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Amor e paixão

Paixão, afinal, é quando você não consegue ver os defeitos do outro – mesmo que queira

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2022 | 05h00

Se alguma vez você já se desesperou diante da inútil tentativa de argumentar com uma pessoa apaixonada, esse artigo é para você. Vale para a paixão romântica, mas também para a paixão ideológica, política, religiosa. (E, verdade seja dita, vale para os dois lados: é bem provável que em algum momento o apaixonado tenhamos sido nós.)

Paixão, afinal, é quando você não consegue ver os defeitos – mesmo que queira. Como na crítica ao romantismo que Machado de Assis fazia com sua fina ironia num trecho do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas ao descrever a personagem Virgília: “Não digo que já lhe coubesse a primazia da beleza, entre as mocinhas do tempo, porque isto não é romance, em que o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos às sardas e espinhas(...)”.

Machado mira numa característica famosa do romantismo, cujos autores só falavam sobre a beleza das suas heroínas, fechando os olhões para seus defeitos. 

Sua crítica é parecida com aquela que fazemos – e eventualmente ouvimos – diante de uma paixão arrebatadora. Os apaixonados, afinal, são tomados por uma emoção tão intensa que sua razão fica um pouco de lado, para dizer o mínimo. 

Assim como a pessoa levemente embriagada, eles ainda acham que são senhores de suas ações, porque não se sentem – e não estão de fato – totalmente fora de controle. 

Eles até enxergam as sardas, espinhas (ou o mau-caratismo, os antecedentes duvidosos, os motivos escusos, a corrupção), mesmo assim, o julgamento que fazem da importância desses defeitos é enviesado pela emoção.

“Não é bem assim”, “Vocês estão exagerando”, “Ninguém é perfeito”, são frases que o apaixonado tem na ponta da língua com as quais, como diz Machado, “sobredoura a realidade”.

O realismo – não só como escola literária, mas como postura de vista – opõe-se às idealizações, não pelo simples prazer de apontar defeitos, mas para lembrar que as coisas têm muitas dimensões, facetas, características. 

Tanto escritores como pessoas realistas apenas aceitam essa complexidade inerente do ser humano e veem a beleza ou qualidades apesar dos defeitos. Essa, aliás, é a única forma de transformar a paixão em amor e resistir à prova do tempo.

Há muitos significados diferentes associados à palavra amor, mas em comum a todas existe sempre alguma ideia de aceitação, de não julgamento. 

Qualquer relação pautada pelo amor envolve, portanto, ver o outro em toda sua complexidade. Se a paixão é quando você não consegue ver os defeitos mesmo que queira, o amor é quando você continua vendo as qualidades – mesmo que não queira.

* PROFESSOR COLABORADOR DO DEPARTAMENTO DE PSIQUIATRIA DA FACULDADE DE MEDICINA DA USP 

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