Dado Ruvic/REUTERS
Dado Ruvic/REUTERS

Análise: Falta de definição do governo sobre vacina trava ação de técnicos do programa de imunização

Até que o comando da pasta defina as negociações ainda pendentes com alguns dos fabricantes, o programa de imunizações fica impossibilitado de definir datas para início da vacinação e cronograma das fases previstas

Isabella Ballalai, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2020 | 05h00

O Programa Nacional de Imunizações (PNI) é o maior programa de vacinação pública do mundo, reconhecido internacionalmente, e vem discutindo seu plano de vacinação contra a covid-19 baseado em dez eixos fundamentais. No entanto, até que o comando do Ministério da Saúde defina as negociações ainda pendentes com alguns dos fabricantes e que cada um deles submeta seus dados à Anvisa e defina o número de doses e cronograma de entrega, o PNI fica impossibilitado de definir datas para seu início e cronograma das fases previstas.

O documento diz que o País já tem garantidas 300 milhões de doses de vacina, o que seria um número bastante razoável para o tamanho da nossa população. Mas a grande maioria dessas doses deve demorar a chegar.

As mais de 100 milhões de doses da vacina de Oxford/AstraZeneca, por exemplo, devem atrasar porque serão necessários mais dados dos estudos clínicos. Quanto às 42 milhões de doses da Covax Facility, não se sabe se elas chegarão ainda em 2021. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), pode ser que elas sejam disponibilizadas só em 2022. Sobre as 70 milhões de doses da Pfizer, nem sequer temos certeza de que elas virão, pois o contrato de compra e venda não foi fechado. E o que explica o fato de a Coronavac não estar contemplada no planejamento?

Está claro que nenhum país conseguirá vacinar toda a sua população com uma vacina só. No Brasil, precisamos avançar na finalização das negociações com outros fornecedores.

Por outro lado, o plano acerta na definição dos grupos prioritários. Está correta a determinação de proteger primeiro aqueles que são hospitalizados e morrem. Mas é importante lembrar que, num primeiro momento, podemos não ter vacina para todos os indivíduos desses grupos prioritários e o plano deixa claro que o cronograma de recebimento das vacinas é essencial para a definição das datas de início de cada fase. 

Também importante, diante da possibilidade de diferentes vacinas, com diferentes características (inclusive de cadeia fria), que se defina a distribuição nos diferentes Estados e municípios. Não sabemos para onde as primeiras doses seriam enviadas. Irão para cidades onde há mais casos? Ou aguardaremos ter vacina para a primeira fase em todo País e assim por diante? E quanto à distribuição das diferentes vacinas? Em quais públicos será aplicada a da Pfizer? E a da AstraZeneca? Precisamos trabalhar com diferentes cenários.

Na questão logística, o documento ainda não define o detalhamento sobre as melhorias e investimentos que serão feitos na cadeia fria para que seja possível utilizarmos vacinas como a da Pfizer, que requerem armazenamento a uma temperatura de -70ºC, o que depende, entre outros, da negociação com a Pfizer, a exemplo de outros países.

Além disso, o documento traz como responsabilidade dos Estados a compra de seringas e agulhas. Embora Estados e municípios tenham suas atribuições na execução das campanhas de vacinação, cabe ao ministério a coordenação da estruturação e logística. Acredito que a negociação centralizada possa trazer melhores resultados e a garantia que todos terão os insumos necessários. Sem essa coordenação, corremos o risco de ter realidades diferentes nos Estados e isso não pode acontecer. 

* É VICE-PRESIDENTE DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE IMUNIZAÇÕES (SBIM)

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