TABA BENEDICTO / ESTADÃO
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Abuso de remédios para inflamações traz riscos à saúde, revelam estudos

Medicamentos são importantes nos casos com recomendação médica, mas uso inadequado pode causar úlceras e até reduzir benefícios do exercício físico

Cristiane Segatto, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2022 | 05h00

Novos estudos que ampliam o conhecimento sobre a importância da inflamação na defesa do organismo, no reparo de tecidos, no funcionamento do cérebro e em muitos outros processos vitais, como o Estadão mostrou no sábado, também despertam a discussão sobre os riscos do consumo abusivo de medicamentos.

“O uso excessivo de anti-inflamatórios pode ter duas consequências negativas. Além de perturbar a homeostase (a manutenção do equilíbrio fisiológico do organismo), pode comprometer a defesa contra infecções e até contra alguns tipos de tumor”, disse o imunologista Ruslan Medzhitov, professor da Universidade Yale (EUA), ao Estadão. Em uma edição especial a respeito do papel da inflamação, publicada recentemente pela revista Science, ele propõe uma visão expandida sobre o tema.

Segundo Medzhitov, estudos recentes têm demonstrado que anti-inflamatórios não esteroides (como o ácido acetilsalicílico e o ibuprofeno) podem causar úlceras no intestino e até reduzir o efeito positivo dos exercícios físicos, se usados em altas doses e por longos períodos. A automedicação, prática comum no Brasil, complica o problema.

Em janeiro deste ano, 26 milhões de caixinhas de anti-inflamatórios foram vendidas em farmácias por todo o País. Se cada consumidor tivesse levado para casa só uma caixinha, a quantidade vendida neste mês seria suficiente para alcançar 12% da população brasileira. Entre 2020 e 2021, a venda subiu 3%: de 217 milhões para 224 milhões de caixas.

O levantamento feito a pedido do Estadão pela consultoria IQVIA, empresa que monitora informações do setor farmacêutico, considera só a categoria de anti-inflamatórios usados para tratar o sistema músculo-esquelético, como dores na perna, braço, ombro, quadril e coluna, entre outros.

Dores desse tipo são bem conhecidas no mundo da dança. A paulistana Júlia Pontes dos Santos, de 19 anos, formada em balé clássico profissional, calçou as primeiras sapatilhas aos dois anos de idade e passou a infância se exercitando na barra e ensaiando coreografia por longas horas.

Ela tinha menos de 12 anos quando sofreu uma lesão na coluna. “Tomava anti-inflamatórios, relaxantes musculares e opióides para evitar a fisioterapia e continuar dançando”, conta Júlia. “Às vezes, ficava travada na cama por dois dias. Comecei a usar esses remédios feito água. Minha mãe escondia as caixas, mas eu tomava sem que ela soubesse.”

Como tantas garotas que almejam passar pela difícil seleção das grandes companhias de dança, Júlia queria ser descoberta em São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo, e brilhar no exterior. Mais madura, faz faculdade de Fisioterapia e segue praticando quatro horas de dança (balé clássico, heels dance e dança do ventre) por dia, três vezes por semana. Júlia pretende trabalhar com preparação física para bailarinos. “Não abri mão do meu sonho, mas abri minha cabeça.”

Para trilhar esse novo caminho, ela se inspira no exemplo de Tamires Reis, personal trainer especializada em treinamento físico para bailarinos. Formada em Educação Física pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e bailarina profissional, ela criou um programa online de prevenção de lesões. Dá consultoria para grandes companhias de dança e conhece bem a cultura do uso indevido de remédios.

“Bailarinos acham que é normal sentir dor e tomar anti-inflamatórios por conta própria. Um indica os remédios ao outro. Eu mesma vivi isso e cometi esse erro”, diz. “Enquanto pensam que é fraqueza demonstrar que não estão bem, muito professores insistem em achar que longas horas de dança são suficientes para preparar o corpo para a execução dos movimentos”, diz Tamires. “Não é verdade. Bailarinos precisam de um trabalho muscular para prevenir lesões, assim como jogadores de futebol e outros atletas”, acrescenta.

Ana Caetano Faria, presidente da Sociedade Brasileira de Imunologia, salienta que anti-inflamatórios são extremamente importantes quando usados no momento certo. Nas situações em que a pessoa não consegue lidar com uma infecção ou inflamação exacerbada, em doença autoimune ou alérgica. “A pessoa precisa daquele medicamento, mas isso tem de ser feito com muito critério para não inibir outras substâncias benéficas”, diz.

Para o imunologista Luiz Vicente Rizzo, diretor-superintendente de pesquisa do Hospital Israelita Albert Einstein, o abuso de anti-inflamatórios prejudica o equilíbrio homeostático. “São uma das classes de drogas mais consumidas no Brasil e no mundo, mas cerca de 10% das pessoas têm reações adversas”, afirma.

Ele explica que, em grande parte dos casos, isso corre porque nossos receptores entendem que o remédio é uma tentativa de bloquear um processo natural. “É claro que anti-inflamatórios são importantes nos casos em que, por exemplo, a pessoa tem artrite reumatoide que precisa ser controlada, mas não são drogas para uso sem prescrição médica, como muitos fazem.”

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