Epitacio Pessoa/Estadão
Epitacio Pessoa/Estadão

Alunos relatam encontrar dificuldade para obter auxílio psicológico

Estudantes se sentem desamparados por professores quando enfrentam problemas

Fabiana Cambricoli e Luiz Fernando Toledo, O Estado de S. Paulo

16 Setembro 2017 | 19h00

Embora estejam aumentando seus programas de auxílio psicológico, as universidades ainda são alvo de críticas dos estudantes quanto à postura no acolhimento de alunos com problemas mentais. De acordo com universitários ouvidos pelo Estado, alguns professores e diretores de unidades são insensíveis ou inflexíveis, outros desqualificam e minimizam os quadros do tipo.

A estudante de Medicina da USP Karen Maria Terra, de 23 anos, relata que houve falta de acolhimento por parte de uma professora. No semestre passado, com crises de ansiedade e início de depressão, ela teve de faltar a algumas aulas. “No segundo semestre, comentei com ela que precisaria de ajuda porque não tinha compreendido direito alguns conteúdos, mas, na primeira vez que disse que não estava entendendo um caso, ela me disse para ir pesquisar em um livro porque ela não tinha cara de dicionário”, conta ela. 

“Já ouvi de um professor que, se não estivéssemos entendendo, era melhor prestar o vestibular de novo”, conta a aluna da Escola Politécnica da USP Beatriz Alves Bessa, de 21 anos.

A situação também ocorre em universidades particulares. Logo depois de começar um tratamento para a síndrome de borderline, transtorno caracterizado por mudanças súbitas de humor, a estudante de Veterinária da Universidade de Sorocaba (Uniso) Carolina (nome fictício), de 25 anos, procurou a coordenação do curso para pedir ajuda. Crises de choro e mal-estar certamente afetariam seu desempenho. “A sensação era de um furacão que passava pela minha cabeça.” A promessa foi de acolhimento, mas, na prática, uma série de problemas a levaram a trancar o curso.

O primeiro episódio foi no primeiro semestre do ano passado. A estudante perdeu uma prova depois de ter crise de pânico e, para não zerar, pediu à psicóloga que lhe desse um atestado médico para que pudesse fazer a avaliação em outro dia. O pedido foi negado, e ela reprovou na disciplina. 

“Disseram que um psicólogo não pode dar atestado. Tentei até recorrer ao reitor, mas não adiantou.” Pouco tempo depois a aluna levou uma carta de sua psiquiatra, na tentativa de abonar faltas que teve por causa das crises, mas a justificativa não foi aceita. Foi aí que decidiu trancar o semestre. Só retomou os estudos agora, em 2017. 

Ações

Professor da Medicina da USP e supervisor do serviço de apoio aos estudantes do curso, Francisco Lotufo Neto diz que a faculdade tem dois psiquiatras e dois psicólogos disponíveis para atender os alunos e a unidade tenta sensibilizar todos os membros da comunidade acadêmica para o tema. “Alguns professores privilegiam o desempenho acadêmico. Discussões sobre estigma em relação ao adoecer mental e visitas aos departamentos estão sendo realizadas.”

Diretor da Escola Politécnica da USP, José Roberto Castilho Piqueira afirma que a instituição encaminha os estudantes que precisam de ajuda para os institutos de psicologia e psiquiatria da universidade e o tema é abordado em palestras para estudantes. “Temos um grupo de apoio aos alunos e eventuais comportamentos inadequados de professores devem ser trazidos à diretoria. Se os alunos não relatam, não temos como tomar providências”, afirma Piqueira.

A Pró-Reitoria de Graduação da USP informou que a saúde de seus estudantes é “tema prioritário” e está desenvolvendo um programa-piloto de acolhimento ao estudante, a ser implementado no próximo mês. A Uniso informou que dispõe de clínica de psicologia para alunos e dezenas de atestados são rigorosamente atendidos, seguindo a legislação, que prevê apresentação de atestado de profissional médico.

Preste atenção: O que observar nos alunos

1) Drogas. O uso abusivo de álcool e drogas pode ser gatilho ou fator de agravamento de transtornos psiquiátricos, segundo Antônio Geraldo da Silva, diretor da Associação Brasileira de Psiquiatria. “O cérebro está em formação até os 23, 25 anos. Com o consumo de drogas, o jovem fica mais suscetível a doenças mentais”, explica.

2) Sinais. Mudanças de comportamento são os principais sinais que os jovens dão quando desenvolvem problemas psiquiátricos. “Pode ser um jovem muito sociável que, de repente, se isola. Mas também há casos de jovens muito retraídos que passam a ficar expansivos”, diz José Manoel Bertolote, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

3) Ajuda. O especialista afirma que não se deve desqualificar o sofrimento de um paciente com problemas psicológicos. “O quadro não deve ser tratado como besteira ou frescura. Comentários do tipo pioram as coisas. Deve ser oferecida ajuda”, diz Bertolote.

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