REUTERS/Nicky Loh
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Ajudo pessoas a se recuperarem de transtornos alimentares. Não dê a seu filho este aplicativo

Como nutricionista  registrada eu ajudo as pessoas a se recuperarem de transtornos alimentares e recomendo firmemente que os pais mantenham esse aplicativo, e qualquer programa de perda de peso – longe dos seus filhos

Christy Harrison, The New York Times

22 de agosto de 2019 | 10h00

Os Vigilantes do Peso, entidade que agora tem a marca WW – lançou um aplicativo chamado Kurbo para crianças de oito a 17 anos de idade. Como nutricionista registrada eu ajudo as pessoas a se recuperarem de transtornos alimentares e recomendo firmemente que os pais mantenham esse aplicativo, e qualquer programa de perda de peso – longe dos seus filhos. 

Nossa sociedade é injusta e cruel para com pessoas gordas, de modo que entendo os pais que acham que seu filho necessita emagrecer,  e qualquer criança que deseja perder peso. Infelizmente as tentativas para diminuir o corpo de uma criança não só são ineficazes como também são prejudiciais à sua saúde física e mental. 

Nos últimos 60 anos inúmeros estudos têm mostrado que entre as pessoas que emagrecem, mais de 90% voltaram  a engordar. Por exemplo, a conclusão de um estudo realizado em 2000 com adultos de 20 a 45 anos foi de que menos de 5% emagreceram e mantiveram seu peso no longo prazo. E um estudo realizado em 2015 com mais de 176.000 pessoas com peso bem acima do normal, com 20 anos de idade ou mais, concluiu que entre 95% e 98% das que perderam peso voltaram a engordar num prazo de 

cinco anos. E segundo uma análise feita em 2017 de evidências científicas muitas pessoas provavelmente ficaram ainda mais gordas. 

Não existem muitos dados relacionados especificamente à eficácia da perda de peso no caso de crianças, talvez porque até muito 

recentemente uma dieta de  emagrecimento não era recomendado para menores; na escola, onde fui nutricionista há quase uma década, aprendi que era  considerado prejudicial estabelecer regimes de emagrecimento para crianças. Mas as evidências que temos sugerem que os regimes de longa duração para perder peso são desaconselhados para crianças e também para adultos. 

Uma revisão sistemática em 2017 de programas de perda de peso para crianças entre seis e 11 anos de idade concluiu que essas intervenções resultaram numa perda de peso pequena e no curto prazo e estudos feitos nesse âmbito falharam totalmente. “A qualidade das evidências era medíocre e 62 testes tinham um risco de serem preconceituosos”, segundo os responsáveis pela revisão que incluiu numerosos estudos que o protocolo citado pelo programa Kurbo  apresenta como base científica. 

Para começar, muitas pessoas – crianças e adultos  - não conseguem perder peso substancialmente, muito menos se manterem magras por um longo tempo. A WW admite na sua publicação que “Resultados não típicos. Perda de peso/Redução do Índice de Massa Corporal variam de acordo com idade, peso e altura”. 

E mais importante, a perda de peso no caso de crianças (e adultos também) coloca em risco sua saúde. 

Isso porque um regime de emagrecimento intencional provavelmente resultará em ciclos repetidos de perda e ganho de peso - um ciclo que tem seus próprios riscos, independente do Índice de Massa Corporal

Neste caso aumenta o risco de problemas de saúde, como pressão alta, inflamação crônica e mortalidade. Embora essas condições em geral estejam ligadas ao peso, na realidade esse ciclo de perda e ganho de peso é responsável por um risco adicional que existe no caso de um Índice de Massa Corporal alto. 

O nome científico para o preconceito contra gordos é estigma de peso, e ele estaria ligado a aumento do risco de diabetes 2, hipertensão, doenças cardiovasculares e mortalidade, como também depressão, nervosismo e baixa autoestima. De fato, um estudo publicado em 2017 pelos Anais de Medicina Comportamental concluiu que o estigma do peso acarreta um risco à saúde maior do que o que as pessoas comem, e é quase o mesmo risco associado à inatividade física. Como o estigma do peso tende a levar tanto adultos como crianças a evitarem qualquer atividade física, ele dobra o dano à saúde das pessoas. 

Além disto, o estigma do peso não se limita à atitude mesquinha ou assédio das pessoas com relação a um obeso. Vários estudos concluíram que apenas  o fato de ler notícias sobre os riscos à saúde causados pelo excesso de peso leva a esse preconceito contra o gordo. Um estudo feito  com mulheres adultas em 2017 concluiu que aquelas cujos pais faziam comentários sobre o peso delas na infância reportaram uma maior insatisfação com seu corpo anos depois, independente do seu real Índice de Massa Corporal. E outro estudo realizado em 2014 concluiu que mulheres que, num experimento,  foram informadas de que seu peso “não era o ideal”  registraram níveis mais altos de cortisol (hormônio do estresse) independente do seu peso real. 

No caso de você achar que a solução para o estigma do peso é simplesmente emagrecer, lembre dos dados que citamos sobre a 

ineficácia das dietas para emagrecer. Simplesmente desconhecemos uma maneira para mais do que uma pequena fração de pessoas perderem peso e não engordarem no longo prazo. E isto vale no caso do novo aplicativo WW como para qualquer outro regime ou mudança de estilo de vida. 

Outro efeito prejudicial comum das dietas é o transtorno alimentar que pode afetar pessoas de todas as idades. É comum as crianças 

interpretarem mensagens aparentemente benignas sobre “comer de modo saudável”  de um modo estrito; na verdade, muitos dos clientes que tratei por causa de transtornos alimentares tinham problemas que foram desencadeados ou exacerbados por mensagens que assimilaram sobre alimento e peso na infância. Mais de 55% das meninas da escola secundária e 30% dos meninos reportavam práticas nocivas, como jejum, ingestão de remédios para emagrecer, vômito, abusavam de laxativos, tudo para perder peso. Em torno de 60% das meninas entre seis e 12 anos se mostravam preocupadas com seu peso. 

Os esforços para perder peso são ineficazes e prejudicam as pessoas de todas as idades, mas são especialmente preocupantes quando impostos para crianças que não têm condição de escolher e não tiveram a oportunidade de desenvolver uma relação pacífica com a comida e seu corpo. 

Sophia Careter Kahn foi uma dessas crianças. Hoje, com 20 anos, ela começou a freqüentar os Vigilantes do Peso quando tinha 10 anos de idade. Segundo ela me contou em meu podcast, Food Psych, em 2018, todas as regras e números que aprendeu nos Vigilantes do Peso a levaram a ficar obcecada com relação a comida de uma maneira que a deixou transtornada. Ela levou anos para superar o problema. Foi só recentemente que começou a se perguntar como alimentos particulares a faziam se sentir. “Nunca pensei nisto antes”, disse ela. Fazer dieta a mantinha concentrada em pontos, calorias e quilos, e não no que seu corpo estava lhe falando. 

Inúmeros estudos concluíram que o comer intuitivamente  - observar os sinais inatos enviados pelo seu corpo sobre o que, quando e quanto comer  - em vez que seguir o que um guru ou um aplicativo ditar o que você deve comer – está ligado a resultados para a saúde muito melhores do que até mesmo uma dieta “flexível”. 

Se, de fato, queremos ajudar as crianças a serem pessoas mais saudáveis e mais felizes, temos de parar de impor a elas dietas de 

qualquer tipo. Em vez disto devemos começar a ensiná-las a confiarem no seu próprio bom senso com relação à comida. E ajudá-las a manter uma relação pacífica com o seu corpo, independente do seu tamanho. 

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