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Amazonas ainda tem redução de internações e mortes, mas segue com sistema perto do limite

Professor diz que isolamento social contribuiu com queda de óbitos; Manaus teve colapso de hospitais por falta de oxigênio

Rosiene Carvalho, especial para o Estadão

27 de fevereiro de 2021 | 10h00

MANAUS - O Amazonas diminuiu nas últimas semanas o número diário de óbitos, fila de espera por assistência e hospitalizações, mas segue com o sistema de saúde em colapso e com doentes à espera de leitos. A segunda quebra no sistema de saúde do estado, na pandemia, já dura dois meses. Em Manaus, a média atual de enterros diários é de 78,8 sepultamentos, o dobro dos registros antes da pandemia.

Mesmo com taxa de ocupação de UTI superior a 90%, classificação vermelha de alto risco em Manaus e roxa nos 61 municípios do interior - que não tem alta complexidade -, o Estado conduz a reabertura. Na primeira onda, a retomada de atividades presenciais ocorreu quando a média de sepultamento em Manaus estava em torno de 40 e a taxa de ocupação em UTI tinha caído para menos de 70%.    

Nesta sexta-feira, 26, foram confirmados 1.572 novos casos de covid-19, e 1.461 pessoas com a doença ocupavam leitos clínicos e de UTI no Amazonas. A fila de espera tem 84 doentes, sendo a maioria, 55, do interior. Do total de pacientes que aguardam por leitos, 35 precisam de UTI, cuja taxa de ocupação se mantém alta em 90,31%.

O Estado passou cerca de duas semanas, entre o fim de janeiro e início de dezembro, com uma média diária de espera por leito de cerca de 550 pessoas, durante o período que o governo decretou lockdown.  Em meados de janeiro, os centros médicos de Manaus chegaram a entrar em colapso e pacientes morreram asfixiados por falta de oxigênio hospitalar. “No hospital em que trabalho, diminuiu o número de pessoas em leitos. Só que não podemos nos iludir com a falsa sensação de normalidade. Na verdade, estamos longe da normalidade”, declarou o presidente do Sindicato dos Médicos do Estado, Mário Viana.

Para o professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e coordenador do Atlas ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável), Henrique Pereira, a diminuição de óbitos e infecções no Amazonas está diretamente relacionada à adesão ao isolamento social em janeiro. A vacinação ainda está no início e o Estado permanece no seu inverno amazônico que, chuvoso, favorece a proliferação de doenças virais e respiratórias.

A Atlas ODS da covid-19 no Amazonas indicou no seu relatório semanal, divulgado no último sábado, 20, que havia tendência de desaceleração doença, levando em consideração dados das duas semanas anteriores. No entanto, a média de novos casos ainda era 2,4 vezes maior do que a registrada no início de dezembro, antes da explosão que provocou a segunda onda da doença em Manaus.

O mesmo quadro se mostrava quando comparado os registros de óbitos: “reduziram em 47%, na última semana, porém ainda são 4,8 vezes mais numerosos que no início de dezembro”, indica o relatório. As internações caíram, segundo o levantamento da Ufam, 51% nas semanas anteriores ao último sábado desde o pico em 14 de janeiro, quando faltou oxigênio. Mas estão 2,2 vezes maiores que os do início de dezembro.

Aumento de casos e diminuição do isolamento

A preocupação do professor Henrique Pereira é que as médias móveis diárias de infectados voltaram a registrar aumento no mesmo período que a taxa de isolamento social caiu, incentivada pela reabertura Segundo ele, esse processo é precipitado. “O isolamento social, que chegou a 62% em Manaus, vem caindo e a média móvel de novos casos teve leve aumento. A sequência é essa: cai a taxa de isolamento, aumenta número de casos, depois de internações e, na terceira semana, infelizmente, o número de óbitos”, afirmou.

Para ele, dois cenários possíveis serão observados nos próximos dias no Amazonas. “Há uma queda mais substancial do índice de isolamento em Manaus depois do dia 20 de fevereiro. Dois cenários possíveis se apresentam: essa queda de números de óbitos e internações pode continuar, mas de forma mais lenta, ou pior, a regressão à condição mais grave”, disse.

A liberação da circulação de pessoas aposta que a imunização, ainda em curso, do público que mais morre (idosos) possa conter o número de óbitos. Até agora, o Estado aplicou 278.345 doses de vacinas nos grupos prioritários. Segundo dados do site do Governo do Amazonas, a vacinação da primeira dose atingiu mais de 70% da população com idade acima de 74 anos. Em Manaus, a prefeitura anunciou para a próxima semana o início da vacinação de grupos de idosos entre 65 e 69 anos. Na cidade, 73% dos mortos por covid-19 em 2020 tinham mais de 60 anos.

A técnica de uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) na zona norte de Manaus, que pediu para não ser identificada, afirma que a unidade atendeu três vezes mais pacientes do que sua capacidade no pico de casos. Relata que a lotação caiu e que estão conseguindo, sem longas esperas, transferir pacientes. As vagas que desocupam nas unidades de emergência, que deveriam funcionar como porta de entrada para covid-19, passaram a oferecer leitos aos doentes transferidos do interior. 

Artista perde oito pessoas da família para covid-19

Acostumado a ter meses de fevereiro apoteóticos, o artista plástico parintinense Juarez Lima, 54 anos, viveu uma tragédia particular em meio à crise no Amazonas. A arte de Juarez encanta há décadas os desfiles de escolas de samba do Rio e São Paulo, com os movimentos e cores usados em carros alegóricos gigantes e de estética impressionante.

Em 2021, além de não ter a alegria dos carnavais, o artista enfrentou a infecção e internação por covid-19 exatamente no período de superlotação de hospitais e crise de oxigênio. Foram 20 dias de internação em que, simultaneamente, 15 pessoas de sua família adoeceram e oito delas morreram, incluindo sua esposa, a também artista Irlani Lima.

A contaminação veio, segundo ele, de surpresa. A família passou meses com extremos cuidados de higiene. Apenas um dos filhos do casal havia se infectado em 2020 e foi reinfectado nesta segunda onda. “A gente nunca sabe de onde vem. Tudo que entrava em casa, até fruta, a gente desinfectava com álcool. Bateu até uma paranoia”, disse Lima.

No 19º dia de internação, ele recebeu a notícia de que a esposa, após mais de 20 dias de luta contra a doença, teve três paradas cardíacas e não resistiu. A tia de Irlani, Marilda Cruz, 89 anos, e quatro filhos, “os primos mais queridos”, também morreram no mesmo período. “O Senhor levou meu grande amor. Mas tenho certeza que ela está bem. Uma mulher lutadora, forte, amorosa e dedicada. Uma cunhã-poranga de Parintins. Minha mulher lutou bravamente”, disse.

Ainda internado, Lima transformou o leito em ateliê e passou a registrar o que sentia em pinturas, diários e publicações nas redes sociais. O artista pretende que o conteúdo vire um livro. “Vi meus amigos, meu núcleo de arte, praticamente sendo dizimado. Clamei ao Senhor por uma chance de voltar (...) Tenho certeza que o mundo será melhor depois da pandemia. Seremos capazes de pensar na dor do próximo, mais generosos e capazes de compartilhar a dor do próximo”, disse.  

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