Americanos divulgam novo avanço com células-tronco

O mesmo pesquisador que em 1998 isolou a primeira linhagem de células-tronco embrionárias humanas - dando início a um dos campos de pesquisa mais promissores e polêmicos da biomedicina moderna - conseguiu mais um avanço importante na área. James Thomson, da Universidade de Wisconsin-Madison, nos EUA, relata em um estudo publicado hoje a derivação das duas primeiras linhagens dessas células em meios de cultura livres de produtos animais. Um detalhe técnico aparentemente insignificante, mas que aumenta significativamente a possibilidade de aplicação terapêutica das células-tronco embrionárias no futuro. Hoje, como regra, as células-tronco embrionárias (CTEs) humanas são cultivadas em laboratório sobre uma camada de células embrionárias de camundongos, chamadas de feeder cells, ou células de nutrição. Elas fornecem um substrato nutritivo para o desenvolvimento das CTEs e ajudam a manter as células em seu estágio embrionário indiferenciado, mas podem também ser uma fonte de contaminação. Contaminação Em janeiro de 2005, um estudo publicado na Nature Medicine revelou que todas as linhagens de CTEs existentes estavam contaminadas por uma molécula produzida pelas células de camundongo, chamada Neu5Gc, que poderia detonar uma resposta imunológica perigosa no organismo humano em caso de transplante. Ficou evidente que, se a intenção a longo prazo é utilizar essas células em pacientes para o tratamento de doenças, os cientistas precisavam descobrir uma maneira de cultivá-las sem o uso de produtos animais. Foi o que fizeram agora os pesquisadores do WiCell, um instituto de pesquisa mantido com recursos privados de ex-alunos da universidade. "Esta é a primeira vez que conseguimos derivar novas linhagens celulares em condições completamente definidas de cultura totalmente livre de produtos animais", afirma Thomson, diretor científico do WiCell. "Esse trabalho nos ajuda a superar uma das maiores barreiras para o uso terapêutico dessas células", diz a pesquisadora Tenneille Ludwig, primeira autora do estudo publicado na revista Nature Biotechnology. Tanto as feeder cells de camundongo quanto o soro bovino - outro ingrediente animal da receita clássica de cultura - foram substituídos por produtos de origem humana. Difusão O avanço obtido em Wisconsin é boa notícia para pesquisadores de todos os países - inclusive do Brasil, que pretendem começar a trabalhar com as células-tronco embrionárias humanas neste ano. O WiCell é um dos maiores centros de referência para o estudo e a produção de CTEs. Além de fazer pesquisa, o instituto dá cursos sobre cultivo de células e vende amostras de linhagens para laboratórios no mundo todo. "A descrição de um coquetel definido de nutrientes, além de livrar as linhagens de componentes animais, será muito útil no estudo de fatores capazes de interferir com a estabilidade cromossômica dessas células", disse ao Estado o brasileiro Stevens Rehen, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Cromossomos Após alguns meses de cultivo, as linhagens do WiCell passaram a apresentar números anormais de cromossomos (aneuploidia) - outro grande desafio no cultivo das CTEs. "Uma possibilidade é que linhagens de células-tronco só possam ser utilizadas por alguns meses após sua derivação", avalia Rehen, que estuda o problema. "Em todo caso, os resultados enfatizam a necessidade de mais pesquisas sobre o cultivo e a aplicação de células-tronco." As CTEs são extraídas de embriões de apenas cinco ou seis dias. Elas guardam a capacidade de se transformar em qualquer tipo de célula do organismo, o que leva muitos a apostar nelas como ferramenta terapêutica para o tratamento de vários tipos de doenças. As duas linhagens do WiCell foram criadas a partir de cinco embriões doados para a pesquisa, segundo o instituto.

Agencia Estado,

02 de janeiro de 2006 | 09h34

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