Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

'Achava que quanto mais fome pudesse suportar, mais rápido emagreceria', diz Amanda Costa

Foi preciso chegar ao extremo da desnutrição para que ela entendesse a importância de uma relação saudável com o corpo e a comida. Hoje, como nutricionista, ela ajuda os outros a chegar lá

Ana Lourenço, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2022 | 05h00

O ato de se comparar com os outros é um comportamento muito difícil de ser quebrado (especialmente com as redes sociais) e que pode trazer muita angústia. No caso de Amanda Costa, querer ser como as amigas do colégio, aos 13 anos, a fez desenvolver um transtorno alimentar, abandonar os esportes – que a deixavam com a perna torneada – e a dedicar quase oito anos da sua vida à preocupação excessiva com o corpo.

Hoje, nutricionista, ela ajuda outros a perceber os benefícios de ter uma relação saudável com a comida. “Você querer mudar seu corpo quando você o ama, é totalmente diferente de quando você o odeia. Um é punição, o outro é cuidado. A gente tem um caminho de infinitas possibilidades na alimentação, que vai muito além de falar de calorias”, diz.

Comer está intimamente ligado às emoções. Qualquer encontro ou aniversário pede um pratinho de quitutes. Páscoa, Natal? Haja comilança. E quem nunca quis sopa de mãe quando esteve doente? “Comer não está ligado somente a nutrientes e calorias. A gente também come considerando as memórias afetivas”, diz a nutricionista Amanda Costa.

Para ela, é essencial criarmos uma relação saudável com a comida no nosso dia a dia. “A nutrição faz muito sentido para mim por ter um propósito. Já atendi e atendo pessoas que têm uma relação de culpa e até de supercompensação das emoções com a comida. E as ajudo a identificar em que momento o comer se tornou algo para escape ou alívio, mas também como é possível comermos com emoção, com uma comida afetiva, por exemplo, para sermos mais gentis com nós mesmos.”

A escolha da profissão veio depois de anos sofrendo com anorexia, distúrbio alimentar que leva a pessoa a ter uma visão distorcida de seu corpo, sempre enfatizando seu peso. “Não foi gostoso passar por tudo isso, mas hoje a minha visão é outra, especialmente com a minha profissão. Tenho um cuidado muito maior”, afirma.

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Eu sabia que estava magra, mas não tinha noção do quanto. Eu achava que não era o suficiente. Tinha uma distorção muito grande da minha imagem
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Amanda Costa, Nutricionista

Caminho até a anorexia

Tudo começou aos 13 anos. Amanda era jogadora de handebol e, por isso, tinha o corpo com músculos aparentes. Já seu grupo de amigas era de meninas mais magras e esguias. “Em um momento, comecei a perceber que meu corpo era diferente do delas. Quando elas falavam que minhas pernas eram grossas, eu não achava que era por serem torneadas. Botei na cabeça que tinha de emagrecer”, admite.

No mesmo período, a igreja que ela e a família frequentavam fez uma prática de período de jejum por um tempo curto, o que Amanda aproveitou como desculpa para parar de comer. “Achava que quanto mais fome pudesse suportar, mais rapidamente eu emagreceria.” Ao longo de um ano, ela perdeu mais de dez quilos.

Mas o extremo do distúrbio foi aos 16 anos, quando, depois de se pesar sem beber água, percebeu que era mais leve. “Fiquei sem beber água por um tempo, comecei a sentir dores na região das costas e fui levada ao hospital. Lá, o médico falou que a minha capacidade renal estava baixa e me internou”, diz.

Na época, ela pesava 29 quilos. “Eu sabia que estava magra, mas não tinha noção do quanto. Achava que não era o suficiente. Tinha uma distorção muito grande da minha imagem. Quanto mais ossos aparecendo, mais bonito eu achava”, conta Amanda.

Mudança na relação com a comida

O ponto de virada foi ver o sofrimento de sua mãe, e a solidão que veio com a doença. “Eu não tinha mais convívio com meus amigos, não podia mais jogar, não podia sair porque tudo envolvia comida e isso era uma questão para mim. Percebi que o controle do meu peso não estava me trazendo tanta felicidade”, diz ela que, a partir desse momento, aceitou o tratamento.

Ao fim dos 17 anos, Amanda já pesava 50 quilos. No entanto, foi preciso muita força de vontade para continuar a mudança. Afinal, sua imagem corporal ainda demorou mais quatro anos para voltar ao normal. “Eu sentia que nunca mais ia parar de engordar”, recorda. “Tive recaídas, mas um dia tomei um café da manhã sem me sentir culpada.”

A nutricionista olha para trás com orgulho de sua superação. “Ainda é um processo difícil. Ainda me incomodo com algumas coisas do meu corpo, mas isso não é grande o suficiente para eu abrir mão de ter prazer com a comida e de amar o meu corpo”, conclui. “É ele que me permite viver todos os dias e chegar aonde quero, então, eu preciso cuidar dele e não apontar no espelho seus defeitos. Eu só tenho de agradecer.”

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