Marcos Corrêa/PR
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'Acabou matéria no Jornal Nacional', diz Bolsonaro sobre atraso em dados da covid-19

Presidente não confirmou que é dele a ordem para que os dados, antes entregues por volta das 19h, sejam apresentados apenas às 22h

Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2020 | 19h47

BRASÍLIA  - Após o terceiro dia seguido em que o Ministério da Saúde atrasa a divulgação do número de mortos e infectados pela covid-19, o presidente Jair Bolsonaro  indicou, nesta sexta-feira, 5, ser proposital a mudança no horário. "Acabou matéria no Jornal Nacional", disse o presidente, em rerefência ao telejornal noturno da TV Globo, que detém a maior audiência do País.

Questionado, Bolsonaro não confirmou ter partido dele a ordem para que os dados, antes entregues por volta das 19h, sejam apresentados apenas às 22h. "Não interessa de quem partiu (a ordem). Acho que é justa essa ideia da noite, sair o dado completamente consolidado", disse o presidente em entrevista na noite desta sexta-feira em frente ao Palácio da Alvorada.

A primeira divulgação às 22h ocorreu na quarta-feira, quando o Brasil registrou, em 24 horas, 1.349 mortes pela covid-19, o maior número até hoje. No dia seguinte, novo recorde: 1.473.

Na entrevista desta sexta-feira, Bolsonaro disse que "ninguém tem de correr para atender a Globo" e cobrou que sejam divulgados apenas os números de pessoas que morreram naquele dia. Isso porque os dados apresentados pelo Ministério da Saúde incluem os óbitos que ocorreram em datas anteriores, mas só tiveram a confiramção de que a causa foi a covid-19 nas últimas 24 horas.

Para justificar o atraso, o Ministério da Saúde informou que os dados são fornecidos por secretarias de Estados e municípios e, em alguns casos, há "necessidade de checagem junto aos gestores locais. “Essas situações podem acontecer, porque esse processo de checagem é muito variável”, disse o secretário substituto de Vigilância em Saúde, Eduardo Macário na quinta-feira, 4. Ele negou que o atraso é proposital.

Comorbidades

Bolsonaro também voltou a minimizar, nesta sexta-feira, 5, números da doença no País. Ele sugeriu que outras doenças são a causa real de muitas mortes.

"Tem de saber quem perdeu a vida 'do covid' ou 'com covid'. A pessoa tem 10 comorbidades, 94 anos. Tem, pegou vírus. Potencializa. Parece que esse pessoal.. Globo, Jornal Nacional, gosta de dizer que o Brasil é recordista em mortes. Falta, inclusive, seriedade. Mortes por milhões de habitantes, nem se faz", disse Bolsonaro.

Conforme dados de quinta-feira, 4, o País atingiu a marca de 34.021 vidas perdidas pela covid-19, tornando-se o terceiro em número de mortos, segundo ranking da Universidade Johns Hopkins, às 19h, desta quinta-feira, 4. Há ainda 4.159 mortes em análise, que podem aumentar a conta de vítimas da covid-19. 

Como o Estadão revelou, informes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) enviados ao Palácio do Planalto e a ministros alertam para alta subnotificação de infectados e mortos no Brasil. “A participação do Brasil torna-se mais significativa se for considerado que o País tem 10 a 15 vezes menos testes diagnósticos realizados por milhão de habitantes que os demais (países) e, portanto, é provável que os números brasileiros estejam subestimados e sejam de maior proporção do que os apresentados”, diz relatório de 12 de maio.

Sobre o que disse o presidente, a TV Globo divulgou a seguinte nota: “O público saberá julgar se o governo agia certo antes ou se age certo agora. Saberá se age por motivação técnica, como alega, ou se age movido por propósitos que não pode confessar mais claramente. Os espectadores da Globo podem ter certeza de uma coisa: serão informados sobre os números tão logo sejam anunciados. Porque o jornalismo da Globo corre sempre para atender o seu público.”

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