Katie Orlinsky/The New York Times
Katie Orlinsky/The New York Times

Aborto pode explicar poucos casos de microcefalia na Colômbia

Apesar de ter enfrentado a 2ª pior epidemia de zika do mundo, atrás apenas do Brasil, país vizinho teve só 47 ocorrências da má-formação

Donald G. Mcneil Jr. e Julia Symmes Cobb, The New York Times

17 Novembro 2016 | 08h43

BARRANQUILLA - Esta cidade tropical na costa caribenha pode ter a resposta para um dos maiores mistérios da epidemia do zika: por que o segundo maior surto do mundo, depois do Brasil, produziu tão poucos casos de má-formação em recém-nascidos?

No Brasil, mais de 2 mil bebês nasceram com microcefalia - cabeça anormalmente pequena e danos cerebrais -, causada pelo vírus zika. Na Colômbia, as autoridades haviam previsto que poderia haver 700 desses bebês até o final deste ano. Houve apenas 47.

Essa diferença foi vista em todas as Américas. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), os Estados Unidos têm 28 casos - quase todos ligados a mulheres que foram infectadas em outros lugares. A Guatemala tem 15 e Martinica, 12.

Se o resto das Américas tivesse sido tão afetado quanto o Nordeste do Brasil, um maremoto de microcefalia varreria a região. A maioria dos especialistas diz que isso não acontecerá, mas não consegue precisar o motivo.

Descobrir o que parou a microcefalia na Colômbia pode ajudar outros países a contornar os piores efeitos da epidemia.

Existem algumas diferenças óbvias entre o surto da Colômbia e o do Brasil: a população aqui é de menos de um quarto da brasileira e quase metade de seus moradores vive em altitudes mais elevadas, onde os mosquitos são mais raros.

E o zika circulou silenciosamente durante muito mais tempo no Brasil. O vírus chegou lá por volta do início de 2014, e na Colômbia só em 2015. Este país acabara de enfrentar uma epidemia de chikungunya severa em 2014, e foi mais rápido para mandar brigadas antimosquitos.

Mas tudo isso não parece suficiente para explicar a disparidade. Cada vez mais, surgem evidências de duas outras possibilidades.

As grávidas daqui, alertadas para a tragédia que se desenrolava no Brasil, podem ter recorrido a abortos em maior número, segundo dizem as autoridades. Outras parecem ter escutado o controverso conselho do governo para adiar a gravidez.

O Dr. Miguel Parra-Saavedra, diretor de medicina materno-fetal na Clínica Cedifetal em Barranquilla e um dos principais especialistas em gravidez de risco do país, está entre os que suspeitam que muitas grávidas colombianas, alarmadas com as reportagens, fizeram ultrassonografias e abortaram fetos com má-formação.

O Dr. Fernando Ruiz, do Ministério de Saúde Pública na Colômbia, diz que é "muito possível" que os abortos tenham diminuído a taxa de microcefalia.

"A Colômbia tem alguns dos regulamentos e leis mais progressistas da América do Sul. Os ginecologistas estão alerta em relação à ameaça e muitas mulheres fizeram ultrassonografias cedo o suficiente para tomar decisões", disse ele em entrevista.

Mesmo um pequeno aumento na taxa de abortos poderia resultar em uma redução acentuada da microcefalia.

Apenas 320 abortos legais foram oficialmente relatados na Colômbia em 2011, segundo o Instituto Guttmacher, grupo de Nova York que apoia o direito ao aborto. No entanto, o instituto estima que na verdade mais de 400 mil sejam feitos anualmente.

Neste país, a maioria desses procedimentos não é realizada em clínicas com aspiração a vácuo, mas, sim, induzida por misoprostol, uma droga que provoca contrações fortes, disse o Dr. Guido Parra Anaya, diretor da clínica de fertilidade assistida Procrear, em Barranquilla.

Qualquer médico pode prescrever a droga, e nenhum deles é legalmente obrigado a denunciar o procedimento.

O misoprostol também é comumente encontrado com provedores ilegais daqui, segundo o Instituto Guttmacher. Frequentemente, as mulheres são instruídas a tomar os comprimidos e ir a um hospital quando o sangramento pesado começa, como se estivessem tendo um aborto natural. 

Os hospitais colombianos tratam cerca de 93 mil mulheres por ano que apresentam complicações após o aborto.

Em julho, a Drª. Martha Lucia Ospina, diretora do Instituto Nacional de Saúde da Colômbia, relatou que as mortes de fetos relatadas como abortos naturais em certificados de óbito haviam aumentado 8%. Os números começaram a voltar ao normal recentemente.

No Brasil, em comparação, o aborto é permitido apenas em casos de estupro ou incesto ou para salvar a vida da mãe, e o aborto ilegal é de difícil acesso, porque a polícia, sob pressão dos evangélicos no Congresso, iniciou o combate às clínicas clandestinas há uma década.

Além disso, porque a leva de microcefalia no Brasil apareceu sem nenhum aviso, mesmo as mulheres que poderiam ter tentado abortos ilegais não tiveram tempo de fazer ultrassonografia.

Na Colômbia, todas hoje fazem normalmente três desses exames durante a gravidez. Esse fato gerou escolhas difíceis.

A microcefalia também pode ser causada por outros vírus ou mutações genéticas, mas o vírus zika causa níveis sem precedentes de danos cerebrais.

"Nos meus 22 anos como ultrassonografista, nunca vi microcefalia assim. As cabeças são muito menores, em grau severo", disse Parra-Saavedra.

Apesar de bolsões de células mortas que prenunciam a microcefalia possam aparecer bem cedo na gestação, a cabeça dos fetos não se torna inconfundivelmente pequena até o princípio do terceiro trimestre.

As seguradoras de saúde, que enfrentam problemas financeiros aqui, estão relutantes em aprovar abortos tardios porque precisam pagar pela unidade de terapia intensiva (UTI) neonatal, se a criança nascer viva.

Para as mães, o diagnóstico é compreensivelmente difícil. No terceiro trimestre, os fetos no ultrassom já se parecem muito com recém-nascidos, não com embriões.

Os primeiros exames do filho de Kiara Munoz, Juan Diego, estavam normais. Quando sua microcefalia ficou evidente, ela estava no sétimo mês de gravidez e conseguia ver seu rostinho claramente.

"O ginecologista disse que eu poderia acabar com tudo, e chorei. Foi muito difícil, porque o bebê já estava muito grande. Meu marido e eu decidimos mantê-lo. Estou esperando por um milagre", disse Kiara, que tem 18 anos, mas parece ter 15.

A epidemia de zika na Colômbia atingiu o pico em fevereiro e foi declarada acabada no final de julho. Muitas mulheres que engravidaram durante esse tempo ainda não deram à luz, portanto podem aparecer mais casos de microcefalia.

Mas ainda assim, serão muito menos do que o inicialmente previsto.

Ruiz disse que com base na experiência do Brasil, ele esperava ver 700 casos de microcefalia relacionada ao zika neste ano. Agora, espera de 100 a 250, no máximo.

Em dezembro, Ruiz pediu que as colombianas adiassem a gravidez, e ele acredita que muitas o tenham feito, embora ainda não possa provar.

Uma diminuição da taxa de natalidade indica que muitas mulheres ouviram o conselho, mas o escritório de estatísticas nacionais de saúde leva 18 meses para calcular a taxa de cada ano.

Em alguns países da América Latina, as sugestões dos ministros da Saúde para que mulheres adiem a gravidez foram recebidas com resistência - tanto da Igreja Católica Romana quanto de grupos de mulheres que se queixaram dizendo que havia pouco acesso à contracepção.

El Salvador enfrentou uma reação quando pediu às mulheres para parar de ter filhos por dois anos, mas o Ministério da Saúde da Colômbia pediu apenas que elas adiassem por apenas seis ou oito meses, enquanto se verificava como a epidemia se desenrolava. Algumas mulheres acharam a atitude sensata.

Enquanto o marido policial, Gustavo, e seu jovem filho Sebastian assistiam, Madis Dominquez, de 27 anos, explicava por que fazia um ultrassom aos quatro meses de gravidez em setembro.

"Eu planejei engravidar em dezembro passado, mas pediram para a gente esperar mais seis meses. Então esperei até maio, quando falaram que tudo parecia seguro de novo".

Ainda não dá para saber quantas mulheres seguiram seu exemplo.

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