Alimentos para crianças de 6 a 18 meses têm sódio demais e ferro de menos

Pesquisadores da Unifesp e da UEPA analisaram amostras de alimentos de 78 bebês em Belém

Agência Fapesp

01 Outubro 2010 | 20h01

SÃO PAULO - A partir do sexto mês de vida, crianças nutridas somente com leite materno precisam também se alimentar com alimentos sólidos preparados em casa.

Ao analisar amostras de alimentos de transição preparados para 78 lactentes (que ainda mamam) de 6 a 18 meses em Belém, entre junho de 2005 e setembro de 2006, um estudo publicado no Jornal de Pediatria indica que eles apresentaram em geral baixo teor de ferro e quantidade excessiva de sódio. As crianças eram sadias e não apresentavam peso nem estatura baixos para a idade.

O objetivo do estudo, desenvolvido na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e na Universidade do Estado do Pará (UEPA), foi determinar por análise química a composição nutricional de macronutrientes, energia e quantidades de sódio e ferro em alimentos preparados em Belém para bebês que mamam. Os participantes foram divididos em dois grupos de estratos socioeconômicos diferentes.

O levantamento apontou que 95% dos chamados alimentos de transição tinham teor inadequado de ferro no grupo socioeconômico mais baixo, contra 65% no estrato mais elevado. Todas as amostras analisadas, em ambos os grupos, apresentaram quantidade de ferro abaixo do mínimo recomendado (6 mg/100 g).

Por outro lado, o excesso de sódio foi constatado em 89,2% e 31,7%, respectivamente, para a referência que é de 200 mg/100 g.

De acordo com Mauro Batista de Morais, professor do Departamento de Pediatria da Unifesp, apesar de serem raros os estudos de composição química de alimentos preparados em domicílio para lactentes, a pesquisa mostra que esse período de transição é realizado frequentemente de maneira imprópria.

“O estudo lança um alerta em relação à quantidade de sódio encontrada na comida. O termo ‘papa salgada’, frequentemente usado na orientação para que a mãe introduza comida salgada na dieta infantil, deveria ser abolido. Essa denominação funciona como um incentivo para a adição de sal. Preferimos ‘papa para o almoço’”, disse Morais, que é professor da disciplina de Gastroenterologia.

Segundo o pesquisador, o estudo possibilita uma revisão na elaboração de diretrizes metodológicas na área. A pesquisa corresponde à tese de doutorado de Marcia Portela Neves, defendida em 2009 na Unifesp, com orientação de Morais.

As amostras foram coletadas de famílias atendidas em dois tipos de serviço de atendimento pediátrico: na Unidade Materno-Infantil da UEPA e em quatro consultórios privados em Belém. A proposta foi comparar crianças de diferentes estratos socioeconômicos.

As porções - refeições servidas no almoço, como feijão, arroz, macarrão, carne e hortaliças - foram coletadas na casa dos voluntários, congeladas e, posteriormente, enviadas por via aérea para São Paulo, onde foram analisadas no Laboratório de Bromatologia e Microbiologia de Alimentos da Unifesp.

Poucos lipídios

Os pesquisadores analisaram quimicamente as proteínas, lipídios, hidrato de carbono, ferro, sódio e valor energético total. De acordo com Tania de Morais, coordenadora do Laboratório de Bromatologia e Microbiologia de Alimentos da Unifesp e co-orientadora do estudo, o teor de ferro foi escolhido porque sua deficiência é a principal carência nutricional nessa faixa etária.

“Até o sexto mês de vida, o leite materno é o melhor e mais completo alimento para o lactente. Após essa idade, torna-se necessária a introdução de outros alimentos. Mas o que temos percebido é que o processo de transição para a dieta da criança se faz de maneira inadequada pela oferta, em quantidade e em qualidade, de alimentos inapropriados. Isso pode ser crítico para a manutenção de um crescimento saudável”, afirmou Tania.

Segundo ela, a necessidade de ferro nessa faixa etária é de 11 mg/dia nos menores de 1 ano. “Essa taxa é difícil de ser atingida pela alimentação normal, pois as carnes têm teor de ferro relativamente baixo frente à capacidade gástrica reduzida das crianças nessa fase da vida”, explicou.

A pesquisadora conta que a carne bovina, como acém moído e cozido, por exemplo, tem cerca de 3 miligramas de ferro a cada 100 gramas, o equivalente a um bife médio.

O estudo demonstrou ainda a insuficiência na quantidade de lipídios encontrada nos alimentos. “Acredita-se que a recomendação para limitar a ingestão de lipídios na dieta dos adultos esteja, possivelmente, influenciando a preparação de refeições para as crianças. Ressalte-se que os lipídios são essenciais nessa fase da vida, para a maturação do sistema nervoso”, explicou Tania.

De acordo a professora da Unifesp, o excesso de sódio pode ser explicado pelo hábito da população brasileira de consumir sal de cozinha em quantidades muito acima do recomendado, o que pode se refletir também na preparação de alimentos destinados às crianças.

“Educar o paladar dos lactentes para alimentos com baixo teor de sal é importante, uma vez que a ingestão excessiva está associada ao aumento da pressão arterial no futuro”, alertou Tania.

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