Adolfo Lutz isola variante do vírus H1N1 que chegou ao Brasil

O sequenciamento vai contribuir para a produção da vacina contra a gripe e avaliação da resposta aos antivirais

Alexandre Gonçalves, de O Estado de S. Paulo,

16 Junho 2009 | 13h17

O Instituto Adolfo Lutz realizou o sequenciamento completo, pela primeira vez no País, de dois genes importantes do vírus A(H1N1). O primeiro paciente diagnosticado com a gripe suína em São Paulo forneceu as amostras do micro-organismo. Ao comparar com os primeiros sequenciamentos realizados na Califórnia, os cientistas identificaram pequenas mutações. Contudo, a taxa de similaridade entre os vírus decodificados no Brasil e nos Estados Unidos ainda é superior a 99,5%. Pesquisadores consideram uma boa notícia que o vírus tenha se modificado tão pouco.

 

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O anúncio foi feito ontem no auditório do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo. O hospital recebeu, no dia 24 de abril, o viajante de 26 anos que trazia do México o vírus agora sequenciado pelos cientistas. “Ainda não sabemos quais são os impactos dessas variações na ação do vírus”, afirma Cecília Luiza Simões dos Santos, bióloga do Adolfo Lutz.

 

Os pesquisadores escolheram dois genes para sequenciar: o gene MP - que codifica as proteínas da matriz M1 e M2, mais abundantes na composição do vírus - e o gene HA - que produz a proteína hemaglutinina, responsável pela invasão da célula hospedeira.

 

As mutações ocorreram no gene HA. “Felizmente, não identificamos nenhuma no chamado sítio ativo da proteína”, ressalva Cecília. Os anticorpos que o corpo humano produz para combater o vírus agem sobre o sítio ativo da molécula. Por isso, qualquer mutação significativa nessa região da proteína pode tornar vacinas ineficazes. “As vacinas em fase de desenvolvimento deverão funcionar”, aponta a cientista.

O gene M sequenciado é idêntico ao do vírus californiano. Como seu parente americano, contém um marcador que indica resistência a uma classe de antivirais chamada amantadina.

 

“O próximo passo é sequenciar o gene que codifica a neuranimidase”, prevê Cecília. A substância é responsável por libertar os vírus das células depois da infecção para que realizem novos contágios. O fosfato de oseltamivir - considerado uma das principais armas contra a nova gripe - age sobre a neuranimidase e, por isso, uma mutação nesta proteína pode diminuir a eficácia do remédio. O vírus da gripe possui oito genes.

 

Os cientistas compararam a estirpe do vírus sequenciado em São Paulo a algumas dezenas das já cadastradas na base de dados do Centro Nacional de Informação Biotecnológica (NCBI, em inglês), nos Estados Unidos. “Havia muita semelhança com estirpes da Itália, Texas, China e Coreia”, afirma Cecília. “Nenhuma era idêntica, mas foi apenas uma análise preliminar.”

 

Há um mês, pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC-Fiocruz) já tinham depositado no banco de dados do NCBI sequenciamentos parciais do gene M obtidos de três pacientes diferentes: dois no Rio de Janeiro e um em Minas Gerais. Cerca de 80% das proteínas M1 e M2 foram decodificadas na ocasião.

 

“Em setembro, haverá uma reunião na Organização Mundial da Saúde (OMS) para analisar as estirpes sequenciadas no hemisfério sul”, afirma a virologista do Adolfo Lutz, Terezinha Maria de Paiva. “Com base nos dados, podemos identificar a necessidade de desenvolver uma vacina diferente do hemisfério norte, por exemplo.”

 

(Ampliada com mais informações às 19h53)

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