Werther Santana
Werther Santana

Análise identifica resíduos de agrotóxicos em 60% das amostras de 12 tipos de alimentos

Um terço das amostras apresentavam vestígios de irregularidades, como pesticidas proibidos, ou em concentrações superiores à permitida; lista inclui arroz, feijão, banana, mamão, laranja, tomate, café e pimentão

Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

31 Outubro 2017 | 13h32

Uma análise de 12 alimentos comuns nas dietas dos brasileiros revelou resíduos de pesticidas em 60% das amostras e vestígios do uso ilegal de agrotóxicos em mais de um terço do material. A lista de itens contaminados inclui arroz, feijão, banana, mamão, laranja, tomate, café e pimentão.

O estudo foi uma iniciativa do Greenpeace. A organização adquiriu 113 quilos de 12 variedades de alimentos, entre os dias 11 e 13 de setembro, em centrais de abastecimento de São Paulo e de Brasília. As amostras obtidas foram analisadas pelo Laboratório de Resíduos de Pesticidas (LRP) do Instituto Biológico de São Paulo, ligado ao governo do Estado. 

O 113 quilos de alimentos foram divididos em 50 amostras, das quais 30 continham resíduos de agrotóxicos. Desse total, 18 apresentavam algum tipo de irregularidade, como a presença de agrotóxicos proibidos no Brasil, que não são permitidos para determinadas culturas, ou em concentrações superiores à máxima estipulada pela legislação.

No total, 13 amostras apresentavam agrotóxicos proibidos para aquela cultura específica. Três amostras continham agrotóxicos permitidos, mas em nível superior ao máximo permitido.

Duas amostras de pimentão - uma de São Paulo outra de Brasília, apresentaram sete tipos de resíduos, incluindo três tipos diferentes de agrotóxicos proibidos para esse alimento. Em 17 amostras de diversos alimentos havia mais de um agrotóxico - o que segundo os especialistas provoca o chamado "efeito coquetel", quando diferentes substâncias interagem e geram efeitos nocivos que não são fiscalizados.

Das quatro amostras de mamão estudadas, três apresentaram quatro tipos diferentes de resíduos. Duas delas estavam contaminadas com procloraz, um pesticida banido no Brasil e proibido para qualquer alimento. Uma possuía resíduos do pesticida difenoconazol em concentração nove vezes superior à permitida. Duas outras continham famoxadona, um pesticida não permitido para o mamão.

De acordo com Marina Lacôrte, especialista do Greenpeace em Agricultura e Alimentação, os números obtidos com a análise, considerados alarmantes, repetem os resultados de outros testes feitos em 2016.

"Os resultados são muito parecidos com os do levantamento feito no ano passado e com os que foram feitos em outros anos pelo Programa de Análise de Resíduos em Alimentos (Para). Mais da metade dos alimentos têm resíduos", disse Marina ao Estado.

Para Marina, os resultados são preocupantes mesmo em relação às amostras que não apresentavam irregularidades em relação à legislação, mas que continham concentrações de agrotóxicos superiores às permitidas.

"Mesmo as amostras que não apresentavam irregularidades indicam um cenário preocupante, porque nós nos alimentamos todos os dias e estamos expostos a essas substâncias por um grande período de tempo. Não há níveis seguros para consumo dessas substâncias", afirmou. 

Tumores e hormônios. Em amostras de pimentão verde, tomate e couve, foram encontrados inseticidas do grupo químico dos organofosforados, que têm graves efeitos tóxicos bem conhecidos, de acordo com a epidemiologista Neice Muller Xavier, pesquisadora da Universidade de Pelotas (RS) que trabalha com a exposição de trabalhadores rurais aos agrotóxicos.

"O acefato e o metamidofos são inseticidas organofosforados bem conhecidos pela ciência - porque são os mais utilizados - e provavelmente estão envolvidos em intoxicações graves e mortes. São bastante neurotóxicos e são utilizados muito frequentemente como método de suicídio. Causam efeitos agudos, mas também podem provocar efeitos a longo prazo. Todos esses produtos estão ligados à ocorrência de câncer", disse Neice ao Estado.

Já a amicarbazona, encontrada no pimentão acima dos níveis permitidos, é um herbicida que tem grande toxicidade e pode afetar a tireoide, o fígado e a vesícula, de acordo com Neice. "Vários desses produtos têm um potencial para causar alergia, irritação de olhos e problemas respiratórios", disse a pesquisadora.

Embora os riscos sejam maiores entre os trabalhadores que lidam diretamente com os agrotóxicos, permanecendo mais expostos a eles, Neice afirma que a exposição a qualquer resíduo, mesmo em pequena quantidade, oferece riscos graves quando envolve grande número de pessoas.

"Quando as pessoas estão expostas em grande escala, é praticamente inevitável que o produto vá atingir, por exemplo, mulheres grávidas. Vários deles produzem interferências endócrinas - e alterar os hormônios de uma gestante pode ser extremamente nocivo."

Produtos como a famoxadona, um fungicida que foi encontrado em amostras e mamão em concentrações nove vezes superiores à permitida, costumam afetar o fígado, de acordo com Neice. 

"Todos esses produtos podem irritar a pele e as mucosas, mas o fígado é o grande foco de quase todos eles, porque esse órgão tem o papel de metabolizar as toxinas que absorvemos por via oral ou por outras vias", explicou.

De acordo com Neice, o procloraz, um fungicida totalmente proibido no Brasil, mas que foi encontrado em amostras de mamão, produz disrupção endócrina - isto é, altera os hormônios. "Chegou-se à conclusão de que esse produto não era seguro para uso no mercado e ele foi banido. A razão para isso não foi o câncer, nem a neurotoxicidade, mas a desregulação endócrina que ele causa", disse.

O difenoconazol, fungicida também encontrado em amostras de mamão muito acima dos níveis permitidos, além de também produzir alterações endócrinas, é considerado um possível causador de câncer, segundo Neice. 

"A possibilidade de um acúmulo dessas substâncias no organismo tem que ser considerada. Mas, no caso do difenoconazol, por exemplo, não é preciso uma exposição cumulativa para desencadear um câncer. Uma única exposição, em tese, poderia ativar o mecanismo de uma pessoa que já tem propensão genética", explicou.

'Preocupante'. Comprando laranjas em um hortifruti da zona oeste, em São Paulo, a professora Maria José Brandão não se surpreendeu com o resultado das análises. "Sabemos que há esse problema dos agrotóxicos. Há muito tempo sabemos que os morangos, por exemplo estão impregnados com esses venenos", disse.

Segundo ela, a questão é "muito preocupante". "Eu venci um câncer de mama e sei como pode ser grave o contato com esse tipo de substância. Me preocupa demais. Eu ponho os alimentos na água com vinagre antes de consumir, mas não há muito o que fazer, a não ser comprar nas feirinhas de orgânicos, mas além de ser mais caro, não sabemos se esses produtos são mesmo livres de agrotóxicos. Não há como ter confiança", afirmou.

Ao saber o resultado da pesquisa, o advogado Luiz Sandoval também apontou o câncer como a principal preocupação ligada ao consumo de agrotóxico. "Entendo que o número excessivo de casos de câncer se deve muito aos agrotóxicos. Não vejo justificativa para um aumento tão grande dos casos de câncer a não ser os altos níveis desses produtos", declarou.

Sandoval não vê saída para o consumidor. "A pessoa que pode compra produtos orgânicos. Mas nem todo mundo pode arcar com os custos. Por outro lado, os agrotóxicos são necessários, porque senão as pragas tomam conta das plantações", ponderou.

"As pessoas não estão atentas ao problema dos agrotóxicos. Eu prefiro comprar as frutas que têm casca, como banana e laranja, porque é possível eliminar grande parte dos agrotóxicos ao descascar. No caso das verduras e legumes, não há como escapar."

Mais conteúdo sobre:
Agrotóxico Veneno Agricultura Greenpeace

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.