Advogada é exemplo em aleitamento e solidariedade

O histórico familiar não ajudava. A mãe da advogada Márcia Maranhão, de 27 anos, amamentou as filhas por 4 ou 5 meses. A irmã dela só teve leite por 2 meses. Por isso o susto foi grande quando Lucas nasceu e começou a mamar, há quase 3 meses. Márcia produzia tanto leite que precisava tirar com ajuda de uma bombinha. E jogava fora. Hoje é a maior doadora do Banco de Leite Humano do Instituto Fernandes Figueira (IFF): doou o suficiente para beneficiar 115 crianças. Ela soube do banco de leite por uma amiga. A primeira vez que os Bombeiros Amigos do Peito estiveram em sua casa para recolher a "produção excedente" ficaram surpresos com a quantidade de potes de maionese de 500 ml cheios de leite entregues por Márcia. Em dois meses, já buscaram 35 litros de leite - o que daria para alimentar 115 bebês prematuros ou com baixo peso internados no IFF. Em média, eles precisam de cerca de 300 ml diários. "Fiquei surpresa em saber que sou a maior doadora. Sinto-me privilegiada por poder ajudar a salvar a vida de tantas crianças. Sabia que meu filho me traria muita alegria, mas não imaginava o quanto", disse a advogada. Márcia conta que não fez nada para estimular a superprodução. "Nas primeiras horas do Lucas não saía uma gota de leite. Eu comecei a chorar, achando que não poderia amamentá-lo", lembra. Hoje, ela sequer precisa de bombinhas para retirar o leite. Enquanto Lucas mama num dos seios, o leite jorra abundantemente do outro. Uma concha de amamentação de silicone apara o líquido, que vai logo para o pote de maionese. Márcia ganhou apelidos carinhosos na vizinhança, como "Parmalat". "Outro dia, uma vizinha não tinha leite para o filho recém-nascido e veio me pedir um pouco", conta. O excesso de leite também ajudou a advogada a voltar à boa forma. Ela já perdeu 18 quilos dos 26 que ganhou na gravidez. Atos como o de Márcia emocionam a dona de casa Magda Graciano, de 25 anos. Sua filha, Rhauana, nasceu prematura, aos seis meses de gestação, com 950 gramas. O leite doado ajuda a menina a se recuperar. "Faço estimulação e tomo comprimidos de alfafa para produzir leite e já preenchi minha ficha para ser doadora também", diz Magda. O pesquisador João Aprígio Guerra de Almeida, coordenador do banco de leite, calcula que apareça uma doadora como Márcia a cada década. "Essa solidariedade de Márcia é o lado excepcional dessa história. Mas a quantidade do leite não é fundamental para se tornar doadora. Bebês com peso muito baixo precisam de 25 ml por dia." Leite humano, fármaco natural - As crianças prematuras ou com baixo peso e cujas mães não conseguem ou não podem amamentar - caso sejam soropositivas, por exemplo - são as beneficiadas pelo leite das doadoras. No Instituto Fernandes Figueira, centro de referência para os 187 bancos brasileiros e também para América Latina e Caribe, o leite humano também é usado como fármaco no tratamento de algumas imunodeficiências e patologias do aparelho digestivo. "O leite humano possui imunobiológicos vitais para a sobrevivência das crianças com peso abaixo de 1.200 gramas. E não se encontra esses imunobiológicos nas farmácias, só no leite", diz João Aprígio Guerra de Almeida, coordenador do Banco de Leite do IFF. Entre 1998 a 2004, 440.906 mulheres doaram 664.147 litros de leite para 727.210 bebês em todo o Brasil.

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