Victor Kostyuchenko / Duke-NUS Medical School
Victor Kostyuchenko / Duke-NUS Medical School

AO VIVO

Acompanhe notícias do coronavírus em tempo real

Americanos dão mais um passo para terapia contra infecção por zika

Cientistas descobriram mecanismo de ação de um anticorpo que é considerado um dos mais potentes contra o vírus

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

24 de novembro de 2016 | 08h00

Um grupo de cientistas americanos deu mais um passo no desenvolvimento de uma terapia para o tratamento de zika, de acordo com um estudo publicado nesta quinta-feira, 24, na revista científica Nature Communications. Os pesquisadores descobriram o mecanismo pelo qual um anticorpo humano chamado C10 consegue evitar a infecção pelo vírus em nível celular.

Os cientistas já haviam identificado anteriormente que o anticorpo C10 reage com o vírus da dengue e, depois, descobriram que ele é um dos mais potentes para neutralizar a infecção por zika. No novo estudo, os pesquisadores deram um passo adiante ao determinar como o C10 é capaz de evitar que o zika infecte as células humanas.

A pesquisa foi liderada por cientistas da Escola de Medicina Duke-NUS - instituição que reúne colaboradores da Universidade Duke (Estados Unidos) e da Universidade Nacional de Cingapura -, em parceria com pesquisadores da Universidade da Carolina do Norte (Estados Unidos).

Para infectar uma célula, o vírus se vale de partículas que atuam em dois estágios: encaixe e fusão. O desenvolvimento de terapias contra os vírus muitas vezes focam nesses dois estágios. Durante o encaixe, uma partícula do vírus identifica locais específicos na célula e adere a eles. No caso da infecção por zika, o estágio do encaixe permite que a célula deixe o vírus entrar através de um endossomo - um compartimento isolado do corpo celular.

Proteínas na parte externa do vírus passam então por mudanças estruturais para se fundirem com a membrana do endossomo, liberando assim o código genético do vírus no interior da célula e completando o estágio de fusão da infecção.

Utilizando um método chamado microscopia crioeletrônica - que permite a visualização de partículas extremamente pequenas e de suas interações - os cientistas observaram o anticorpo C10 interagindo com o vírus em diferentes níveis de pH, imitando os diferentes ambientes nos quais o vírus e o anticorpo se encontram durante a infecção.

Os pesquisadores demonstraram que o C10 se liga à proteína principal que forma a membrana externa do vírus - independentemente do pH - e trava a movimentação dessas proteínas, impedindo que elas passem pelas mudanças estruturais necessárias para o estágio de fusão da infecção.

Sem a fusão do vírus com o endossomo, o código genético viral não consegue entrar na célula e a infecção é evitada.

Foco na fusão. "Felizmente, esses resultados irão mais tarde acelerar o desenvolvimento do C10 como uma terapia contra a zika para combater seus efeitos, como microcefalia e síndrome de Guillain-Barré. Mas é preciso destacar que será necessário realizar mais estudos, com modelos animais, sobre o efeito do C10 na infecção por zika", disse a autora principal do estudo, Lok Shee-Mei, do Programa de Doenças Infecciosas Emergentes da Duke-NUS.

"Por determinar a base estrutural para a neutralização do vírus, esse estudo reforça a ideia de que esse anticorpo poderá proteger contra a infecção por zika, potencialmente nos levando a uma nova terapia para tratar essa temida doença", disse outro dos autores, Ralph Baric, do Departamento de Epidemiologia da Universidade da Carolina do Norte.

Além de indicar que o C10 poderá servir para o desenvolvimento de uma terapia para a infecção por zika, a descoberta também sugere, segundo os autores, que desregular o estágio de fusão com o anticorpo é uma estratégia mais eficaz para deter a infecção, em comparação com terapias que tentam desregular o estágio de encaixe.

Segundo eles, isso ocorre porque o estágio de fusão é crítico para a infecção por zika, enquanto o vírus pode desenvolver mecanismos alternativos para superar a desregulação do estágio de encaixe.

Tudo o que sabemos sobre:
Estados Unidos

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.