Andrew Kelly/Reuters
Andrew Kelly/Reuters

'Agora estou na menopausa', diz Angelina Jolie

Atriz, que já havia feito mastectomia, removeu ovários e trompas para diminuir chances de desenvolver câncer; leia artigo na íntegra

O Estado de S. Paulo

24 Março 2015 | 16h42

A estrela de cinema Angelina Jolie disse que teve seus ovários e trompas removidos para evitar o risco de câncer de ovário, doença que matou sua mãe aos 56 anos.

A atriz fez o anúncio em um artigo publicado nesta terça-feira, 24, no The New York Times, quase dois anos depois de ter sido submetida a uma mastectomia dupla, após ter sido informada que corria alto risco de câncer de mama.

Leia o artigo na íntegra:

"Dois anos atrás eu escrevi sobre minha escolha de ter feito uma mastectomia dupla preventiva. Um simples exame de sangue revelou que eu carregava uma mutação no gene BRCA1. Ele me deu uma estimativa de risco de 87% de câncer de mama e de 50% do câncer de ovário. Perdi minha mãe, avó e tia para o câncer.

Queria que outras mulheres em situação de risco conhecessem as opções. Eu prometi divulgar qualquer informação que pudesse ser útil, incluindo a minha próxima cirurgia preventiva, a remoção dos meus ovários e trompas de falópio.

Eu estava planejando isso há algum tempo. É uma cirurgia menos complexa do que a mastectomia, mas seus efeitos são mais graves. Ela coloca a mulher em uma menopausa forçada. Então, eu estava me preparando fisicamente e emocionalmente, discutindo as opções com os médicos, pesquisando medicina alternativa, e mapeando os meus hormônios para substituição do estrógeno e progesterona. Mas senti que eu ainda tinha meses para marcar a data.

Em seguida, há duas semanas, recebi um telefonema do meu médico com os resultados do exame de sangue. "Seu CA-125 é normal", disse ele. Dei um suspiro de alívio. Este teste mede a quantidade de proteína do CA-125 no sangue, e é usado para monitorar o câncer do ovário. Eu o faço todos os anos por causa do meu histórico familiar.

Mas isso não foi tudo. Ele prosseguiu. "Há uma série de marcadores inflamatórios, que são elevados, e tomados em conjunto, poderiam ser um sinal de câncer mais cedo." Eu fiz uma pausa. "O CA-125 tem uma chance de 50% a 75% de não detectar o câncer de ovário em estágios iniciais", disse ele. Ele queria que eu consultasse um cirurgião imediatamente para verificar meus ovários.

Eu passei o que imagino que milhares de outras mulheres já passaram. Disse a mim mesma para ficar calma, ser forte, e que eu não tinha nenhuma razão para pensar que não viveria para ver meus filhos crescerem e para conhecer os meus netos.

Liguei para o meu marido na França, que pegou um avião dentro de poucas horas. A coisa bonita sobre esses momentos na vida é que há tanta clareza. Você sabe por que vive e o que importa. É polarizador e é tranquilo.

Naquele mesmo dia me consultei com uma cirurgiã, a mesma que tratou minha mãe. Eu a vi pela última vez no dia em que minha mãe morreu, e ela chorou quando me viu: "Você olha como ela". Isso me quebrou. Mas nós sorrimos uma para a outra e concordamos que estávamos lá para lidar com qualquer problema, por isso "vamos a ele."

Nada no exame ou ultra-som foi preocupante. Fiquei aliviada porque se fosse câncer era mais provável que estivesse nos estágios iniciais. Se fosse em outro lugar do meu corpo, eu saberia em cinco dias. Eu passei esses cinco dias em uma névoa, indo a jogos de futebol dos meus filhos e trabalhando para ficar calma e focada.

O dia dos resultados chegou. O exame PET/CT parecia claro, e o teste de tumor deu negativo. Eu estava cheia de felicidade, embora o marcador radioativo significasse que eu não poderia abraçar meus filhos. Havia ainda a chance de câncer em estágio inicial, mas seria menor em comparação com um tumor "full-blown". Para meu alívio, eu ainda tinha a opção de remover os ovários e as trompas de falópio e optei por fazê-lo.

Eu não fiz isso apenas porque carrego a mutação do gene BRCA1 e quero que outras mulheres saibam disso. Um teste BRCA positivo não significa um salto para a cirurgia. Falei com muitos médicos, cirurgiões e especialistas. Há outras opções. Algumas mulheres tomam pílulas ou usam a medicina alternativa combinada com verificações frequentes. Há mais de uma maneira de lidar com qualquer problema de saúde. A coisa mais importante é aprender sobre as opções e escolher o que é certo para você.

No meu caso, os médicos orientais e ocidentais que conheci entenderam que a cirurgia para remover minhas trompas e ovários foi a melhor opção porque, por causa do gene BRCA, três mulheres da minha família morreram de câncer. Meus médicos indicaram que eu deveria fazer uma cirurgia preventiva cerca de uma década antes do primeiro aparecimento de câncer em meus parentes do sexo feminino. O câncer do ovário da minha mãe foi diagnosticado quando ela tinha 49. Eu tenho 39.

Na semana passada, fiz o procedimento: salpingo-ooforectomia bilateral, por laparoscopia. Houve um pequeno tumor benigno em um ovário, mas não há sinais de câncer em qualquer dos tecidos.

Eu uso um pequeno adesivo transparente que contém estrogênio bio-idêntico. Um DIU de progesterona foi inserido no meu útero. Ele vai me ajudar a manter o equilíbrio hormonal, mas, o mais importante: irá ajudar a prevenir o câncer de útero. Optei por manter meu útero porque o câncer neste órgão não faz parte do meu histórico familiar.

Não é possível remover todos os riscos, e o fato é que eu permaneço propensa ao câncer. Vou procurar formas naturais de fortalecer o meu sistema imunológico. Eu me sinto feminina, e alicerçada nas escolhas que eu estou fazendo para mim e para minha família. Sei que meus filhos nunca terão de dizer: "Mamãe morreu de câncer de ovário."

Independentemente dos substitutos de hormônios que eu estou tomando, agora estou na menopausa. Eu não vou ser capaz de ter mais filhos e espero algumas mudanças físicas. Mas me sinto à vontade com o que virá, não porque eu seja forte, mas porque isso faz parte da vida. Não é nada a ser temido.

Sinto profundamente por mulheres para quem este momento chega muito cedo na vida, antes de terem tido seus filhos. A situação delas é muito mais difícil do que a minha. Perguntei e descobri que existem opções para que mulheres removam suas trompas de falópio, mas mantenham seus ovários, e assim possam ter filhos e não passem pela menopausa. Espero que elas possam estar cientes disso.

Não é fácil tomar essas decisões. Mas é possível assumir o controle e combater de frente qualquer problema de saúde. Você pode procurar conselhos, saber as opções e fazer escolhas que são certas para você. Conhecimento é poder."

Mais conteúdo sobre:
Angelina Jolie câncer

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.