Aluna de auto-escola toma remédio e entra em coma

Uma discussão envolvendo a prática, considerada comum, de tomar remédios para reduzir a tensão na hora de fazer o exame de motorista - e a qualificação dos profissionais que trabalham nas auto-escolas - foi aberta em Belo Horizonte depois que Nadir Maria de Oliveira, de 25 anos e asmática, entrou em coma após ingerir na segunda-feira pela manhã, antes do teste, um remédio para hipertensão, usado como calmante. O medicamento propranolol é contra-indicado para pacientes com histórico asmático. Até o final da tarde de ontem, ela permanecia no CTI do Hospital Odilon Behrens. A família suspeita que o medicamento tenha sido oferecido a ela pelo instrutor. De acordo com Miriam Souza, diretora-técnica do Odilon Behrens, ela sofreu parada cardiorrespiratória e chegou ao hospital com constrição pulmonar, antes de entrar em coma. "É uma medicação que no caso de um paciente asmático pode levar a um quadro grave mesmo", disse. Na manhã de anteontem, a equipe médica retirou a sedação da paciente, mas ela não apresentou nenhuma reação neurológica. "Há risco iminente de morte", informou Miriam. Nadir era aluna da Auto-Escola Motora, no bairro Floramar, região norte da capital mineira. O proprietário, Anderson Jesus Gomes, disse que a aluna estava sendo acompanhada por um instrutor terceirizado. "Não sei se foi ele que ofereceu. Dentro do carro, a gente não sabe o que acontece." O propranolol não tem venda controlada, mas sua ingestão só deve ser feita com orientação médica. "Os próprios alunos tomam, eles conhecem todo tipo de calmante", afirmou Gomes. "Tanto para fazer exame de direção como prova de vestibular. Isso aí é uma coisa que não é escondida de ninguém." O analista de informática José Procídio Carneiro, de 41 anos, irmão de Nadir, disse que quando foi informado pensou que se tratava de mais uma crise asmática da irmã. Para Carneiro, o episódio que vitimou Nadir deve servir de alerta à população. "Sei que é uma prática comum", afirmou. A diretora-técnica do Odilon Behrens lembra que o episódio tem a ver com a cultura da automedicação no Brasil. "Uso de medicação para os exames, a gente sabe que as pessoas fazem. Isso é uma coisa ruim na nossa população. A gente tem o hábito de se automedicar mesmo." Mas a médica preferiu não afirmar que foi o medicamento que causou as reações. "A asma pode ser um quadro desencadeado pelo stress", disse. Os sindicatos dos Centros de Formação dos Condutores (Sipro) e dos Empregados de Auto-Escolas (Seame) de Minas contestam a prática generalizada de medicação antes dos exames. Mas concordam que é necessário um maior controle da qualidade das instituições e dos profissionais que atuam no Estado. Os efeitos do medicamento - O propranolol age nos receptores bioquímicos das células do coração, dos vasos sanguíneos e dos brônquios. Os receptores são pontos que regulam ou liberam a ação de substâncias no organismo, como hormônios e os próprios remédios. O medicamento tem, portanto, vários efeitos. Entre eles, o de diminuir a pressão e os batimentos cardíacos. O coma da cliente da auto-escola pode ter ocorrido pela associação da ação do remédio nos brônquios com o fato de ela sofrer de asma (inflamação crônica das vias aéreas que provoca dificuldade respiratória). "O propranolol diminui o calibre dos vasos dos brônquios. Se o paciente tem asma, há risco de faltar oxigênio para o corpo", explica Ronaldo Rosa, presidente do departamento de Cardiogeriatria da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Já o efeito relaxante do remédio é causado por outra ação, a de diminuir a descarga de adrenalina no organismo. Colaboram Simone Iwasso e Adriana Dias Lopes

Agencia Estado,

11 de maio de 2006 | 09h58

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