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Governo de São Paulo / Divulgação
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'A vacina é uma lição para vocês, autoritários que desprezam a vida', diz Doria após aprovação

'Hoje é o dia V. É o dia da vacina, é o dia da verdade, é o dia da vitória, é o dia da vida', afirma o governador de São Paulo após aprovação de uso emergencial de vacinas

Gilberto Amendola e Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2021 | 15h47
Atualizado 17 de janeiro de 2021 | 20h01

"Hoje é o dia V. É o dia da vacina, é o dia da verdade, é o dia da vitória, é o dia da vida." Com essa frase o governador de São Paulo, João Doria, iniciou a entrevista coletiva sobre a aprovação do uso emergencial de vacinas no Brasil, entre elas a Coronavac, produzida pelo Instituto Butantã com a chinesa Sinovac.

Ele e membros do seu governo fizeram manifestações emocionadas, mas com tom político recheado de críticas ao governo federal. "É o triunfo da vida contra os negacionistas, contra aqueles que preferem o cheiro da morte, ao invés do valor e da alegria da vida", disse Doria, ao lado da enfermeira Mônica Calazans, do Hospital Emílio Ribas, a primeira pessoa no Brasil a receber uma dose da Coronavac. Depois dela, pelo menos 111 outros profissionais do Hospital das Clinicas, onde foi realizada a coletiva, também foram vacinados.

O governador chamou a vacinação de uma vitória da democracia e dedicou o avanço da vacina às mais de 209 mil vítimas do coronavírus no Brasil e aos mais de 8,4 milhões de pessoas que se infectaram com a doença.  "A vacina vai ajudar a evitar cenas dramáticas e trágicas como o Brasil e o mundo viram em Manaus. Cenas que chocaram a opinião pública mundial", disse o governador.

Doria fez críticas diretas ao presidente Jair Bolsonaro, seu adversário político, com quem vem travando discordâncias desde o início da pandemia, citando falas dele e do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello. "'E daí?', disse um brasileiro. 'Pressa para quê', disse outro brasileiro. 'Toma cloroquina que passa', disse um líder do País. A vacina é uma lição para vocês, autoritários que desprezam a vida, que não têm compaixão, que desprezam a atenção, a dedicação e a necessidade de proteger abrasileiros. Você não fizeram isso", disse.

Mas elogiou o corpo técnico da Anvisa, dizendo que eles cumpriram seus deveres e obrigações e mostraram a autonomia de um órgão regulador. “Resistiram às pressões. A ciência falou mais alto do que o autoritarismo.”

O governador também criticou o chamado "tratamento precoce" defendido por Bolsonaro e por Pazuello, que não tem nenhuma eficácia, de acordo com a ciência, contra a covid-19. "Espero que o comportamento do ministério da saúde seja pela vida e que parem de recomendar e distribuir a cloroquina", disse. “Hoje é um dia de esperança, de renascimento, de buscar mais forças para prosseguimos. A chegada da vacina não nos livra do uso da máscara, da necessidade do isolamento social e da necessidade de não aglomerar”, continuou.

Ele autorizou a imediata distribuição da vacina do Butantã ao Ministério da Saúde e disse esperar que o órgão aja de "forma diligente, objetiva, com planejamento para que chegue de foma mais rapida possível aos braços dos brasileiros".

De acordo com Doria, profissionais de saúde de São Paulo já estão sendo vacinados no Hospital das Clínicas da USP e que nesta segunda, 18, começa o plano logístico das vacinas que cabem ao Estado. "A vacinação deve começar imediatamente. Cada dia conta, cada vida também", afirmou o governador. Segundo ele, na sequência, profissionais de saúde de Ribeirão Preto, Campinas e outras cidades do interior também receberão a Coronavac.

'Torcida contra'

Após a manifestação de Doria, o diretor do Instituto Butantã, Dimas Covas, disse que este domingo é "um dia de luz". Ele também se queixou do que chamou de "torcida contra" a vacina e defesa de "tratamentos obscuros que não tem nenhuma efetividade, em vez de defender a vacina", em uma nova crítica a Bolsonaro.

"Hoje temos a melhor vacina, porque a melhor vacina é a que chega ao braço das pessoas. A única vacina que está sendo produzida e distribuída no Brasil. A vacina que foi combatida pelas mais altas autoridades da República, relegada ao discurso chulo muitas vezes", afirmou Covas.

De acordo com o diretor do Butantã, por definição do Ministério da Saúde, das 6 milhões de doses já disponíveis no Brasil, 1.357.640 ficaram em São Paulo. Após o anúncio do número, Doria interrompeu Covas para fazer uma nova queixa a Pazuello. Ele disse que, em coletiva que ocorria simultaneamente no Ministério da Saúde, o ministro teria criticado o Estado.

"Neste momento, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, concede uma entrevista coletiva em Brasília, protestando contra São Paulo, quando deveria estar agradecendo São Paulo e o Butantã. Protesta contra a vacina. É inacreditável o que está acontecendo no Brasil. Isso nos cabe pelo Plano Nacional de Imunização, não estamos fazendo nenhuma conta diferente. Estamos atendendo o entendimento do plano nacional de saúde. Lamento, ministro, que o senhor, como ministro da saúde, que deveria estar grato à Anivsa e a São Paulo de termos uma vacina, usa o tempo para protestar contra isso. É inacreditável uma situação como essa. Aqui lutamos pela vida. E Brasília luta pelo quê?", disse Doria.

Em seu pronunciamento, Pazuello disse ter em mãos os imunizantes, mas afirmou que não iria começar a aplicação de doses neste domingo em um "ato simbólico ou um ato de marketing", mas não chegou a mencionar diretamente Doria. Momentos depois, o governador voltou a mencionar a coletiva do ministro.

"Estou atônito com as declarações do ministro. Diz ele: 'as vacinas foram compradas com dinheiro do SUS, do governo federal, e não com dinheiro de São Paulo'. É inacreditável como um ministro de Estado da Saúde, sem um menor zelo com a saúde, sem ser médico, sem ter o menor conhecimento da saúde, um desastre completo, ainda mente. A vacina do Butantã só está em São Paulo e no Brasil porque foi um investimento do Estado de São Paulo, ministro. Não há nenhum centavo, até agora, do governo federal, nem para estudo, nem para compara, nada", declarou Doria.

Após a declaração, disse ainda que vai mandar nesta segunda-feira 50 mil doses da vacina para os médicos da Amazonas, porque disse já não mais confiar no ministério.

Jean Gorinchteyn, secretário estadual de Saúde, afirmou que "hoje é um momento de esperança, de escrever a história desse país", mas também manteve o tom de crítica à gestão Bolsonaro.

"Milhares de pessoas perderam suas vidas, milhares ainda perderão suas vidas por causa desses atrasos que foram feitos pelo governo federal. Nós hoje, atrás de mais de 50 países que já estão vacinando em massa sua população, estamos começando a nossa campanha e ainda rediscutindo as doses. Que ainda são pequenas para imunizar nossa população. Isso infelizmente é algo extramemte triste", afirmou. 

Segundo ele, "houve uma discussão que saiu da esfera científica, da esfera de proteção da vida, de garantia de assistência que é um dever do Estado". O secretário, que também é infectologista, cobrou que haja uma oferta maior de vacinas. 

"Não sejamos hipócritas, não podemos calar essas histórias que morreram por culpa desse descaso. Hoje começamos a vacinar em SãoPaulo. Governo federal, precisamos de mais vacinar, de todas elas, sempre clamamos por isso. E agora não será diferente. Nosso povo não aguenta mais. Vamos fazer um ano de uma tragédia humanitária. Um ano em que as pessoas perderam seus empregos, seus sonhos. É hora de todos exigirmos  uma postura mais austera, enérgica e robusta. E viva a vida. Viva a vacina."

A enfermeira Mônica, a primeira a receber a vacina, também se manifestou: "A população acredita na vacina. Falo como brasileira e mulher negra. Vamos pensar nas vidas que perdemos, nas famílias, pais, mães e irmãos. No início eu fui criticada, recebia piadas, memes e falaram que eu era cobaia. Não sou cobaia, sou participante de pesquisa. Eu pego ônibus, metrô. As pessoas têm medo de chegar perto, estamos lidando com o invisível. Não tenham medo. Essa é a grande chance de salvar mais vidas."

O governo de São Paulo afirmou que nesta segunda já entra com um novo pedido de uso emergencial junto à Anvisa para as vacinas que serão produzidas no Butantã. A autorização deste domingo foi exclusivamente para as 6 milhões de doses importadas. Covas afirmou não esperar nenhuma dificuldade extra pois a documentação é praticamente a mesma. 

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