África Ocidental vive 'guerra' contra Ebola, alerta OMS

Entidade estima que 'milhares de pessoas' vão contrair o vírus nas próximas semanas; medo faz médicos abandonarem o trabalho

Jamil Chade, Correspondente de O Estado de S. Paulo

09 Setembro 2014 | 06h49

Atualizada às 21h13

GENEBRA - A Libéria alertou nesta terça-feira, 9, que o Ebola está “ameaçando seriamente” a existência do país, enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) mudou seu tom e falou de uma “guerra” que afeta os países mais contaminados.

Nesta terça, novos dados apontaram para uma aceleração no número de casos, o que levou o Conselho de Segurança da Organização a das Nações Unidas (ONU) a se reunir em caráter de emergência para debater a situação. Mais de 4,2 mil pessoas já foram contaminadas e 2,2 mil morreram, principalmente em Serra Leoa, Libéria e Guine. “O aumento dos casos continua acelerado em países com transmissão generalizada e intensa”, indicou a OMS. 

Mas a constatação dos governos é de que o vírus já deixou de ser uma ameaça sanitária e hoje representa um risco real para a estabilidade de toda uma região. “A Libéria está enfrentando uma ameaça séria à existência nacional. O Ebola causou uma interrupção no funcionamento normal de nosso Estado”, declarou o ministro da Defesa, Brownie Samukai. “Agora ele está se espalhando como fogo e devorando tudo em seu caminho. A infraestrutura já frágil do sistema de saúde do país foi sobrecarregada”, afirmou. Ele não deixou ainda de atacar a resposta internacional diante do problema, alertando que ela “não foi nada robusta”.

A enviada especial da ONU para a Libéria, Karin Landgren, alertou que os casos oficiais na Libéria “subestimam o verdadeiro fardo do Ebola”. “A velocidade e a escala da perda de vidas, e as reverberações econômicas, sociais, políticas e de segurança da crise, estão afetando a Libéria profundamente”, afirmou. “Os liberianos estão lidando com sua maior ameaça desde a guerra”, disse, em uma referência aos conflitos entre 1989 e 2003 que mataram cerca de 250 mil pessoas.

Na OMS, a entidade não esconde que está assustada diante do fato de que, com uma doença fora do controle, dezenas de médicos estão abandonando hospitais, temendo serem contaminados pelo vírus. Segundo a OMS, o vírus atingirá “milhares de pessoas” nas próximas semanas. 

O maior problema, porém, é que não existem médicos na região para fazer frente à quantidade de pacientes. Antes de a crise começar, a Libéria tinha menos de 250 médicos para atender 4 milhões de pessoas. Em todo o país, o número de profissionais do setor de saúde não chega a 5% de todos os empregados apenas do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de São Paulo. Por dia circulam no Hospital Sírio Libanês cerca de 500 médicos, duas vezes o que existe hoje em toda Libéria. Nesta terça, a OMS admitiu que o número original de médicos na região caiu ainda mais. Algumas dezenas morreram, enquanto muitos outros estão abandonando seus postos. 

Guerra. “É uma guerra contra um vírus e é uma guerra difícil”, declarou Sylvie Briand, da OMS. “Queremos vencer algumas batalhas, em alguns locais. Mas novos soldados são necessários.” Em Serra Leoa, por exemplo, são apenas 2 médicos para cada 100 mil pessoas. 

Desesperada, a OMS está em negociações com governos de todo o mundo para que enviem médicos. Mas um número reduzido de apoio foi confirmado. O Reino Unido e os Estados Unidos anunciaram que mandarão médicos e soldados para a região. Mas a entidade Médicos Sem Fronteira alerta que os números indicados pelos dois governos seriam “insuficientes”. 

Margaret Chan, diretora da OMS, chegou a fazer ameaças, alertando que o “mundo seria responsabilizado” pela situação e pelos mortos na África. Diante da crise, a OMS optou por mudar de forma radical sua estratégia. A partir de agora, vai tentar convencer líderes locais e a comunidade a colaborar, o que seria a única alternativa diante da falta de médicos, de hospitais e de leitos. “É imperativo que a comunidade internacional passe a lidar seriamente com os efeitos humanitários, de saúde pública e de segurança deste surto”, afirmou a embaixadora dos Estados Unidos na ONU, Samantha Power. “Não acho que alguém possa dizer neste momento que a reação internacional à epidemia de Ebola está sendo suficiente.”

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