Ricardo Araújo, especial para o Estadão
Ricardo Araújo, especial para o Estadão

‘Além das equipes desfalcadas, faltam materiais', relata enfermeira

Enfermeira de hospitais de Porto Velho se emociona ao falar da sensação de impotência diante das mortes por covid-19

João Renato Jácome, especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2021 | 05h00

*Depoimento da enfermeira Maira Joaneide de Oliveira Barros, que atua nas UTIs do Hospital de Campanha da Zona Leste e do Hospital Regina Pacis, em Porto Velho, Rondônia

“A realidade aqui dentro da UTI, neste momento, é de temor, muito terror e tensão. Temos que lidar todo dia com o nosso emocional, nos controlar. Fico triste, arrasada. E quando chego em casa, fica ainda pior. 

Para quem trabalha dentro de UTI não é nada fácil. No momento, a estrutura ainda não funciona como a gente precisa, como a gente planeja, como tem de ser. Como é muito grande a necessidade, o poder público não consegue dar conta da demanda. 

A gente vive horas, minutos e segundos de forma muito imprevisível. Quando pensamos que não, a saturação dos pacientes começa a cair, e é muito rápido. A gente corre para tentar manter viva aquela pessoa. Infelizmente, a equipe não está completa, e muitas vezes precisamos nos desdobrar, fazer mais horas extras, mais plantões. 

Não temos funcionários suficientes nas UTIs, até porque nem todos querem assumir contratos provisórios, de caráter emergencial, e vir para cá, em plena pandemia, trabalhar com pacientes que estão com covid-19. A gente está o dia todo atendendo um paciente, e no dia em que ele é intubado, ele não melhora. Ou quando melhora, após um grande esforço da equipe, simplesmente no dia seguinte - e isso é o que me deixa mais arrasada -, o paciente morre. 

A gente fica com um engasgo na garganta! Não conseguimos quase falar, não sabemos o que dizer às pessoas da família, porque essas pessoas, do lado de fora, sem poder ver os familiares, sofrem muito. É uma dor que sentimos aqui dentro também. Até quando vamos ficar assim? Só Deus sabe!

E isso sem falar das condições de trabalho: para tudo temos de correr atrás. Já está faltando materiais, além das equipes desfalcadas e cansadas, que precisam se desdobrar a cada dia mais para melhorar a oferta do serviço. 

A gente espera, todo dia, que essa pandemia passe o mais rápido possível. Mas a gente sabe que só vai passar quando as pessoas começarem a respeitar as regras do governo, o isolamento, o uso da máscara. Quando as pessoas fizerem a parte que cabe a elas. Esta é a grande verdade, e precisamos assumir que temos parte nesta pandemia. Muita gente não respeitou o isolamento. Vejo todo dia as pessoas fazendo balada, festinha, com eventos escondidos, clandestinos. Acredito que essas pessoas não amam os avós, os pais, nem os filhos. Não têm amor no coração, não têm sentimentos. 

É triste saber que enquanto muitos estão sofrendo e morrendo, há outros ignorando tudo isso. No final, ninguém quer passar pelo que esses pacientes estão passando todos os dias.”

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