Alfonso Duran/The New York Times
Alfonso Duran/The New York Times

A variante Delta está mandando mais crianças para o hospital. O estado delas é mais grave?

Não está claro se a variante Delta causa quadros mais graves de covid-19 em crianças, mas a taxa de infecção da doença está causando aumento de casos pediátricos

Emily Anthes, The New York Times

11 de agosto de 2021 | 15h00

Pilar Villarraga passou grande parte do verão fazendo a contagem regressiva dos dias que faltavam para o aniversário de sua filha Sophia. Sophia completaria 12 anos no começo de agosto - e estaria qualificada oficialmente para tomar a vacina contra covid-19. “Não queria que ela voltasse para a escola sem estar vacinada”, afirmou Villarraga, em vive em Doral, Flórida.

E então, perto do fim de julho, a apenas duas semanas de seu marcante aniversário, Sophia infectou-se com o coronavírus. No início, teve apenas febre, mas em 25 de julho, após quatro dias tranquilos de convalescência em casa, as costelas começaram a doer. No dia seguinte, Villarraga levou a filha ao pronto-socorro, onde raios-x do tórax revelaram que Sophia tinha desenvolvido pneumonia. Pouco depois, ela começou a tossir sangue.

Sophia foi prontamente internada no Hospital Pediátrico Nicklaus, em Miami. Seus parentes e amigos ficaram em choque. “Não achei que crianças ficavam tão grave”, afirmou Villarraga.

Sophia foi uma das 130 crianças hospitalizadas com covid-19 nos EUA naquele dia, de acordo com os Centros para Controle e Prevenção de Doenças (CDC). Esse número está aumentando desde desde o início de julho. De 31 de julho a 6 de agosto, 216 crianças com covid foram internadas diariamente, em média - praticamente o mesmo número do início de janeiro, no pico da pandemia, quando 217 crianças infectadas pelo coronavírus eram hospitalizadas todos os dias no país.

Hospitais localizados em epicentros de covid têm testemunhado o maior aumento. Em um único dia, na semana passada, o Hospital Pediátrico do Arkansas, em Little Rock, internou 19 crianças com covid; o Johns Hopkins All Children’s Hospital, em St. Petersburg, Flórida, internou 15; e o Children’s Mercy, em Kansas City, Missouri, internou 12. Todas as unidades internaram várias crianças na UTI.

Esses números levantaram preocupações de que algo que já foi considerado um lado bom da covid - de que a doença poupava, em grande parte, as crianças - pode estar mudando.  Alguns médicos nas linhas de frente afirmam estar vendo mais crianças adoecendo com mais gravidade do que em qualquer outro momento da pandemia e desconfiam que a culpa pode ser da altamente contagiosa variedade Delta.

A maioria das crianças com covid-19 desenvolve sintomas leves, e ainda não existe evidência suficiente para concluir que a variante Delta cause doença mais grave em crianças do que as outras cepas do vírus, afirmaram cientistas.

O que está claro é que a confluência de fatores - incluindo a taxa de contágio da variante Delta e o fato de que pessoas com menos de 12 anos não são qualificáveis para se vacinar - está mandando mais crianças para o hospital, especialmente em regiões do país em que a pandemia está aumentando.

“Se há mais casos num determinado momento, é claro que crianças sofrerão as consequências”, afirmou Malley.

Aumento de casos

Muitos hospitais pediátricos tinham expectativa de um verão tranquilo. Vários vírus que infectam habitualmente as crianças são menos comuns durante os meses mais quentes, e taxas nacionais relativas a covid caíam ao longo da primavera.

No mês passado, porém, com a disseminação da variante Delta, isso começou a mudar.

“O número de testes positivos para covid começou a aumentar no início de julho”, afirmou Marcy Doderer, presidente e diretora executiva do Hospital Pediátrico do Arkansas. “E foi aí que começamos a ver realmente as crianças adoecerem.”

As vacinas são efetivas contra a variante Delta - e fornecem proteção poderosa contra casos graves de covid e mortes ocasionadas pela doença - mas crianças com menos de 12 anos não se qualificam para tomá-las. Então, à medida que cada vez mais adultos se vacinam, as crianças acabam representando uma fatia crescente dos casos de covid; entre 22 e 29 de julho, 19% dos novos casos de covid registrados eram de crianças doentes, de acordo com a Academia Americana de Pediatria (AAP).

“Elas não estão vacinadas”, afirmou Yvonne Maldonado, pediatra especializada em doenças infecciosas do Comitê para Doenças Infecciosas da AAP. “E é nesse recorte que estamos vendo todas as novas infecções.”

Entre 22 e 29 de julho, foram registrados aproximadamente 72 mil novos casos pediátricos de covid, quase duas vezes o número da semana anterior, de acordo com a associação. No Johns Hopkins All Children’s Hospital, 181 crianças testaram positivo para o coronavírus em julho, contra somente 12 em junho.

A maioria das crianças tem sintomas relativamente leves, como nariz escorrendo, congestões, tosses ou febres, afirmou Wassam Rahman, diretor médico do centro de emergência pediátrica do All Children’s. “A maioria das crianças não fica muito grave”, afirmou ele. “A maioria é mandada para casa para ser submetida a tratamento preventivo. Mas, como você deve imaginar, as famílias estão apavoradas.”

Uma pequena parte das crianças desenvolve casos graves de covid e aparece no hospital com pneumonia ou outros problemas respiratórios.

Algumas crianças hospitalizadas apresentam outras condições crônicas, como diabetes ou asma, o que pode torná-las mais vulneráveis à covid, mas médicos afirmaram que também encontram pacientes graves sem nenhum fator de risco óbvio.

Sophia, que estava nas equipes de corrida e atletismo da escola, era saudável e ativa antes de pegar covid, afirmou sua mãe. Os pais ficaram impressionados com a velocidade com que o estado dela se deteriorou.

“De um minuto para o outro, ela ficou muito mal”, afirmou Villarraga. “Pensei, 'Quer saber, pode ser que você perca sua filha’.”

Depois que Sophia foi internada, os médicos passaram a tratá-la com o antiviral remdesivir, antibióticos, esteróides e um anticoagulante.

“A partir daí, foi dia a dia”, afirmou Villaraga. “Devagarzinho ela foi melhorando.”

Sophia, como a maioria das crianças que pegam covid-19, deverá se recuperar plenamente, afirmou a mãe. (Uma pequena parte das crianças pode experimentar sintomas persistentes a longo prazo, conhecidos como covid longa). Ela teve alta em 31 de julho e celebrou o aniversário alguns dias depois - em casa, com um bolo de sorvete.

Diferenças da Delta

Villaraga não foi informada se foi a variante Delta que infectou Sophia; mais de 80% dos novos casos de covid nos EUA, porém, são provocados por essa cepa, segundo o CDC; e médicos afirmaram ser evidente que a delta está por trás do aumento das infecções entre crianças.

O que permanece desconhecido é se as crianças infectadas com a variante Delta estão realmente ficando mais graves do que se tivessem pegado uma cepa diferente - ou se a Delta, que é aproximadamente duas vezes mais transmissível que o vírus original, é simplesmente tão infecciosa que muito mais crianças estão adoecendo.

Há alguma evidência surgindo - principalmente em dados relativos a adultos - dando conta de que a variante Delta é capaz de provocar casos mais graves de covid. Estudos realizados no Canadá, na Escócia e em Cingapura, por exemplo, sugeriram, de modo variado, que a Delta pode causar mais hospitalizações, internações em UTI ou mortes.

Mas a pesquisa é preliminar, afirmam especialistas, e ainda não há dados de boa qualidade suficientes a respeito da gravidade dos casos de covid causada pela variedade Delta entre crianças.

“Não há evidência concreta de que a doença seja mais grave”, afirmou Jim Versalovic, diretor de patologia e diretor interino de pediatria do Hospital Pediátrico do Texas, em Houston, onde cerca de 10% das crianças testam positivo, atualmente, para o vírus, contra menos de 3% em junho. “Certamente estamos vendo casos graves, mas vimos casos graves ao longo de toda a pandemia.”

Apesar de nem todos os Estados divulgarem números de hospitalizações pediátricas, a informação disponível sugere que a taxa ficou essencialmente constante por meses. Nacionalmente, cerca de 1% das crianças infectadas com o coronavírus é hospitalizada, e 0,01% morre, de acordo com dados da AAP. Índices de hospitalizações e mortes estão em declínio desde o último verão.

Ainda é possível, claro, que a variante Delta possa vir a causar mais casos graves de covid entre crianças. Taxas de hospitalização, um indicador defasado, poderiam aumentar nas próximas semanas e meses. E a rara, mas grave, síndrome inflamatória que algumas crianças desenvolvem com a covid-19 pode demorar semanas para aparecer. /Tradução de Augusto Calil

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