Daniel Teixeira|Estadão
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Adolescentes precisam de exercícios: veja como estimulá-los

A pandemia deixou os jovens mais sedentários, em um período em que se isolar já é próprio da idade. Mas começar uma atividade física nessa idade é fundamental

Danilo Casaletti , Especial para o Estadão

Atualizado

  Daniel Teixeira|Estadão

As tentações para os adolescentes ficarem em casa, em frente ao celular, tela de computador ou games são inúmeras – especialmente durante a pandemia. O isolamento na idade é normal, e mais um fator que colabora com o sedentarismo. Entretanto, é possível vencer tudo isso e fazer com que a atividade física faça parte da rotina de meninos e meninas nessa faixa etária. Segundo define o ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente, a adolescência vai de 12 a 18 anos.

Eryka Munhoz, hebiatra (médica especialista em adolescentes) do Hospital e Maternidade São Luiz Anália Franco, da Rede D’Or São Luiz, esclarece que a atividade física é importante em todas as fases de desenvolvimento. Segundo ela, os adolescentes tendem a ser mais sedentários por questões próprias da idade – vergonha do corpo, timidez, propensão ao isolamento. Com a pandemia, diz a médica, o sedentarismo nessa faixa etária cresceu, pois nem às aulas de Educação Física da escola eles tinham acesso. 

“Vejo aumento de peso em pacientes que, em geral, são magros. Alguns, inclusive, estão se recusando a voltar para as aulas presenciais. Isso é muito prejudicial”, diz.

De acordo com a médica, de maneira geral, não há exercícios que sejam contraindicados aos adolescentes. Mesmo aqueles de força, como a musculação, que, no passado, era condenada por supostamente prejudicar o crescimento. “A musculação já é bastante comum nessa idade. É saudável praticar exercícios de força. O que eles precisam, na verdade, é do acompanhamento de um profissional para que sejam bem orientados a fim de evitar lesões musculares ou articulares”, explica.

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A musculação já é bastante comum nessa idade. É saudável praticar exercícios de força. O que eles precisam, na verdade, é do acompanhamento de um profissional
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Eryka Munhoz, Médica hebiatra

É importante lembrar que o adolescente tem disponível uma série de atividades físicas além da musculação, desde as mais comuns, oferecidas por escolas e clubes, como futebol, basquete, vôlei, handebol e natação, até escalada, tênis e skate.

Motivação

O estudante Lucas de Oliveira Mariya, de 15 anos, começou a praticar musculação em outubro de 2020. O objetivo, segundo ele, era melhorar sua saúde física e “emagrecer um pouco”. Lucas frequenta a escola no período da manhã e, à noite, vai para a academia na companhia do pai, Ronaldo Mariya. Essa é a única atividade física que ele pratica no momento. O estudante está satisfeito com os resultados. “Melhorei meu condicionamento físico, tenho mais disposição e respiro melhor”, diz.

A rede de academias Smart Fit, a qual Lucas frequenta, planeja abrir um horário especial para adolescentes – a partir de 14 anos já é permitido se matricular, mediante autorização dos pais ou responsável. De acordo com o diretor técnico do grupo, que inclui também a marca Bio Ritmo, Luiz Carlos Carnevali, houve, nos últimos tempos, aumento da procura pela prática esportiva por parte desse público, devido a fatores ligados à pandemia, como o aumento da obesidade.

Para ele, uma das principais dúvidas de pais ou responsáveis e filhos é se existe alguma diferença entre o tipo de treino para adultos ou adolescentes. “As adaptações não são dos tipos de exercícios, mas na maneira como eles são feitos e na carga aplicada. Nessa idade, há um processo fisiológico diferente dos adultos e isso precisa ser respeitado. Dessa forma, os exercícios têm menor sobrecarga e complexidade. É recomendável também evitar exercícios de força pura”, diz.

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essa idade, há um processo fisiológico diferente dos adultos e isso precisa ser respeitado. Dessa forma, os exercícios têm menor sobrecarga e complexidade
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Luiz Carlos Carnevali, diretor técnico do grupo Smart Fit

Carnevali explica que adolescentes gostam de desafios e, por isso, a rede tenta criar uma rotina de exercícios coletivos ou funcionais. Além do benefício de treinar com um colega, isso aumenta a motivação. É possível usar acessórios como bolas, TRX (fitas para fazer exercícios em suspensão) ou cordas. “Há muito adolescente que acha chato fazer musculação.”

Segundo o profissional, atualmente o desejo do adolescente, de forma geral, é ficar com o corpo mais definido – popularmente chamado de “seco” – do que forte, a hipertrofia. Nesses casos, o exercício funcional é mais indicado do que um treino com muita carga.

Determinação

O educador físico Renato Dutra (@professorrenatodutra), autor do livro Malhação para Adolescentes: Secar, Ganhar Músculos e Força, de 49 anos, tem uma história curiosa sobre o tema. Quando tinha 13 anos, na década de 1980, andou cerca de 2 km para chegar a uma academia perto de sua casa. Ele estava determinado a começar uma atividade física. Foi recusado como aluno. Pediu então que a mãe comprasse alguns pesos para ele treinar em casa.

A inspiração para o livro veio de um afilhado que era muito introvertido. “Pensei que, se ele fizesse atividade física, ele poderia superar isso. E funcionou. Ele passou a se socializar. Decidi, então, ajudar outros meninos”, conta Dutra.

Dutra, que é personal trainer e atende também adolescentes, diz que a motivação desse público pode ser intermitente. Por vezes, há um pico de entusiasmo, mas depois os alunos somem das aulas. É natural, diante das incertezas típicas da idade. Quando isso acontece, o profissional e os pais devem conversar, já que o aluno pode não se sentir à vontade para expressar sua insatisfação.

“Como pai e educador físico meu conselho é: não pare de praticar esporte. Cansou da natação, vai para o futebol. Cansou novamente, vai fazer uma luta. Pule de galho em galho, mas não pare.”

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meu conselho é: não pare de praticar esporte. Cansou da natação, vai para o futebol. Cansou novamente, vai fazer uma luta. Pule de galho em galho, mas não pare
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Renato Dutra, educador físico

Dutra afirma que o treinador também precisa saber lidar com os meninos e meninas nessa faixa etária. “Ele não pode querer transformá-los em atletas – a não ser que o aluno deseje isso. Os adolescentes não podem fazer só o que querem, mas não devem ser massacrados. Se fizerem de cinco a seis exercícios por aula, está bom.”

A estudante Emanuela Salzano, 15 anos, inseriu uma atividade física mais direcionada em sua rotina em 2019. Além de querer ganhar tônus muscular, tinha um desafio: bater um recorde em um teste de corrida na escola. “Treinei isso nas aulas de personal. Foi muito legal! Consegui!”, lembra. A mãe, Fúlvia, que treina regularmente, também foi uma inspiração. Depois que começou a praticar exercícios, Emanuela diz ver diferença em sua disposição. “Eu me sinto mais relaxada depois que eu treino.”

Dutra, que dá aulas a Emanuela, diz que a carga horária da escola é puxada, mas encontra maneiras de incentivá-la a vencer uma eventual falta de ânimo. “Começamos por algum exercício que ela gosta. Geralmente os abdominais. Ela sente preguiça e não esconde isso. Mas, depois de uns dez minutos, ela ‘entra’ na aula”, explica.

O adolescente também busca informações por suplementos que ajudem nos treinos ou no desempenho das atividades esportivas. Conteúdos em redes sociais e o ambiente de uma academia, por exemplo, geram curiosidade e questionamentos. A indicação é buscar a orientação com um médico ou nutricionista. “Para uma atividade de uma hora por dia, por exemplo, não há necessidade de suplementação. Basta uma boa alimentação. A não ser que ele decida se tornar atleta”, diz a médica Eryka Munhoz.

O incentivo

A psicóloga e psicoterapeuta corporal Juliana Blanquer afirma que se os filhos não tiverem o exemplo de pais ou responsáveis como pessoas ativas, interessadas em cuidar da saúde, é muito provável que o adolescente não se sinta motivado a praticar uma atividade física. “Os pais devem conversar sobre o assunto e, sobretudo, estar de fato com os filhos. Eles podem começar com ações simples, como levá-los ao parque aos fins de semana, convidar para um passeio a pé com o animal de estimação”, explica Juliana, que também é educadora física.

Ela sugere outras atividades que não são necessariamente um esporte, mas que fazem com que os adolescentes se movimentem, como brincadeiras no condomínio, teatro e dança.

Segundo Juliana, o quanto antes eles se sentirem motivados a uma prática esportiva, melhor – e isso aumenta a probabilidade de eles se tornarem adultos ativos. “A adolescência é uma idade fronteiriça. É preciso muita conversa e um olhar constante dos pais para engajar os filhos em uma atividade”, diz.

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A adolescência é uma idade fronteiriça. É preciso muita conversa e um olhar constante dos pais para engajar os filhos em uma atividade
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Juliana Blanquer, psicóloga

Tudo isso deve ser feito de forma atenciosa e delicada. Ligar a atividade física a padrões estéticos não é o melhor caminho. Isso tira o prazer e o entendimento de que ela traz benefícios, além de poder causar distúrbios alimentares, como bulimia e anorexia. Ao adolescente, a dica é tentar descobrir a atividade que ele gosta e o que é possível fazer dentro de sua rotina. Pais e professores também devem auxiliá-lo na organização de horários e tarefas. Dessa forma, o exercício se torna um hábito.

Os pais não devem impor suas preferências. “Os desejos dos pais não devem esbarrar nos dos filhos. Já tive paciente que jogava tênis há mais de uma década, mas detestava. Fazia porque o pai sonhava ter um filho jogador”, conta Juliana.

Dicas para implementar exercícios físicos na rotina dos adolescentes

  • Observe a rotina. Eles sempre terão um tempo ocioso 
  • Um passeio com o  cachorro pode ser um primeiro passo
  • A educação física na escola é importante. Não ajude seu filho a fugir dela
  • O adolescente pode testar diversas atividades físicas até encontrar a preferida
  • A escolha pode e deve ser debatida com os pais ou responsáveis, mas jamais uma imposição
  • O exercício precisa ser prazeroso
  • Treinar coletivamente pode ser incentivador, apesar dos desafios da idade
  • Pequenas metas diárias ou semanais são mais importantes do que um plano de longo prazo, que pode ser fonte de frustrações

Livros para ajudar os pais

De acordo com a psicóloga Juliana Blanquer, essas publicações contemplam a psicanálise, a neurociência e também um olhar na construção social da adolescência, e podem ajudar a oferecer os estímulos certos para os jovens nessa fase delicada da vida. 

  • A Criação da Juventude, de Jon Savage
  • O Cérebro em Transformação, Suzana Herculano-Houzel
  • A Adolescência, Contardo Calligaris
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