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Análise: Lei que libera 'pílula do câncer' abre precedente grave

'Substância não passou pelos ensaios clínicos exigidos; em vez disso, foi impulsionada pelo entusiasmo de parte da população'

Adriano Andricopulo, O Estado de S. Paulo

15 Abril 2016 | 03h00

Tenho acompanhado com preocupação a polêmica relacionada à fosfoetanolamina sintética e acredito que a decisão de sancionar uma lei liberando o uso da substância é de grande irresponsabilidade. Em primeiro lugar, porque a substância não passou pelos ensaios clínicos exigidos pela legislação. Em vez disso, foi impulsionada pelo entusiasmo de parte da população que acredita que a pílula seja capaz de curar todos os tipos de câncer - algo impossível do ponto de vista científico.

A sanção dessa lei, atropelando todos os procedimentos científicos e ignorando todos os fundamentos regulatórios da Anvisa, abre um perigoso precedente. Um pesquisador que acredite ter uma substância com um efeito benéfico qualquer poderá tentar atalho semelhante para aprová-la, colocando em risco todo um sistema de regulação que tem como objetivo proteger a população. 

Além disso, recentemente o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) recrutou três laboratórios de excelência para testar a substância e o relatório mostra resultados muito negativos: baixa eficácia - só em doses enormes a substância tem efeito - e um alto grau de impureza. Enquanto seus criadores anunciavam uma pureza de mais de 90%, os testes oficiais mostram que a cápsula só tinha cerca de 30% de fosfoetanolamina. Pior que isso, as cápsulas não tinham 500 miligramas, como anunciado, mas quantidades variáveis - o que causa um efeito deletério no organismo, impossibilitando qualquer benefício terapêutico. É muito grave que uma lei passe por cima de todos os procedimentos regulatórios usados para aprovar o uso de uma substância.

ADRIANO ANDRICOPULO É PRESIDENTE DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE QUÍMICA, ESPECIALISTA EM QUÍMICA MEDICINAL E DESENVOLVIMENTO DE NOVOS FÁRMACOS

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