REUTERS/Brendan McDermid
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Algumas pessoas buscam uma dose extra da vacina, enquanto os cientistas debatem

Reforço da vacina pode não ser necessário ainda, afirmam muitos especialistas e a busca de uma dose adicional também levanta questões de caráter ético

Maria Cramer e Jenny Gross, The New York Times

10 de agosto de 2021 | 20h00

Muitos cientistas afirmam que as pessoas vacinadas provavelmente não precisarão de uma dose de reforço tão cedo. Mas algumas vêm se vacinando uma terceira vez.

Essas pessoas vão a farmácias locais, outros Estados e até para outros países - onde não há nenhum registro delas como vacinadas - para obter uma dose extra do imunizante, preocupadas que estão com a variante Delta ou de que sua proteção esteja no fim. A notícia, na quinta-feira, de que Israel fará um reforço da vacina no grupo dos mais idosos, intensificou a procura nos Estados Unidos.

“Você não está protegido o suficiente, é a minha sensação”, disse Ida Thompson, professora de geologia aposentada que recebeu a vacina da Pfizer há algumas semanas nos Estados Unidos, depois de ter se vacinado as duas vezes necessárias com a AstraZeneca na Grã-Bretanha.

Thompson, que tem seis netos, disse que sua decisão de tomar uma terceira dose de reforço foi momentânea. Quando fez um teste do coronavírus numa farmácia na Flórida, onde visitava a família, viu que a farmácia estava oferecendo vacinas.

Quando o funcionário perguntou a ela se era a primeira ou a segunda dose da vacina, ela respondeu que era a primeira.

“Como seria a vacina da Pfizer achei que um reforço depois da AstraZeneca seria uma boa ideia, depois de ler sobre o estudo sobre os benefícios de combinar as duas vacinas.

Um reforço da vacina propicia uma proteção extra?

Resposta - Talvez, mas ainda é muito cedo para dizer, pelo menos de acordo com o CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças) dos Estados Unidos. O CDC não autorizou esse reforço, mas há um consenso cada vez maior no governo Biden de que as pessoas com mais de 65 anos ou que têm o sistema imune comprometido se beneficiariam com uma terceira dose da vacina.

A Pfizer e a BioNTech, companhia que inventou a vacina e fez uma parceria com a Pfizer para desenvolvê-la, reportaram que uma terceira dose da sua vacina aumenta os níveis de anticorpos no sangue contra várias versões do coronavírus, incluindo a variante Delta, que é altamente contagiosa. E algumas pesquisas sugerem que misturar tipos diferentes de vacinas provoca uma resposta imune mais robusta do que uma única marca.

Em Israel, o primeiro ministro Naftali Bennet anunciou que os provedores de saúde começariam a dar a terceira dose da vacina da Pfizer para pessoas com mais de 60 anos nesse domingo. Elas devem ter tomado a segunda dose da vacina há cinco meses ou mais para terem o reforço.

Mas alguns pesquisadores e autoridades do campo da saúde pública alertam que muitos dos dados a respeito são preliminares e as pessoas não devem supor que o reforço é necessário. Duas doses das vacinas Moderna ou Pfizer oferecem uma proteção robusta e duradoura contra uma doença grave ou morte. E a Johnson & Johnson informou que dados da companhia mostram que sua vacina é 85% eficaz contra uma doença grave decorrente da variante Delta e protege as pessoas que a receberam contra hospitalização e morte.

Segundo a Dra. Krutika Kuppalli, especialista em doenças infecciosas e professora assistente de medicina no Medical University da Carolina do Sul, muitos dos seus pacientes que receberam a vacina da Johnson & Johnson têm perguntado se devem tomar um reforço. Essa vacina, como a AstraZeneca, é menos eficaz do que as vacinas RNA.

Não é irracional os pacientes pensarem nisso, ela diz a eles.

Mas a médica disse que explica a eles que os dados ainda são vagos sobre potenciais efeitos colaterais e a pesquisa a respeito ainda não é definitiva. “Queremos que a ciência conduza nossas políticas”, disse ela.

Terri Givens, professora da universidade McGill no Quebec, que recebeu a vacina da Johnson & Johnson em março, disse que está pensando num reforço, mas não quer se antecipar à pesquisa.

“Não quero me antecipar. Quero vacinar de maneira consciente quando meu médico disser que sim”.

Devido ao sistema descentralizado de inscrição para tomar as vacinas nos Estados Unidos, várias pessoas dizem ser fácil conseguir um reforço, apesar de não terem autorização.

Em suas autorizações de uso emergencial das vacinas, a FDA permite somente duas doses das vacinas Pfizer e Moderna e uma única dose da Janssen. Antes de o CDC recomendar reforços dos imunizantes, a FDA terá de mudar essa autorização ou aprovar plenamente as vacinas. Se forem aprovadas, então os médicos terão mais liberdade para prescrever um reforço para os pacientes.

E no que se refere à ética?

R - Neste caso, estamos numa zona nebulosa. Idealmente as vacinas não usadas nos países ricos devem ir para países onde os estoques são menores e não para as pessoas que querem uma dose extra, disse a Dra. Kuppalli.

“Antes de começarmos a falar em terceira dose da vacina precisamos ter certeza de que todo mundo pode ter uma dose dela”, afirmou.

Maureen Kelley, membro do comitê de ética da Organização Mundial da Saúde para pesquisa da covid-19, disse que no plano político o foco dos governos de países de alta renda num reforço da vacina é algo vergonhoso quando somente 1,1% das pessoas nos países mais pobres receberam pelo menos uma dose.

E que qualquer pessoa que receber um reforço está contribuindo para a ignorância sobre as desigualdades no campo da vacina.

“Se tomo a decisão de ter um reforço, acho que sou cúmplice das decisões tomadas pelo meu governo ou pelas empresas farmacêuticas”, disse Kelley, que é professora de Bioética na Nuffield Department of Population Health na Universidade de Oxford. “Não acho que podemos separar facilmente as decisões individuais daquelas tomadas no plano político”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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