra menos da metade dos cidadãos com idades entre 18 e 39 anos, de acordo com dados dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC).

As vacinas são poderosamente efetivas contra casos graves de covid-19 e mortes decorrentes de contágio por qualquer variante do vírus, incluindo a Delta. A vasta maioria dos pacientes hospitalizados no país — cerca de 97% — não se vacinou.

"Não acho que existam evidências consistentes ainda de que ela cause doença mais grave", afirmou a respeito da variante Delta Adam Ratner, professor associado de pediatria e microbiologia da Faculdade de Medicina Grossman, da Universidade de Nova York.

"Pode ser um fenômeno comportamental — uma combinação entre o fato de que estamos reabrindo as coisas e que em alguns lugares tudo está completamente aberto e ninguém usa máscara, o que é diferente do que ocorria há um ano ou 15, 16 meses atrás", acrescentou ele.

Recentemente, porém, a variante Delta deu aos cientistas sucessivas surpresas desagradáveis — e dúvidas a respeito da virulência da cepa e sua capacidade de causar doenças mais graves trazem urgência renovada.

Um documento interno do CDC obtido na semana passada pelo The New York Times descreveu a variante Delta como tão contagiosa quando a catapora e afirmou que ela "pode causar doenças mais graves do que as cepas alpha ou ancestral".

Pessoas com mais de 65 anos representavam a metade de todos os pacientes hospitalizados por covid-19 no fim de janeiro, enquanto adultos com menos de 50 anos representavam 22%, de acordo com o CDC. Agora, pessoas mais velhas correspondem a pouco mais de um quarto dos pacientes hospitalizados, enquanto cidadãos com idades entre 18 e 49 anos correspondem a 41%.

"Há algo de diferente em relação a essa variante do vírus nessa faixa etária", afirmou Catherine O’Neal, diretora médica do Centro Médico Regional Our Lady of the Lake, em Baton Rouge. "Às vezes víamos alguém que nos fazia pensar, 'Por que diabos essa pessoa ficou assim?' Mas era raro. Agora estamos vendo isso com mais frequência."

"Acho que é uma nova covid", acrescentou ela.

Cam Patterson, reitor da Universidade de Ciências Médicas do Arkansas, afirmou que a faixa etária média dos pacientes internados por covid-19 no hospital da instituição durante o inverno era de 60 anos; agora, é de 40.

"Nossa impressão é que pessoas mais jovens e mais saudáveis são agora mais suscetíveis à variante Delta do que às cepas que circularam anteriormente", afirmou Patterson.

A primeira ocorrência de variante Delta foi detectada no hospital da universidade em 1º de maio e, em 17 de junho, quase todos os casos de covid atendidos no local eram provocados pela nova cepa. "A transição que testemunhamos em relação aos pacientes mais jovens e as pessoas ficarem mais graves mais rapidamente coincidiu quase que precisamente com o aparecimento da variante Delta aqui no Arkansas", afirmou Patterson. "Para nós, a impressão é de que se trata de uma doença completamente diferente."

Donald McAvoy, de 33 anos, um fisiculturista conhecido como Frue, gerente de uma academia de ginástica em Jacksonville, Flórida, não se incomodou em ir se vacinar contra a covid porque achava que o vírus afetava somente pessoas mais velhas e com problemas de saúde.

Mas lá pelo fim de junho, o nariz dele começou a escorrer, o que ele pensou ser um resfriado ou alergia. A namorada insistiu que ele fizesse um teste para coronavírus. Deu positivo, e ele foi mandado para casa com um pequeno dispositivo chamado oxímetro de pulso, para monitorar o nível de oxigênio em seu sangue.

Dias depois, o estado de saúde dele se deteriorou, e ele desmaiou no chão do quarto. Seu nível de oxigênio estava baixíssimo: 56. O normal é 95 ou mais.

No Centro Médico Batista Beaches, ele foi entubado e encaminhado para a UTI, onde passou 11 dias, uma provação que ele descreveu como "a coisa mais assustadora que passei na vida, não apenas fisicamente, mas mentalmente". O médico de McAvoy lhe disse que ele havia sido infectado com a variante Delta.

Ele deixou o hospital em 8 de julho, com um tanque de oxigênio a reboque. Tinha perdido 11 quilos e foi avisado que teria de passar de quatro a seis semanas em repouso e fazendo terapia respiratória antes de poder retornar ao trabalho. Ele teme que isso pode levar mais tempo.  

"O vírus está muito mais igualitário agora", afirmou Angie Honsberg, diretora da UTI do Centro Médico University, em Las Vegas.

No início da pandemia, pacientes chegavam ao hospital após passar uma ou duas semanas em casa com sintomas. Eram com frequência tratados em alas comuns por algum tempo antes de precisar de intubação ou atendimento na UTI.

Como McAvoy, os pacientes mais jovens de Honsberg estão desenvolvendo quadros graves muito mais rapidamente, afirmou ela. "Minha suspeita é que a variante Delta provavelmente se comporta de maneira um pouco diferente", disse.

Em Springfield, Missouri, Terrence Coulter, diretor da UTI do CoxHealth, um hospital de 500 leitos, afirmou que pacientes de covid-19 atendidos no local são mais jovens e apresentam sintomas mais graves do que na onda anterior.

"Pensaram no começo que pacientes jovens e crianças se infectariam sem ficar sabendo ou desenvolveriam uma doença branda", afirmou Coulter. "Com a variante Delta não é assim. Ela é muito mais perigosa, sem dúvida, do que a variante original."

Muitos pacientes hospitalizados apresentam problemas de saúde preexistentes, como diabetes, obesidade ou pressão alta, que são fatores de risco para casos mais graves, afirmou ele. Mas alguns pacientes mais jovens não apresentam nenhum desses fatores de risco.

"É isso o que me assusta", afirmou ele. "Ela está afetando pessoas mais jovens e saudáveis, que não imaginaríamos que fossem responder tão mal à doença". Esses pacientes com frequência enfrentam recuperações prolongadas, acrescentou Coulter, e alguns ficarão com sequelas duradouras nos pulmões.

Nos Estados Unidos, a variante Delta é relativamente recém-chegada, e evidências a respeito das diferenças no seu comportamento em relação a outras cepas do coronavírus ainda estão sendo observadas. A variante Delta é mais contagiosa, concordam os especialistas. Pessoas infectadas com essa cepa podem carregar grandes quantidades de vírus nas vias aéreas, constataram alguns estudos.

Mas o que parece ser uma virulência maior pode ser simplesmente resultado do grau de transmissibilidade mais elevado da variante Delta, afirmam alguns especialistas. Com mais pessoas infectadas, o número absoluto de doentes graves cresce, mesmo que a variante em si não provoque mais casos graves de doença do que as versões anteriores do vírus.

"Não encontrei evidência de que a Delta está seletivamente mirando crianças, adolescentes e jovens adultos", afirmou Peter Hotez, diretor da Escola Nacional de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina Baylor. "Minha impressão tem sido de que esse vírus é tão altamente transmissível que qualquer um que não tenha se vacinado está se contaminando, e isso inclui os jovens". / Tradução de Augusto Calil

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