Análise: Câncer de próstata atinge 1 em cada 6 homens no Brasil

Tumor tem mais chances de cura quando diagnosticado precocemente

Fernando Cotait Maluf e Marlene Oliveira*, O Estado de S.Paulo

30 Novembro 2016 | 18h57

O câncer de próstata atinge um em cada seis homens no Brasil, totalizando mais de 60 mil novos casos por ano e quase 13.000 mortes neste período. O tumor mais comum no homem é curável quando diagnosticado precocemente, em mais de 95% dos casos, muitas vezes com uma única modalidade de tratamento. Nesta doença silenciosa e que não apresenta sintomas, não existe modo de diagnóstico precoce (exceto quando já muito avançada) que não seja através do rastreamento populacional.

O benefício do rastreamento ainda é discutido em vários países, devido a alguns resultados controversos em termos de eficácia. No entanto, outros estudos comprovam com clareza o seu impacto positivo com redução da mortalidade pela doença em até 40%, custos associados, e efeitos colaterais provenientes dos tratamentos, cada vez mais brandos. Por isso, o rastreamento como rotina populacional ganha cada vez mais espaço, mesmo nas sociedades médicas e países mais conservadores.

Os ganhos tangíveis de rastrear e diagnosticar o câncer de próstata na população de homens saudáveis dos 50 aos 70 anos devem-se, em parte, às melhorias nos métodos diagnósticos, validação de guidelines para a detecção precoce, menor número de exames necessários - e por consequência menor custo, melhor seleção da população a ser rastreada e, principalmente, melhor entendimento da doença à luz a expectativa de vida e preferência dos pacientes. Neste último tópico, sabe-se hoje, através de exames de imagem, patologia, laboratoriais, e exames genéticos, que pelo menos 40% a 50% dos casos diagnosticados podem ser somente seguidos com segurança sem necessidade de tratamento imediato (e de seus potencias efeitos colaterais). 

Apesar da doença ser indolente em até 50% dos pacientes, médicos só conseguem ter esta certeza a partir do resultado da biópsia, cuja indicação advém da elevação do PSA (exame sanguíneo), da alteração do toque retal, ou de ambos, avaliação esta que é contemplada no rastreamento populacional. Por outro lado, 50% dos pacientes necessitam de tratamento imediato incluindo cirurgia, radioterapia, hormonioterapia, sejam isoladamente ou combinados nos casos de mais agressivos. Neste grupo de pacientes, a detecção precoce, através do rastreamento, oferece maiores chances de cura, evita metástases para ossos e outros órgãos, e preserva a vida com melhor qualidade naqueles pacientes atingidos pela doença.

Notadamente, a expectativa de vida do homem brasileiro é de 7 anos menos do que a mulher brasileira. Em parte, além de potencias diferenças biológicas, isso pode estar relacionado ao fato de o homem brasileiro procurar o médico espontaneamente (e não reativamente decorrente de sintomas) oito vezes menos do que as mulheres. No nosso país, nem o rastreamento anual para homens acima de 50 anos (com o toque retal e o exame de sangue PSA) fazia parte da rotina pública até final de 2014, quando foi sancionada a lei 13.045, que obriga a realização, quando clinicamente indicado, de exames para detectar, de forma precoce, o câncer de próstata pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Em virtude da falta de rastreamento em alta escala no Brasil, o risco de morte por câncer de próstata é de duas a três vezes maior comparado aos Estados Unidos ou a países europeus, em grande parte devido ao diagnóstico tardio da doença. Pacientes ligados ao SUS apresentam-se com chances duas vezes maiores de doença avançada comparado a pacientes ligados a rede privada ou convênio. 

Pacientes de raça negra apresentam risco de diagnóstico tardio e morte pela doença ainda maior!

Com a missão de informar e conscientizar a população e propor políticas públicas para melhoria do nosso sistema de saúde, surgiram campanhas como o Novembro Azul, criada pelo Instituto Lado a Lado pela Vida e hoje propagada por vários Institutos como o Vencer o Câncer além da mídia que tem dados cada vez maior espaço para discutir a saúde, sociedades médicas e centros de excelência. Todos juntos procuram informar o homem brasileiro sobre os sólidos benefícios da visita regular ao médico, não somente para avaliar e diagnosticar o câncer de próstata, mas também outras doenças comuns como hipertensão arterial, diabetes, e elevação do colesterol. Do mesmo modo, a mídia e formadores de opinião, como o ator americano Ben Stiller, recém diagnosticado, em idade jovem, com câncer de próstata localizado através do rastreamento, permite que uma experiência pessoal faça um apelo sobre a importância do diagnóstico precoce e traga esperança e conscientização. Como costumo dizer, quem procura acha, e quem acha cura.

Do mesmo modo, ONGs e a mídia ajudam a trabalhar na outra ponta, fundamental nessa discussão: a dos órgãos governamentais, propondo medidas que visam melhorar a saúde do homem, com a racionalização dos custos, proposição de condutas custo-efetivas, da facilitação do acesso da população aos profissionais de saúde, da maior agilidade em realizar os exames, e do fomento de centros de referências para tratamento dos pacientes com câncer de próstata quenecessitem de uma intervenção cirúrgica, radioterápica, ou medicamentosa, tratamentos estes que em mãos experientes têm seus efeitos colaterais minimizados. Podemos, todos nós, evitar que vidas sejam ceifadas, mantendo estes homens ativos na sociedade como trabalhadores e pais de família.

O câncer de próstata pode ser vencido de forma definitiva para a maioria dos homens em nosso país, e tanto as organizações do terceiro setor quanto a mídia têm exercido papel fundamental para que este objetivo seja alcançado. Mas ainda é preciso que os homens voltem sua atenção para si próprios. Olhem com cuidado para a sua saúde integral, para o coração, para os sinais do corpo, se preocupem em evitar as doenças, para que não só neste mês, mas em todos no ano, o horizonte seja azul para todos os brasileiros.

    

* Fernando Cotait Maluf  é fundador do Instituto Vencer o Câncer, membro do Comitê Gestor de Oncologia Hospital Israelita Albert Einstein e chefe do Departamento de Oncologia Clínica Centro Oncológico Antônio Ermírio de Moraes Beneficência Portuguesa - São Paulo. Marlene Oliveira é presidente do Instituto Lado a Lado Pela Vida.

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