'Ainda penso que minha filha vai entrar pela porta a qualquer hora'

Leia o depoimento de Maria de Lourdes Pimentel: mãe de vendedora que morreu diz que denunciou caso para garantir que outras gestantes não tenham o mesmo destino

22 Março 2014 | 17h58

"Ainda escuto os gritos da minha filha. O bebê estava morto e os médicos resolveram induzir o parto. Ela não acreditava que a Ester tinha morrido. Ela dizia: ‘Mas eu sinto mexer’.

Induziram o parto e muito tempo depois fizeram a curetagem. Enterrei minha neta e me chamaram no hospital. O médico disse que minha filha estava com uma hemorragia digestiva. Perguntou se eu não tinha uma clínica para levá-la.

Quando ela foi transferida, não mandaram a ficha médica. Ninguém sabia o que ela tinha passado, quanto tempo de gravidez tinha, nada. Os médicos tiveram de reanimar minha filha. Aí eu já não a vi mais.

Levam a vida das pessoas na brincadeira. Isso é uma coisa muito séria: receber uma vida e tirar uma vida. Essa condenação foi muito boa para o Brasil ter mais cuidado. Tem de preparar os médicos, tem de ter hospital para as pessoas irem.

No hospital eu estava desesperada. Mas, quando falaram que ela morreu, senti uma paz. Parecia que não tinha acontecido nada. Nem acreditei. O marido dela, Adriano, ficou desesperado. Mas eu estava calma.

Contei tudo para a Alice (filha de Alyne), não escondi nada. Ela tinha 5 anos. Parecia que não havia entendido. Mas, depois, ela não comia. Ela começou a ter tudo. Precisou de psicólogo, fonoaudiólogo. Ela ficou gaga. Queria falar e não conseguia, parecia que a voz ia faltar. Ficou com dificuldade de aprendizagem. Hoje, está com 16 anos e cursa o 8.º ano.

Alice queria me chamar de mãe, mas eu não deixei. ‘Você tem a sua mãe’, eu dizia para ela. Começou a chamar a Ana Paula, minha filha caçula, de mãe. A Ana Paula também ficou traumatizada. Ela queria ter filho e não engravidava porque ficava com medo de morrer. Ficou três anos tentando.

A Alice ainda não foi indenizada, mas a indenização dela vai vir. O dinheiro não é muito e nem dá para comprar uma casa. Mas vou fazer um plano de saúde para mim. Também vou fazer reparos na casa e ajudar a Alice nos estudos.

Quando as ONGs me procuraram, achei que podia ter justiça para a minha filha. Mas fiz mais pelo futuro das outras mães. A gente não sabe o que acontece porque as pessoas não abrem a boca para denunciar. Ainda penso que minha filha vai entrar pela porta a qualquer hora. São tantas mães que ficam sem suas filhas, tantas crianças que crescem sem as mães. Por meio dessa ONU, muita coisa vai vir à tona. Tem de acreditar que vai mudar."

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