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Alunos da História

Quem insiste em tratamento precoce para covid-19 até hoje não é necessariamente burro ou mal-intencionado, mas se justifica ignorando a quantidade enorme de estudos que as contraindicam

Daniel Martins de Barros*, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2021 | 05h00

Quando eu digo que a única coisa que a História ensina é que a gente não aprende nada com a História sou chamado de pessimista. Mas é difícil não pensar assim quando olhamos os erros que cometemos no passado e comparamos com os que cometemos agora. Parece que a História não é uma boa professora.

Na primeira metade do século 20, os recursos para tratar isquemia cardíaca eram limitados. Até que em 1939 o cirurgião italiano Davide Fieschi teve uma ideia que parecia promissora: na parte anterior do tórax, próximo do coração, há duas artérias chamadas mamárias. Como não fazem muita falta (tanto que até hoje são retiradas para pontes e restaurar irrigação cardíaca), Fieschi imaginou que amarrá-las poderia desviar o sangue delas para o coração, corrigindo a isquemia e sanando a dor. Três anos depois, ele viria a publicar resultados impressionantes: 75% dos pacientes experimentavam alívio significativo na dor, e um terço dos operados ficava completamente curado. A cirurgia de Fieschi passou então a ser realizada rotineiramente por quase duas décadas, aparentemente um sucesso.

Até que na década de 1950 um grupo de médicos americanos convenceu o National Institute of Health a financiar um estudo que colocasse a técnica à prova, comparando sua eficácia com uma intervenção inócua, a cirurgia placebo. E os resultados foram também assustadores: os pacientes que tinham as artérias amarradas e os que tinham o tórax aberto, mas não recebiam tal intervenção, relatavam a mesma taxa de melhora. Não fazia diferença. Para piorar, embora subjetivamente todos se sentissem melhor, medidas objetivas como o desempenho em testes ergométricos não mudavam em nada. Eles não estavam sendo realmente tratados. 

Hoje fica claro que era resultado do efeito placebo. Ele não só convencia os pacientes de que tinham melhorado, como reforçava a impressão dos médicos de que a técnica era eficaz, o que perpetuou durante praticamente 20 anos a realização de um procedimento arriscado, caro e inútil. Eu não conheço a reação dos cirurgiões à publicação desse estudo, mas posso imaginar que não tenha sido muito boa. Pense só: você fica famoso pelo desenvolvimento de uma técnica cirúrgica. Roda o mundo, falando sobre ela. Ganha muito dinheiro com isso. E de uma hora para outra está tudo errado.

Era um golpe não apenas na conta bancária dos cirurgiões, mas na própria autoimagem. Nós achamos que somos pessoas boas, não queremos fazer mal para ninguém. 

E, de repente, descobrimos que estávamos fazendo mal, mesmo sem querer, enganando os pacientes. É preciso coragem para dizer a si mesmo “Errei. Não sabíamos. Mudemos”. E assim foi: independentemente da eventual resistência de alguns, o conhecimento prevaleceu e a cirurgia de Fieschi foi totalmente abandonada.

Essa é apenas uma das muitas histórias sobre tratamentos e vieses. É um exagero dizer que não aprendemos nada com elas: aprendemos que é preciso fazer estudos controlados; que a experiência pessoal não é garantia de resultado; que nossos vieses influenciam a observação; que o método científico serve para corrigir tais distorções. 

Meu desânimo vem de constatar que, mesmo tendo aprendido tudo isso, ficamos presos na teia de antimaláricos e antiparasitários, exatamente como se não soubéssemos nada disso.

Quem insiste em tratamento precoce para covid19 até hoje não é necessariamente burro ou mal-intencionado, mas se justifica apontando experiências pessoais, opiniões de especialistas, escolhendo ler apenas estudos pequenos que referendem o uso das medicações, deliberadamente ignorando a quantidade muito maior de estudos enormes que as contraindicam. E, para complicar, depois de passar um ano defendendo publicamente tal postura, muitos acharão impossível aceder às evidências e dizer para si e para os outros “Errei. Não sabíamos. Mudemos”. Mais uma vez, contudo, independentemente da sua resistência, o conhecimento prevalecerá e os kits covid serão totalmente abandonados.

É, talvez a História não seja uma má professora. É que nem sempre encontra bons alunos. 

* É PROFESSOR COLABORADOR DO DEPARTAMENTO E INSTITUTO DE PSIQUIATRIA DA FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (FMUSP) 

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