EFE/EPA/FELIPE TRUEBA
EFE/EPA/FELIPE TRUEBA

Alemanha descobre que escolas podem ser reabertas, mas resultado é ‘montanha-russa’

O distanciamento social e o uso de máscaras são obrigatórios na maioria das instalações escolares, mas raramente dentro das salas de aula

Katrin Bennhold, The New York Times

26 de agosto de 2020 | 19h18

BERLIM — Na primeira segunda feira após as férias de verão, Dirk Kwee estava mais nervoso do que em qualquer outro momento dos seus 31 anos dando aulas. Pela primeira vez desde o início da pandemia, todos os 900 alunos de sua escola em Berlim estariam de volta, animadíssimos.

O temido telefonema veio apenas dois dias mais tarde: uma menina do sexto ano estava com o coronavírus. Kwee correu até o ginásio onde os outros 31 alunos da turma dela estavam desfrutando de sua primeira aula de educação física em cinco meses. Todos foram mandados para casa imediatamente.

Na quinta feira, a turma toda foi submetida a testes. Na sexta, os resultados chegaram, negativos. E, na segunda, as crianças estavam de volta às aulas. Mas, assim que Kwee se permitiu um suspiro de alívio, um aluno do sétimo ano teve resultado positivo.

“Tem sido uma verdadeira montanha-russa", disse Kwee, diretor da escola do ensino fundamental Heinz-Berggruen.

Pode ser que a volta às aulas seja assim no futuro previsível.

A Alemanha, como outros países que enfrentaram a pandemia mais ou menos bem, foi rápida na implementação de testes em massa, rastreamento de contatos e uso de testes com resultado rápido. Isso foi fundamental para manter baixo o ritmo de transmissão comunitária.

Até o momento, a lição ensinada por Alemanha, Dinamarca e Noruega, que estão entre os primeiros países a começar o novo ano letivo, mostra que as escolas podem reabrir e permanecer abertas… se elas aproveitarem condições como as criadas por essas medidas. Mas a maioria dos países (e a maioria das regiões dos Estados Unidos) está longe de apresentar condições semelhantes.

Ansiosos, os americanos debatem como deve ser feita a reabertura das escolas, e cada vez mais campi cancelando as aulas presenciais, enquanto a Europa funciona como um laboratório vivo. Apesar de uma alta acentuada nos novos casos de coronavírus nas semanas mais recentes, até os países mais atingidos no segundo trimestre, como Itália, Espanha, Grã-Bretanha e França, estão determinados a retomar as aulas nesse trimestre.

A Alemanha, muito menos afetada durante o auge da pandemia, fechou as escolas logo no começo, avançando em seguida para um modelo híbrido de ensino presencial e à distância. As turmas foram reduzidas, e rigorosas regras de distanciamento social ajudaram a manter o número de casos sob controle.

Mas, agora, um novo experimento teve início: professores e alunos foram chamados de volta às aulas, testando se a nova vigilância será suficiente.

O distanciamento social e o uso de máscaras são obrigatórios na maioria das instalações escolares, mas raramente dentro das salas de aula, apesar das orientações mais recentes da Organização Mundial da Saúde, sugerindo que crianças a partir de 12 anos usem máscaras quando o distanciamento não for possível. Na Alemanha, diz-se que, se os estudantes usarem máscaras por várias horas diárias, sua capacidade de aprendizado seria afetada.

Em vez disso, as escolas tentam melhorar a ventilação das salas e manter as turmas separadas, de modo que cada estudante só tenha contato com algumas dezenas de outros, facilitando a contenção de eventuais surtos.

O avanço da Alemanha para além da estratégia mais cautelosa de reabertura parcial tem como base a limitação de recursos: como ocorre com a maioria dos países, não há professores em número suficiente para formar turmas menores de alunos e possibilitar o distanciamento social.

Mas, passadas várias semanas desde a reabertura das escolas, educadores e até virólogos antes céticos com relação à reabertura disseram que o resultado inicial dá esperanças. Apesar de casos individuais de infecções que ocorreram em dezenas de escolas, não houve nenhum surto grave — e nenhum fechamento mais demorado.

Berlim é um exemplo dessa dinâmica: até o fim da semana passada, 49 infecções tinham sido registradas entre professores e alunos na cidade. Mas, graças à rapidez dos testes e a quarentenas específicas, não mais do que 600 alunos de uma população total de aproximadamente 366.000 estudantes tiveram que ficar em casa em algum dia. Das 803 escolas, apenas 39 foram afetadas.

“É uma situação bagunçada e imperfeita, e eu gostaria que fossem tomadas mais precauções, mas, até o momento, o importante é que está funcionando", disse a virologista Sandra Ciesek, do Hospital Universitário de Frankfurt, que assinou uma declaração dos principais virólogos alemães em defesa da reabertura.

“Cada escola que permanece aberta vale muito", disse Sandra, que tem uma filha começando a primeira série esse mês.

Nos EUA, alguns governantes se concentraram na proporção de resultados positivos para o teste do coronavírus em relação ao total da população, com alguns dizendo que só seria possível uma reabertura segura a partir dos 3% ou menor. Na Alemanha essa proporção é de 1% in Alemanha, como observado em alguns outros países e no estado de Nova York.

Mas, na maioria dos lugares, a proporção de testes positivos é muito maior: 7% nos EUA em geral, 8% na Espanha e mais de 40% em alguns países latino-americanos.

Entre os maiores sistemas de ensino americanos, somente o de Nova York planeja uma reabertura para o próximo mês — e, mesmo na cidade, os alunos devem alternar entre aulas presenciais e à distância. As máscaras serão obrigatórias, e o prefeito, Bill de Blasio, disse que as escolas permanecerão fechadas se a proporção de resultados positivos chegar a 3%.

A realização de testes em massa tem sido crucial em países como a Alemanha, que reagiu bem à pandemia em várias frentes, mantendo relativamente baixo o número de casos e mortes.

Funcionários de hospitais e asilos realizam testes com regularidade, quem volta de férias em “focos de contágio” pode fazer o teste de graça e, em caso de resultado positivo, tem início um rápido processo de rastreamento de contatos. Agora que as aulas normais foram retomadas, os professores também podem fazer o teste gratuitamente, mesmo se não apresentarem sintomas.

Ainda que imperfeitas, tais práticas ajudaram os professores a se sentirem mais confiantes, sendo que alguns relutavam em retomar as atividades.

Na escola Heinz-Berggruen, em Berlim, o sistema se mostrou eficaz na prevenção de um surto mais amplo. A estudante infectada do sexto ano não apresentava sintomas, mas fez o teste porque alguém de sua família teve resultado positivo. Esse parente fez o teste por causa do rastreamento dos contatos de outra pessoa, que trouxe o vírus para casa ao voltar de férias.

Na manhã seguinte à notificação da escola por parte dos pais da menina, uma unidade móvel de testes da secretaria de saúde local chegou na escola, entrevistando todas as crianças e professores que estiveram próximos a ela. Depois que todos os resultados deram negativo, metade da turma teve permissão para voltar à escola. Aqueles que se sentaram perto da menina tiveram que ficar de quarentena em casa por 14 dias. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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