Mohd Rasfan/AFP
Mohd Rasfan/AFP

Ainda dá tempo

Reduzir o número de óbitos requer comprometimento dos três níveis de governo com a realização em massa de testes RT-PCR

Conselho de especialistas do Todos pela Saúde, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2020 | 05h00

Vivemos a maior crise sanitária dos últimos 100 anos, e o novo coronavírus dá a impressão de que permanecerá entre nós por um tempo ainda imprevisível. A experiência internacional nos ensinou que o isolamento social, a higienização das mãos e a barreira das máscaras protegem a população e reduzem a circulação do vírus. Essas providências, no entanto, são insuficientes para evitar a transmissão em ambientes com pessoas infectadas, estejam assintomáticas ou com febre, tossindo e espirrando.

Os dados epidemiológicos de vários países mostraram que realizar testes em massa para identificar os portadores do vírus e os que entraram em contato com eles foi fundamental no combate à disseminação da doença. O principal - e mais usado no mundo - teste que realmente identifica a presença do vírus é chamado de RT-PCR, realizado com cotonetes para colher material das narinas e da garganta, locais em que o vírus se aloja nas pessoas infectadas, tenham ou não sintomas. Quando esse teste dá positivo, é porque o vírus está presente. Portanto, há certeza da infecção.

O teste RT-PCR não pode ser confundido com os “testes rápidos”, realizados em cerca de 20 minutos, que se propõem a detectar anticorpos contra o vírus. São testes indiretos: se houve produção de anticorpos, é porque ocorreu infecção no passado. Quando? Não dá para saber, pode ter sido há 20, 30 dias ou há 2 meses. 

Conclusão: não servem para diagnosticar a covid-19 nos doentes, nem para identificar portadores assintomáticos.

Os “testes rápidos” causam mais confusão do que ajudam. No mercado, existem dezenas de kits de procedências variadas, muitos dos quais não passaram por avaliação técnica. Como consequência, são frequentes os falso negativos e falso positivos, isto é, resultados negativos em quem já teve a infecção e positivos em quem nunca entrou em contato com o vírus, respectivamente. Por essas razões, os testes rápidos não servem para ajudar no controle da pandemia. Os países que mais bem enfrentaram o vírus testaram em massa com os testes RT-PCR.

Vejam a posição absurda do Brasil. Reino Unido, Espanha, Estados Unidos, Rússia e Bélgica testaram mais de 10% da população; Peru e Chile já se aproximam de 6%. A China fez mais de 90 milhões de testes, que alcançaram 6% da população. E todos seguem testando. O Brasil mal aplicou 3,5 milhões de testes, em cerca de 1,5% da população.

A testagem em massa vai atrás das pessoas positivas, sintomáticas ou não, para promover o seu isolamento e identificar todos os contatos que essas pessoas tiveram nos últimos dias, para também isolá-los se estiverem infectados. Em muitos países, para cada teste positivo são testados 10, 20, 40 contatos, porque, para cada RT-PCR positivo, haveria até 10 outras pessoas infectadas, não testadas.

Na iniciativa Todos pela Saúde, assumimos a testagem como estratégica desde o primeiro momento. Apesar da enorme disponibilidade de testes RT-PCR fornecidos pela Fiocruz, verificamos que as dificuldades estavam na área da análise e de processamento dos mesmos. Decidimos, então, fazer duas grandes doações para a formação de centrais de análise RT-PCR, instaladas e operadas pela Fiocruz, no Rio de Janeiro e em Fortaleza. A partir de 31 de julho, a capacidade de testagem do SUS será, assim, aumentada em poucos dias em até 25 mil testes por dia. Somados à capacidade já instalada no País, teremos condição de efetuar cerca de 100 mil testes por dia.

Esperamos que nossos dirigentes, nos três níveis de governo, se organizem para o esforço de testagem em massa e que a sociedade se mobilize para reivindicar o direito de acesso ao teste RT-PCR, para reduzirmos o número de óbitos no Brasil. Ainda dá tempo.

INTEGRAM O CONSELHO DE ESPECIALISTAS DO TODOS PELA SAÚDE: DRAUZIO VARELLA, CIENTISTA E ESCRITOR; EUGÊNIO VILAÇA MENDES, CONSULTOR DO CONSELHO DOS SECRETÁRIOS DE SAÚDE (CONASS); GONZALO VECINA NETO, EX-PRESIDENTE DA ANVISA; MAURÍCIO CESCHIN, EX-DIRETOR-PRESIDENTE DA AGÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE (ANS); PAULO CHAPCHAP, DOUTOR EM CLÍNICA CIRÚRGICA PELA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO E DIRETOR-GERAL DO HOSPITAL SÍRIO-LIBANÊS; PEDRO BARBOSA, PRESIDENTE DO INSTITUTO DE BIOLOGIA MOLECULAR DO PARANÁ (IBMP), INSTITUIÇÃO LIGADA À FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ (FIOCRUZ); E SIDNEY KLAJNER, PRESIDENTE DO HOSPITAL ALBERT EINSTEIN.

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