EFE/EPA/YUAN ZHENG
EFE/EPA/YUAN ZHENG

Análise: controle e autoritarismo chinês impediram divulgação maior sobre coronavírus

No início do surto, pessoas que trocaram informações sobre a doença foram intimidadas; médicos que debateram assunto em fóruns foram chamados a prestar depoimento

Claudia Trevisan, especial para, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2020 | 14h00

Correções: 03/02/2020 | 18h23

A natureza autoritária do regime chinês e a obsessão por controle do Partido Comunista impediram a divulgação de informações sobre o coronavírus nos estágios iniciais de sua propagação, quando medidas de contenção poderiam ter reduzido o impacto da epidemia. Sem serem alertadas pelas autoridades, 5 milhões de pessoas deixaram o epicentro da doença antes do feriado de ano novo chinês e outras milhões continuaram a sair às ruas sem máscaras e outras medidas de precaução.

Os que desafiaram o controle e trocaram dados sobre o surgimento de uma nova doença parecida com a Sars foram intimidados: oito médicos que falaram sobre o assunto em grupo de discussão online foram convocados para dar depoimentos à polícia e terminaram acusados de espalhar “rumores” falsos. 

A conduta dos policiais locais foi censurada pela Suprema Corte do Povo, sediada em Pequim. “Se a sociedade tivesse naquele momento acreditado nesses ‘rumores’ e usado máscaras e desinfetantes e evitado ir a mercados de animais como durante o surto de Sars, isso talvez significasse que nós teríamos um melhor controle do coronavírus hoje”, disse nota publicada na conta do tribunal em mídias sociais.

Mas não foram só os policiais locais que agiram para proibir discussões públicas sobre a nova doença, que teve seu primeiro caso registrado no dia 8 de dezembro. Quando os rumores ganharam força nas semanas seguintes, os censores de Pequim bloquearam a hashtag #WuhanSARS nas mídias sociais. Depois de os oito médicos terem sido convocados pela polícia, a agência de notícias oficial Xinhua publicou texto no qual as autoridades alertavam a população a “não fabricar rumores, não espalhar rumores e não acreditar em rumores”. 

No dia 30 de dezembro, o governo local anunciou oficialmente que investigava 27 casos de pessoas que poderiam ter sido contaminadas por um vírus desconhecido. Mas a proibição de viagens e o alerta sobre cuidados para evitar a propagação da doença só vieram depois do dia 20 de janeiro, quando o Conselho de Estado em Pequim reconheceu a epidemia.

Há uma semana, o prefeito de Wuhan, que concentra o maior número de casos, admitiu que omitiu informações sobre a doença durante dias, até obter autorização do poder central para divulgá-las. “Todo mundo envolvido na nossa epidemia está insatisfeito com o compartilhamento de informações”, disse o prefeito, Zhou Xiangwang, em entrevista à rede estatal CCTV. 

Segundo ele, a legislação chinesa sobre doenças contagiosas proíbe que governos locais revelem dados sobre novos surtos sem autorização do governo central. “Depois que eles tomaram aquela decisão, nós pudemos tomar muito mais iniciativas”, ressaltou, em referência à posição adotada pelo Conselho de Estado no dia 20.

Não há dúvida de que a resposta oficial foi mais ágil que a registrada em 2003 durante a epidemia de Sars, a síndrome respiratória que provocou 800 mortes ao redor do mundo. Naquela época, Pequim demorou quatro meses para reconhecer a emergência médica. Mas a experiência recente com o coronavírus revela que a obsessão pelo controle e a estabilidade social continuam a infectar o sistema político chinês. / JORNALISTA E PESQUISADORA NÃO-RESIDENTE DO INSTITUTO DE POLÍTICA EXTERNA DA ESCOLA DE ESTUDOS INTERNACIONAIS AVANÇADOS DA UNIVERSIDADE JOHNS HOPKINS

Correções
03/02/2020 | 18h23

Diferentemente do que constava na versão original dessa reportagem, o médico chinês não foi preso. 

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