Açaí é transmissor de Doença de Chagas na Amazônia

Desde janeiro, Brasil já registrou 100 casos da doença e quatro mortes, aponta Vigilância Sanitária

Lígia Formenti,

09 de outubro de 2007 | 19h56

Um ano depois de o País ter recebido da Organização Pan-Americana de Saúde um certificado pela eliminação de transmissão da Doença de Chagas pelo barbeiro que vive em buracos de casas situadas em regiões pobres, autoridades em saúde deparam-se com um novo desafio envolvendo a infecção. Desta vez, a forma aguda da doença, associada a ingestão de alimentos, sobretudo o açaí, contaminados com o mosquito transmissor. De janeiro até sexta-feira, foram contabilizados 100 casos de Doença de Chagas Aguda (DCA), com quatro mortes. Mantida esta tendência, o ano de 2007 fechará com um número maior de casos do que em 2006, quando 115 casos foram confirmados. Por enquanto, não há perspectivas de erradicação da doença. O diretor de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS), Eduardo Lage, afirma que a estratégia hoje disponível é para controlar a DCA, não erradicá-la. "Não existem técnicas que possam impedir esta forma de transmissão, mas reduzi-la", admitiu. Ele observou que o açaí é consumido por grande parte da população da região amazônica. O suco é produzido artesanalmente e, justamente por isso, algumas medidas recomendadas, como a pasteurização, não tem como ser aplicada.   A maior parte dos casos da nova onda de infecções ocorreu em surtos, que afetaram 10 municípios nos Estados do Amazonas, Amapá e Pará. Investigações mostram que a transmissão da doença ocorreu principalmente pela via oral. E o alimento mais associado à infecção foi o açaí. Os casos restantes, isolados, ainda não tiveram a forma de transmissão identificada. Diante de tal tendência, autoridades de saúde intensificaram os esforços para tentar impedir a ocorrência de novos surtos. Um grupo de pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas e da Universidade Federal do Pará analisam a qualidade das polpas do açaí. Integrantes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, ao lado de órgãos da agricultura, tentam formular um documento com normas de higiene que deverão ser observadas desde a colheita do açaí - um fruto de palmeira que nasce em regiões de várzea - até a extração e comercialização do suco. Simultaneamente, o governo do Pará criou um grupo de estudos para impedir o aumento da doença no Estado, responsável por 95% da produção nacional do açaí. Reuniões foram realizadas entre representantes da Secretaria de Estado de Saúde Pública do Pará, Agência de Desenvolvimento Agropecuário e Ministério Público Estadual com batedores de açaí, como são chamados os pequenos produtores. Eles deverão assinar Termos de Ajuste de Conduta, com diretrizes para o manejo do fruto. Entre as recomendações propostas estão o uso de engradados de plástico para o acondicionamento do fruto, a lavagem pelo menos três vezes do açaí, uma delas com hipoclorito de sódio. Nas lojas, é recomendado o uso de pisos impermeáveis e lisos, de cores claras. Lage, afirmou que, para produção em escala industrial, um TAC também já foi estabelecido, determinando a pasteurização do produto. Embora não haja estudos científicos que comprovem a eficácia do processo, pesquisadores envolvidos na área de tecnologia de alimentos concordam que o método elimina a possibilidade de infecção pelo consumo de frutas contaminadas. Esta tese foi referendada numa reunião em Brasília, realizada com especialistas. Além da pasteurização estão sendo realizados estudos pela UNICAMP, Universidade Federal do Pará e Instituto Evandro Chagas para identificar outras técnicas seguras para o consumo dos alimentos, como por exemplo, diferentes técnicas de congelamento. Para pequeno produtor, uma das alternativas analisadas são diferentes técnicas de congelamento.

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