Bruno Kelly/Reuters
Bruno Kelly/Reuters

Amazonas apresenta colapso no sistema de saúde por causa do coronavírus

Estado tem histórico de problemas de gestão e corrupção na saúde e número de casos e mortes cresce exponencialmente

Rosiene Carvalho, especial para O Estado de S. Paulo

15 de abril de 2020 | 16h44

MANAUS - Com histórico de problemas de gestão e corrupção na Saúde, o Estado do Amazonas é o primeiro a apresentar sinais de colapso no sistema público com o avanço da covid-19 e corre contra o tempo e a escalada no números de infectados e óbitos para aumentar a quantidade de leitos clínicos, de UTIs e de profissionais da saúde na linha de frente no atendimento aos pacientes. A correria é para que o sistema de saúde, que já era pressionado pela rotina e agravou com os casos da covid-19, não sucumba antes do pico de infecções no Estado, previsto para a última semana de abril e primeira semana de maio, de acordo com a Fundação de Vigilância Sanitária (FVS).

Em uma semana, os casos confirmados da doença no Estado aumentaram 192% e os registros de óbitos subiram 360%. Na segunda-feira passada, dia 6, o número de infectados confirmados era de 532 e saltou para 1.554 casos confirmados, anunciados nesta quarta-feira, 15. Já o número de óbitos há nove dias totalizava 23 e o número total de pessoas mortas por infecção de coronavírus foi para 106, sendo que algumas outras ainda estão em investigação.

Estes dados colocam o Amazonas na fase de “aceleração descontrolada” do novo coronavírus, segundo definição do Ministério da Saúde. O Estado tem a maior taxa de incidência da doença para cada 100 mil habitantes. Enquanto a taxa nacional é de 7,5 casos por 100 mil habitantes, a do Amazonas, segundo informações divulgadas na semana passada pelo Ministério da Saúde, era de 19,1 casos para cada 100 mil habitantes.

Nos últimos dias, o governador do Amazonas, Wilson Lima, criticou a população pela baixa adesão ao isolamento social em Manaus, a capital que concentra a metade da população do Estado, e trocou o secretário de Saúde, Rodrigo Tobias, após ele anunciar que a rede estadual estava a 5% do colapso. Dois dias depois da declaração, Tobias deixou a função e o governador anunciou que Simone Papaiz, a ex-secretária do município de Bertioga, no litoral paulista, com 57.942 habitantes, seria a nova gestora do Estado com 4 milhões de habitantes.

A troca sofreu críticas até do ministro da Saúde, Luiz Henrique Madetta, em coletiva nacional na semana passada: “Manaus nos preocupa muito. Hoje teve mais troca de secretário de Saúde lá em Manaus. É algo que a gente não quer entrar no detalhe. Mas precisamos de pessoas que estejam habituadas com a rede para que a gente não tenha de começar tudo do zero, né?", declarou o ministro.

Já o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto (PSDB), disparou que a culpa da não adesão ao isolamento era do presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), que há três semanas participou, via chamada de vídeo, de uma carreata com cerca de 600 veículos pedindo a volta da circulação das pessoas e a reabertura do comércio em Manaus. 

Enquanto buscam culpados, os dois gestores anunciaram, com distanciamento político um do outro, novos leitos em hospitais de campanha em ações com empresas particulares. Virgílio liderou pela prefeitura a montagem de um hospital de campanha num bairro da periferia de Manaus com 114 leitos clínicos e 32 de UTI. Esta semana, está previsto entrar em funcionamento metade dos leitos de UTI.

“Priorizamos criar estas vagas neste bairro com o objetivo de atender pessoas em área de maior vulnerabilidade. Estamos recebendo doações de empresas privadas e é um suporte de vagas para este momento”, explicou a subsecretária de saúde da Prefeitura de Manaus, Adriana Elias, sem detalhar os investimentos públicos na medida. 

O Governo do Estado anunciou que iria contratar por R$ 866 mil, por mês, o prédio e os materiais de um hospital particular, na Zona Centro-Sul de Manaus, desativado para funcionar como hospital de campanha com a possibilidade de ampliar mais 400 leitos para pacientes com covid-19, sendo dez deles de UTI. 

Em live de atualização dos dados oficiais do governo, a nova secretária, Simone Papaiz, não informou quando a unidade estará disponível para atender a população. Disse que precisa de 900 funcionários, que ainda estão sendo selecionados.

Em meio às notícias de que a unidade de referência do Estado para a covid-19, o hospital Delphina Aziz, chegou ao seu limite de atendimento - informações vazadas por funcionários da unidade e de denúncias de cooperativas médicas e de enfermeiros do Estado do Amazonas. O Governo Federal interveio com anúncios de socorro. 

O Ministério da Saúde anunciou que deve enviar ao Amazonas recursos humanos e verbas para serem investidas na ampliação do atendimento da unidade pública de referência do Estado, o hospital Delphina Aziz. Outra medida de socorro ao Amazonas é o hospital de campanha para a população indígena. 

A reportagem solicitou informações do Governo do Amazonas sobre a previsão de instalação das unidades e dos recursos que o Estado já recebeu para investimentos do enfrentamento do novo coronavírus pelo Governo Federal, mas nenhuma resposta foi enviada até o fechamento desta matéria. 

Apagão de leitos

A proximidade do colapso no sistema de saúde ainda não reflete a proliferação do novo coronavírus em zonas mais pobres e populosas da cidade de Manaus nem nos municípios do interior do Estado do Amazonas, que tem dois obstáculos além da falta de vagas hospitalares: um apagão de leitos de UTIs e o difícil acesso à capital, que concentra o atendimento de média e alta complexidade. 

Os cerca de 500 respiradores do Amazonas estão em Manaus e a maior parte deles atende à rotina de atendimento. Na segunda-feira, 13, o Governo do Amazonas informou que o Hospital Delphina Aziz contava com 75 leitos de UTI. No fim de semana, houve um incremento de 15 respiradores, após a notícia de que a unidade havia entrado em colapso. 

O último boletim epidemiológico da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS), emitido na primeira semana de abril, apontou que o maior registro de casos da covid-19 se concentrava nos bairros nobres de Manaus, onde as unidades habitacionais são completamente diferentes da realidade das moradias na periferia da capital, em que há muitas pessoas e poucos cômodos.

Segundo dados divulgados pelo Governo do Amazonas, 18 dos 61 municípios do interior registram casos da doença. Até este momento, não há notícias de casos dentro de aldeias indígenas, outro grupo de vulnerabilidade no Amazonas que concentra a maior população indígena do Brasil. No entanto, dos sete indígenas que testaram positivo para a doença, dois foram a óbito. 

De acordo com a diretora-presidente da FVS, Rosemary Costa Pinto, os dois indígenas foram infectados em unidades de saúde de Manaus onde estavam internados para tratar doenças de cardiopatia. “Já eram pacientes de risco, já tinham sistema imunológico muito vulnerável, entraram em contato com o vírus, agravaram e foram a óbito”, explicou.

 No mesmo dia da informação de colapso no Delphina Aziz, na sexta-feira, dia 10, o Ministério Público do Estado do Amazonas (MP-AM) informou que a Justiça havia determinado transferência de pacientes graves do município de Parintins (a 370 quilômetros de Manaus), obrigando o Estado a garantir vagas de UTI para estes pacientes, suspeitos de estarem infectados pelo vírus. 

Segundo o MP-AM, a transferência não tinha ocorrido por falta de vagas no Delphina. O governo atendeu à decisão judicial, transferindo os pacientes por UTI aérea e alegou que os mesmos não haviam testado positivo, nos testes rápidos, para a doença.

Colapso na rede hospitalar

A vice-presidente do Sindicato dos Médicos do Amazonas e médica do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), Patrícia Sicchar, declarou que medidas erradas na gestão da epidemia tornaram todas as unidades de saúde de Manaus focos de disseminação da covid-19 para pacientes com outras doenças e profissionais da saúde.

A médica alertou que a rede estadual do Amazonas já está em colapso e que o Governo do Amazonas "tenta esconder a realidade". Segundo ela, faltam medicamentos para pacientes internados por covid-19 e por H1N1, e os que saem com receituário para tratar infecção pelo coronavírus em casa não estão conseguindo os remédios nem mesmo por compra.  

Patrícia, via Sindicato dos Médicos, recebe relatos diários dos profissionais que atuam nas unidades em Manaus e entra em contato com a realidade da rede por meio de seus plantões. Ela afirma que com o agravamento da situação nas unidades de saúde e os riscos para os profissionais e pacientes fizeram com ela procurasse diretamente o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, para repassar os informes sobre Manaus. O ministro a citou em algumas coletivas ao falar da evolução da covid-19 no Estado. 

Na semana passada, Mandetta disse que foi por ela que recebeu a informação da falta de Tamiflu, medicamento usado para combater a H1N1, e disse que ia providenciar a reposição para Manaus. “Todas as unidades estão lotadas. Já está colapsado. É um caos. Se continuar assim, vai morrer muita gente. Como fecharam portas na unidade de referência da covid-19, o Hospital Delphina Aziz, para atender pessoas com sintomas da doença, todas as unidades de saúde viraram foco de disseminação para os que estão internados e para os profissionais da saúde. Tem gente internada com hipertensão, AVC, diabetes e todo quadro de grupo de risco para esta doença. Essa decisão foi muito errada”, apontou. 

A médica afirmou que na segunda-feira, dia 13, levou no Samu um paciente com tuberculose que pegou covid-19 durante a internação na rede estadual de saúde. “Difícil que resista. E ainda não queriam aceitar (a internação)”, disse. Patrícia afirmou, ainda, que no Delphina Aziz, na segunda-feira, estava com os 50 leitos de UTI e a sala rosa, espaço de atendimento semi-intensivo, lotados. A médica ressaltou que mais 14 ou 17 leitos foram instalados, mas “é coisa que em menos de uma semana deve lotar", em função do avanço da doença.

Outras medidas

Segundo a secretária municipal de Saúde, Adriana Elias, a prefeitura adotou outras medidas para diminuir a circulação de pessoas, como a suspensão das aulas na rede pública, também adotadas nas redes estadual e particular do Amazonas. Outra ação foi a vacinação para H1N1 de idosos em casa ou via sistema drive-thru. “Já temos 111 mil idosos vacinados em Manaus”, contabilizou a titular da pasta. 

A secretária disse, ainda, que a cidade enfrenta um aumento de casos de H1N1 e, em função disso, a prefeitura ampliou os horários de atendimento nas Unidades Básicas de Saúde para desafogar a emergência dos SPAs (Serviços de Pronto Atendimento), que têm servido de porta de entrada para a transferência de casos graves para a unidade de referência. 

Ex-governador, secretários e senador respondem a processos por desvios na Saúde

Em 2017, o núcleo político do ex-governador do Amazonas, José Melo, incluindo ele próprio, foi preso e responde na Justiça por denúncia de desvios de recursos públicos da saúde do Amazonas. O esquema, segundo o Ministério Público Federal, entre 2014 e 2016, cometeu crimes de licitação, peculato e lavagem de dinheiro, provocando prejuízo aos cofres públicos de, no mínimo, R$ 50 milhões. Segundo o MPF, os desvios de dinheiro foram para bancar vida de luxo dos investigados e denunciados. 

No ano passado, a operação prendeu irmãos e a mulher do senador Omar Aziz (PSD), apreendeu o passaporte dele e executou mandado de busca e apreensão na casa do parlamentar. Todos os envolvidos negam participação no esquema. 

Dramas entre os infectados

“Minha mãe estava aqui no sofá da minha casa e saiu para morrer no hospital”. A frase é da dona de casa Ana Paula Moraes, de 42 anos, ao relatar a morte da mãe há cerca de uma semana por covid-19, em Manaus. Também dona de casa, Ida Moraes, de 72, morava no município de Manacapuru, a 68 quilômetros da capital.

Ida sempre ia à cidade passar um tempo com as filhas. Seis dias antes de morrer, teve um mal estar e foi atendida num SPA da Zona Norte de Manaus. Mesmo medicada, ela não conseguia se levantar, tampouco se alimentar. As filhas decidiram, então, levá-la ao Hospital 28 de Agosto, unidade da rede pública na Zona Centro-Sul de Manaus. 

Ida entrou numa terça-feira, sem sintomas de gripe, e, na sexta-feira, foi transferida para a unidade de referência de tratamento da covid-19. Poucas horas depois, a família foi informada que a idosa havia morrido. “Só soube que ela estava com essa covid-19 quando me disseram que ela faleceu. Não foi entubada. Não nos informaram nada. Ela passou mal, foi ao hospital e acho que lá pegou essa covid-19. Desde que a mamãe morreu, não consigo mais orar. Não acredito que isso aconteceu com a minha mãe dessa forma”, lamentou a filha, aos prantos. 

Ana Paula decidiu, por conta própria, adotar o isolamento porque acompanhou a mãe nos primeiros dias de internação. “Eu e todo mundo aqui em casa sentimos alguns dos sintomas: cansaço, perda de paladar e olfato. Uma falta de ar muito forte”, contou.

A dona de casa disse que em nenhum momento foi procurada para receber orientação ou monitoramento da rede estadual de saúde. Traumatizada com o que ocorreu com a mãe, ela disse que passou a fazer remédios caseiros para ela, filhas e marido. “Não cogitei voltar ao hospital”, disse.  

Com o marido sem trabalhar, Ana Paula diz que está sustentando a casa com doações da família. O marido atuava como mototaxista, mas com o decreto de isolamento social, os clientes sumiram. Ela diz que o marido também teve sintomas, mas acabou, com cuidado, tendo que quebrar a quarentena para sair de casa e comprar alimentos. “Alguém tinha de ir”, justificou. 

A dona de casa disse que os últimos dias teve de conviver com o luto e com o medo que outros familiares passassem pela mesma situação. “É um pavor. O enterro é de longe. Não cheguei perto da minha mãe. Os netos e filhos não podem carregar o caixão. Tenho dito aos meus amigos. Isso não é brincadeira. Não deixem seus pais saírem de casa. Não deixem ninguém chegar perto deles”. 

Despedida à distancia

O empresário Felipe Vieira, de 30 anos, se despediu do avô, o engenheiro Aloísio Vieira, de 74, pelo vidro da UTI de hospital particular de Manaus. O avô e ele moram em Belo Horizonte, Minas Gerais, mas o engenheiro viajava com constância para Manaus a trabalho. Tinha planos de se aposentar no próximo ano.  A família foi informada pelo trabalho de Aloísio que ele tinha apresentado sintomas da doença e havia sido internado. O avô de Felipe chegou a bater o carro após passar mal já com a covid-19. “O que soube é que ele já estava com a doença e recebeu a vacina de H1N1, o que pode ter piorado”, disse.

Felipe viajou para Manaus para acompanhar o avô, mas já não conseguiu contato com ele porque Vieira já estava na UTI. “Não fui autorizado a entrar. Só vi ele pelo vidro.  Era a pessoa mais importante da minha vida. É tanta coisa ao mesmo tempo que eu nem consegui ainda viver o luto.”

O enterro cumpriu os protocolos do contexto do novo coronavírus. De longe, Felipe se despediu do avô. “É muito difícil. Mas sei que há muitas pessoas com muito mais dificuldades que a nossa”, afirmou o neto, que voltou a Minas sem poder levar com ele o corpo do avô para enterrar na cidade em que moram.

'Morreu sem conseguir UTI'

Em outra unidade, o marido de uma enfermeira morreu sem conseguir atendimento em UTI, segundo Patrícia Sicchar, vice-presidente do Sindicato dos Médicos. “A falta de estrutura, medicamentos e salários atrasados já era um problema que vínhamos denunciando desde o ano passado. O Governo teve tempo suficiente para melhorar e não o fez. Agora, veio o coronavírus dentro de uma situação calamitosa. Por isso, o Amazonas está no quadro que está hoje em relação aos outros Estados”, argumentou. 

A médica enviou à reportagem uma lista de kits de medicamentos para pacientes diagnosticados com covid-19 em Manaus que mostram de 5 a 10 kits por unidade. “São cinco kits para SPAS (Serviços de Pronto-Atendimento) que recebem de 200, 300 pacientes. Mandei essa relação para o ministro. Sem tratamento, aumenta cada vez mais o nível de contágio”, disse. “Hoje morreu o esposo de uma enfermeira. Procurou atendimento no SPA da Alvorada (Zona Centro-Sul de Manaus). Não tinha nem oxímetro para ver a saturação do oxigênio. Ela teve que trazer de casa o equipamento para mostrar que o marido precisava de oxigênio porque o SPA não tinha”, lamentou. “Os SPAs tinham de 2 a 3 respiradores. Mas o governo retirou para concentrar no hospital Delphina e ficou 1 em cada SPA. Sem respiradores. Sem vagas. Muito crítico para pacientes que precisam de entubação”, avaliou. 

Patrícia disse que informou ao ministro sobre os andares e leitos não utilizados no hospital de referência do Amazonas, o Delphina Aziz. Dias depois, o Ministério da Saúde anunciou que enviaria recursos para ativar o espaço não usado no hospital público. Antes disso, o Governo anunciou ampliação de leitos por meio de contrato de uma unidade particular. 

A médica criticou a troca de secretário em função do perfil da nova gestora que desconhece a realidade de Manaus e do Amazonas. “Olhe para o quadro da Secretaria Estadual de Saúde. É só advogado. Me desculpe, mas cada macaco no seu galho. Se me mandassem atuar no Tribunal de Justiça, me desculpe, mas eu não tenho competência.”

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