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Amr Abdallah Dalsh/ Reuters
Amr Abdallah Dalsh/ Reuters

Algumas crianças com síndrome relacionada à covid desenvolvem sintomas neurológicos

Novo estudo descobriu que metade dos pacientes jovens com a condição inflamatória MIS-C em um hospital de Londres experimentou, além dos sintomas físicos, confusão, alucinações e outros problemas

Pam Belluck, The New York Times, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2021 | 20h00

Os relatos sobre a misteriosa síndrome inflamatória relacionada à covid que aflige algumas crianças e adolescentes se concentram principalmente nos sintomas físicos: erupção cutânea, dor abdominal, olhos vermelhos e, mais seriamente, problemas cardíacos como pressão arterial baixa e dificuldade de bombear.

Agora um novo estudo mostra que um número significativo de jovens com a síndrome também desenvolveu sintomas neurológicos, como alucinações, confusão, problemas de fala e problemas de equilíbrio e coordenação. O estudo com 46 crianças tratadas em um hospital de Londres descobriu que pouco mais da metade - 24 pacientes - experimentou esses sintomas neurológicos, os quais nunca haviam experimentado antes.

Esses pacientes tiveram cerca de duas vezes mais probabilidade do que os sem sintomas neurológicos de precisar de ventiladores porque estavam “muito indispostos com o choque sistêmico que fazia parte de seu estado hiperinflamatório”, disse um autor do estudo, Dr. Omar Abdel-Mannan, pesquisador clínico no Instituto de Neurologia da University College London. Pacientes com sintomas neurológicos também tiveram duas vezes mais probabilidade de necessitar de medicação para melhorar a capacidade de bombeamento do coração, disse ele.

A condição, chamada de Síndrome Inflamatória Multissistêmica em Crianças (MIS-C, na sigla em inglês), geralmente surge de duas a seis semanas após a infecção por covid e costuma produzir apenas sintomas leves ou nenhum sintoma. A síndrome é rara, mas pode ser muito séria. Os dados mais recentes dos Centros para Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos relatam 3.165 casos em 48 estados, Porto Rico e no Distrito de Columbia, incluindo 36 mortes.

As novas descobertas reforçam a teoria de que a síndrome está relacionada a um surto de inflamação desencadeado por uma resposta imunológica ao vírus, disse Abdel-Mannan. No caso das crianças no estudo, os sintomas neurológicos foram quase todos resolvidos quando os sintomas físicos foram tratados.

Médicos nos Estados Unidos recentemente também relataram sintomas neurológicos em crianças com MIS-C. Em um estudo publicado no mês passado na JAMA Neurology, 126 de 616 jovens internados com a síndrome em 61 hospitais dos Estados Unidos no ano passado tiveram problemas neurológicos, 20 deles com aquilo que os pesquisadores descreveram como problemas de “risco de vida”, como derrames ou “encefalopatia grave”.

O novo relatório, apresentado como pesquisa preliminar na terça-feira, como parte de uma conferência anual da Academia Americana de Neurologia, avaliou crianças menores de 18 anos que foram internadas no Great Ormond Street Hospital (GOSH) entre abril e setembro do ano passado com a síndrome (na Grã-Bretanha, a síndrome tem nome e sigla diferente: PIMS-TS). Os dados também estão incluídos na versão preliminar de um estudo maior que ainda não foi revisado por pares.

Assim como aconteceu com outros estudos sobre a síndrome, inclusive nos Estados Unidos, os pesquisadores disseram que a maioria dos atingidos era “não branca”, um padrão que os especialistas em saúde pública acreditam que reflete a maneira desproporcional como a pandemia afetou as diferentes comunidades. Quase dois terços dos pacientes eram do sexo masculino e a idade média era de 10 anos.

Todos os 24 pacientes com sintomas neurológicos tiveram dores de cabeça e 14 encefalopatia, termo geral que pode envolver confusão, problemas de memória ou atenção e outros tipos de alteração nas funções mentais. Seis das crianças estavam tendo alucinações, como “descrever pessoas que não estavam no ambiente ou ver desenhos ou animais se movendo nas paredes”, disse Abdel-Mannan. Ele disse que algumas experimentaram alucinações auditivas como “ouvir vozes de pessoas ausentes”.

Seis das crianças apresentaram fraqueza ou dificuldade em controlar os músculos usados na fala. Quatro tiveram problemas de equilíbrio ou coordenação. Uma criança teve convulsões e três tiveram anormalidades nos nervos periféricos, como fraqueza nos músculos faciais ou dos ombros. O dano ao nervo periférico de uma paciente levou a um problema de queda que exigiu o uso de muletas e uma recomendação para um transplante de nervo, disse Abdel-Mannan, que também é residente sênior em neurologia pediátrica no GOSH.

Alguns dos pacientes foram submetidos a varreduras cerebrais, testes de condução nervosa ou eletroencefalogramas (EEGs). Catorze deles mostraram atividade elétrica mais lenta em seus cérebros, relatou o estudo.

Treze dos 24 pacientes com sintomas neurológicos precisaram ser colocados em ventiladores e 15 precisaram de medicação para melhorar suas contrações cardíacas, disse Abdel-Mannan. Em contraste, apenas três das 22 crianças sem problemas neurológicos precisaram de ventiladores e sete precisaram do medicamento para o coração, disse ele. Nenhuma das crianças com alucinações precisou de medicamentos psicotrópicos.

Três crianças tiveram de ser hospitalizadas novamente após sua internação inicial, uma por outro episódio de encefalopatia e duas por complicações infecciosas, disse Abdel-Mannan, acrescentando que não houve mortes e que “quase todas as crianças tiveram uma recuperação funcional completa”.

Abdel-Mannan disse que uma equipe liderada pelo autor sênior do estudo, Dr. Yael Hacohen, acompanhará os pacientes que tiveram a síndrome - tanto aqueles que tiveram sintomas neurológicos quanto aqueles que não tiveram. Serão feitas varreduras cerebrais e avaliações cognitivas para ver se as crianças experimentam quaisquer efeitos cognitivos ou psicológicos de longo prazo. / TRADUÇÃO DE RENATO  PRELORENTZOU

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