JUSTIN TALLIS / AFP
JUSTIN TALLIS / AFP

Alta de síndrome pós-covid em crianças inglesas não é razão para pânico, dizem médicos brasileiros

Reino Unido registra cem hospitalizações semanais pela doença, uma reação tardia à infecção pelo novo coronavírus; pediatras afirmam que aumento pode estar ligado ao pico da pandemia no país europeu

Paula Felix, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2021 | 19h25

SÃO PAULO - A informação de que cem crianças têm sido internadas por semana em hospitais do Reino Unido por causa de uma síndrome rara desencadeada pela covid-19 deve ser vista com cautela pelos pais e profissionais da área de educação, segundo pediatras brasileiros ouvidos pelo Estadão. Eles avaliam que ainda é necessário estudar as causas do aumento de casos e se essas infecções são uma tendência em outros países. A alta de notificações na Europa trouxe preocupação, sobretudo neste momento de reabertura de escolas pelo Brasil. 

A síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (SIM-P), considerada rara, é uma espécie de reação grave e tardia à infecção pelo novo coronavírus. Entre os sintomas possíveis, estão febre, dor abdominal, inchaço nas articulações, manchas na pele, inflação no pulmão e nos rins. Nem sempre vem acompanha de sintomas respiratórios. Pode atingir crianças e adolescentes. Até o dia 24 de outubro, o Ministério da Saúde havia registrado 511 casos no Brasil, com 35 mortes. 

O pediatra e infectologista Renato Kfouri, presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), diz que casos da síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica, que pode até levar à morte, são raros e que não há motivo para desespero. "É preciso ver se o aumento tem sido proporcional com os demais casos, uma das possibilidades que estão investigando. Ou se há mesmo um novo aumento de casos. Nada de pânico, porque é preciso avaliar o que está acontecendo", diz. 

"Se há aumento proporcional (ao crescimento de casos no Reino Unido) pode ser que tenha algo relacionado com a variante ou até as pessoas mais atentas ao diagnóstico. Mas temos de lembrar que são eventos que continuam sendo raros perto do número de casos e da incidência em crianças", acrescenta Kfouri. O avanço de uma variante britânica do novo coronavírus, mais contagiosa, tem preocupado especialistas. 

O aumento de casos da síndrome no Reino Unido é de levantamento do jornal The Guardian, que apontou ainda que 75% das crianças mais afetadas pela SIM-P eram negras, asiáticas ou de minorias étnicas e que quase quatro em cada cinco crianças eram previamente saudáveis, Fernanda Lima Setta, pesquisadora do Departamento de Pediatria do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), afirma não ter encontrado publicações científicas que relatassem esse aumento recente.

"As crianças estão assintomáticas e, quatro a seis semanas depois, é como se fosse uma resposta dos anticorpos, que causam lesão dos órgãos alvo", afirma ela. Fernanda, também coordenadora-geral das UTIs pediátricas da Rede D'Or-Rio, diz que é possível notar a relação entre o ápica da pandemia em uma cidade e o pico de casos da síndrome inflamatória em crianças. "Aqui no Rio, internamos muitos casos de junho a setembro. Agora, começamos a ver menos. Não estamos vendo esse aumento."

Estudo aponta relação entre sintomas gastrointestinais e a síndrome

No ano passado, o IDOR realizou um estudo com pacientes de 1 mês a 19 anos que ficaram internados em UTIs por causa do novo coronavírus e detectou que aqueles que desenvolveram a SIM-P apresentaram sintomas gastrointestinais, como diarreia, vômito e dor de barriga. A indicação dos pesquisadores é que os pais das crianças que apresentem esses sinais, além de prostração e febre sem causa aparente, que não passa e acima de 38 graus, devem levá-las ao hospital, pois não é possível notar os danos que a síndrome causa nos órgãos.

A pesquisa mostrou ainda que  crianças e adolescentes com alguma comorbidade têm 5,5 mais chances de evoluir para casos graves de covid-19 em relação a pacientes saudáveis. Entre os 29 óbitos pela doença registrados até a primeira semana de outubro no Brasil, a maioria (16) foi na faixa etária entre zero e quatro anos.

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