REUTERS/George Frey
REUTERS/George Frey

Além de ineficaz contra covid, estudo diz que hidroxicloroquina pode causar efeito colateral grave

Pesquisa mostra que remédio tem potencial de provocar danos ao corpo, mas são necessários estudos clínicos para descrever quais tipos de problemas pode causar

João Prata, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2020 | 16h58

Além de ineficaz no tratamento da covid-19, a hidroxicloroquina pode causar efeitos colaterais significativos no corpo humano, comparados a medicamentos usados na quimioterapia. A conclusão de um estudo feito pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) indica que o remédio precisa ser usado com ainda mais cuidado.

A pesquisa foi publicada no The Journal Physical Chemistry Letters e não investigou a eficiência do medicamento, mas seu potencial de interagir com o DNA. Os pesquisadores usaram uma técnica chamada de pinça ótica, que manipula moléculas  com um laser e as colocam em uma solução com a hidroxicloroquina.

"O resultado é preocupante porque existe forte potencial de causar efeitos colaterais. A interação da hidroxicloroquina com a molécula é muito forte. Constatamos que tem feito e pode dar problema", disse o físico Marcio Rocha, um dos autores do estudo e professor da UFV.

O estudo não indica quais são os efeitos colaterais possíveis pois precisaria ser feito com um organismo vivo. A pesquisa utilizou apenas a interação molecular. "Analisar os efeitos é um trabalho médico. Fizemos a interação do DNA com o fármaco. Na literatura se encontra efeitos que vão de diarreia a psicose. Mas nosso trabalho foi feito a nível molecular", explicou Rocha.

Alguns dos efeitos colaterais já observados em pacientes que usaram o medicamento incluem retinopatia, que pode levar à hemorragia e vazamento de líquido da retina, neuropatia, podendo causar dor, formigamento e dormência devido a danos nos nervos do corpo, miopatia, resultando em fraqueza muscular, e alterações cardíacas graves.  

A hidroxicloroquina interage com o DNA de duas maneiras. Em baixas concentrações, se liga à fenda menor da molécula. Em doses mais altas, intercala entre pares de base do DNA. "É uma demonstração que existe uma atividade química bastante elevada do fármaco com a molécula."

Por isso a comparação com medicamentos usados no tratamento do câncer. Os quimioterápicos interagem com DNA com o intuito de destruir as células cancerosas, mas acabam também atingindo células saudáveis e por isso causam efeitos colaterais.

O estudo com a técnica da pinça ótica ainda é pouco utilizado no Brasil e pode abrir caminho para estudos com outros medicamentos e, assim, dar mais segurança para médicos e pacientes. A expectativa de Rocha agora é poder apresentar a pesquisa para médicos investigarem os efeitos colaterais.

Hidroxicloroquina no Brasil

A hidroxicloroquina é um medicamento sintetizado a partir do estudo da ação dos alcalóides contra alguma doenças, como a malária. Ele é um fármaco que, segundo a UFV, apresenta menos efeitos colaterais do que a cloroquina.

Em maio, o Ministério da Saúde publicou um documento que permite o uso da cloroquina e hidroxicloroquina, mesmo em estágios iniciais da doença, em pacientes infectados pelo novo coronavírus no sistema público de saúde. 

A Confederação Nacional dos Trabalhadores em Saúde e a Federação Nacional dos Farmacêuticos já apresentou ação no Supremo Tribunal Federal cobrando a suspensão do protocolo elaborado pelo Ministério da Saúde.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) já destacou que não há eficácia comprovada do medicamento contra a covid-19 e alertou para a gravidade de seus efeitos colaterais. A OMS já suspendeu estudos com a substância.

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