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A vida (e a morte) vem em ondas

Não cabe mais negar o problema, mas não é possível - ou preciso - impor medidas extremamente radicais

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2020 | 05h00

Ao nos aproximarmos de um ano convivendo com essa pandemia que desorganizou totalmente nossas vidas, encontrar pessoas que ainda vivem como se ela não existisse me parece tão espantoso quanto encontrar pessoas que ainda vivem apontando o dedo para condenar tal comportamento.

Verdade é que conforme o número de casos foi diminuindo à medida em que as pessoas tomavam os devidos cuidados, essa rixa não estava mais na ordem do dia. Mas com esse aumento de infecções e mortes novamente ouve-se o discurso da indignação e condenação moral daqueles que baixaram demais a guarda e alimentaram essa nova onda, que pouco importa se vamos chamar de primeira, segunda, o que for.

Já falei antes e volto a insistir: não vai adiantar. Não funcionou antes, não funcionará agora. Se quisermos enfrentar unidos esse novo coronavírus é preciso encontrar o que temos em comum, não o que nos separa. Agora temos essa chance no horizonte, conforme os extremos vão cedendo e se aproximando do bom senso. Não é otimismo, é constatação: na Europa, medidas menos restritivas do que no início do ano têm sido eficientes para derrubar as taxas de transmissão.

Na outra ponta, o negacionismo está tão fora da pauta que até o presidente Bolsonaro abandonou o discurso da gripezinha. Não cabe mais negar o problema, mas não é possível - ou preciso - impor medidas extremamente radicais.

O aumento de casos se deu em grande parte por uma conjunção de dois fatores. As pessoas não aguentavam mais as medidas muito restritivas e foram retomando as atividades, mas isso aconteceu justamente quando a percepção de risco estava mais baixa, levando-as a abrir mão dos cuidados essenciais. Numa pesquisa informal em minhas redes sociais, 90% das pessoas tinham conhecimento de eventos ferindo os protocolos de segurança.

Intervenções que buscam alterar o comportamento das pessoas falham por diversos motivos. Algumas simplesmente são inócuas.

Outras funcionam na hora, mas apresentam efeitos colaterais que anulam sua eficácia. E há ainda aquelas cujos efeitos negativos vêm no longo prazo: a gente até muda, mas com o tempo essas mudanças levam a reações mais prejudiciais do que antes. O famigerado efeito sanfona que acompanha todos os regimes vem daí: após perder peso por restringir demais a dieta, a própria restrição leva a pessoa a comer em excesso posteriormente. Comer com moderação é mais eficaz do que dietas rigorosas.

As quarentenas muito restritas, impedindo qualquer contato social, levaram a resultado semelhante. Um estudo deste ano mostrou que ansiamos por pessoas mais ou menos da mesma forma que ansiamos por comida: os cérebros de voluntários que foram impedidos de comer durante dez horas apresentaram respostas análogas aos cérebros de quem foi impedido de interagir socialmente pelo mesmo período. Assim como é mais fácil se manter na linha comendo com moderação, com pequenos esforços trazendo mais resultados que grandes sacrifícios, o mesmo raciocínio pode ser aplicado em nosso regime de contatos sociais.

Hoje sabemos que a maioria das pessoas contaminadas não passa a doença para outras, mas que a pandemia se expande em eventos onde há muita gente, pouca ventilação, contato próximo e baixo uso de máscaras.

As medidas mais eficazes são relativamente simples - como nas melhores dietas, requerem alguma reeducação, mas nada de mudanças insustentáveis: ventilar bem o ambiente, promovendo a renovação frequente do ar, uso contínuo e universal de máscara, evitar contato próximo. Isso serve para reuniões familiares, para o comércio, eventos culturais. Se orientássemos as pessoas a manter esses protocolos em suas reuniões sociais, em vez de banir qualquer contato, talvez a recaída não fosse tão grande.

Às vezes, temos a sensação que as pessoas não aguentam mais falar em pandemia, mas isso não é verdade. Elas não aguentam mais ouvir ameaças, mas ainda estão sedentas por informação. Que aproveitemos esse novo aumento de casos para ajudá-las a recalibrar sua percepção de risco e retomar os cuidados adequados e sustentáveis no tempo. Só assim temos chance de acabar com esse vai e vem de onda.

 

É PSIQUIATRA E PROFESSOR COLABORADOR DO DEPARTAMENTO E DO INSTITUTO DE PSIQUIATRIA DA FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (USP)

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