Acordo para reduzir o teor de sódio na comida é ‘engodo’, dizem médicos

Especialistas em coração, rins e hipertensão criticam acordo do Ministério da Saúde com a indústria alimentícia firmado em abril deste ano

Karina Toledo,

06 de novembro de 2011 | 22h30

Médicos das sociedades de cardiologia, nefrologia e hipertensão estão descontentes com o acordo firmado entre o Ministério da Saúde e a indústria de alimentos para reduzir o teor de sódio na comida industrializada. Segundo eles, as metas propostas para 2014 são tão tímidas que não conseguirão reduzir a mortalidade por doenças cardíacas.

O resultado do termo firmado em abril deste ano para a redução do sódio em macarrões instantâneos, pães de forma e bisnaguinhas foi apresentado às sociedades médicas há duas semanas, em seminário realizado em Brasília. Para Carlos Alberto Machado, representante da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) no evento, o plano não passa de um “engodo”.

“Em vez de propor uma redução a partir do teor médio de sódio presente nos produtos para chegar perto do valor mínimo que está no mercado, eles pactuaram a redução em cima do teto.”

Para exemplificar, Machado cita o exemplo dos pães de forma. Entre as marcas no mercado, o teor máximo é de 796 mg de sódio por porção. O teor médio é de 437 mg e o mínimo, de 118 mg. A indústria se comprometeu a reduzir para 645 mg em 2012 e 522 mg em 2014 - ou seja, a meta ainda é mais alta que a média encontrada no mercado hoje.

Silvia Vignola, especialista em saúde pública e consultora do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), concorda. “Boa parte das empresas já seguem as metas propostas para o fim de 2012 e esses teores ainda são considerados altos. Na prática, não vai mudar muito”, opina.

Machado reclama do fato de as sociedades médicas não terem sido ouvidas durante a negociação. “Deveríamos ter sido chamados para acompanhar todo o processo e não apenas para validar um acordo já feito. Sugerimos que seja repactuado. Ou que pelo menos sejamos ouvidos nas próxima etapas”, diz ele, referindo-se a negociação que ainda deverá ser feita para reduzir o sódio em outras categorias de alimentos.

Dissidência. Frida Plavnik e Cibele Rodrigues, representantes das sociedade de hipertensão e nefrologia, fazem coro com Machado. Já o presidente da SBC, Jorge Ilha, diz que o colega está sendo “muito radical”. “Avançamos muito. Voltar à mesa de negociações seria retrocesso.”

O secretário de Atenção à Saúde do ministério. Helvécio Magalhães, também defende o acordo já feito. “Vai ter impacto na saúde, sim. Vamos conseguir chegar, até 2020, ao consumo diário de sal considerado ideal, ou seja, 5 gramas por dia.”

Estudo apontam que o brasileiro consome, em média, cerca de 12 g de sal por dia. Neste ano, o Brasil firmou um termo de compromisso com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) para baixar esse número para 5 g até 2012. Segundo Machado, estudos apontam que essa redução significaria queda de 6% a 14% na mortalidade por derrame, de 4% a 9% na mortalidade por enfarte e de 3% a 7% na mortalidade total.

Todos os anos, 315 mil brasileiros morrem em decorrência de doenças cardiovasculares, que têm a hipertensão como um dos principais fatores de risco. Procurada, a Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação preferiu não se manifestar.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.