Amanda Perobelli/Reuters
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Análise: Promessas apressadas sobre vacina da covid arriscam credibilidade da ciência e dos governos

De um lado, a ciência vem sendo realizada em uma velocidade muito maior devido à urgência da pandemia; de outro, instituições começam a comunicar datas para o lançamento de uma vacina, ignorando a natureza do processo científico

Dayane Machado*, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2020 | 10h00

Por muito tempo, a ciência foi comunicada à população como uma atividade mágica, que cria soluções de um dia para o outro. Essa falta de conhecimento sobre o processo científico traz consequências graves, que ficam ainda mais claras durante a pandemia.

Nos últimos meses, órgãos governamentais chegaram a adotar posições contrárias à ciência, com a promoção da cloroquina como tratamento para a covid-19. Apesar de a comunidade científica ter estabelecido um consenso de que o remédio não funciona, boa parte da população ainda insiste nesse discurso.

Agora, a atenção se volta para as vacinas. De um lado, a ciência vem sendo realizada em uma velocidade muito maior devido à urgência da pandemia. De outro, instituições começam a comunicar datas para o lançamento de uma vacina, ignorando a natureza do processo científico.

Soma-se a isso a desinformação que circula na internet e a disputa entre governantes para assegurar a liderança de países e de partidos políticos. A Rússia, por exemplo, acaba de anunciar a primeira vacina do mundo, apesar de não apresentar evidências de sua eficácia ou segurança. Os Estados Unidos seguem a mesma linha, com Donald Trump prometendo uma vacina para antes das eleições.

Esse cenário também favorece a popularização de grupos negacionistas, que se aproveitam da ansiedade da população para lucrar com a venda de falsas curas e tratamentos. Uma das táticas é atacar instituições tradicionais, como a OMS, a imprensa e os centros de pesquisa. A exposição excessiva a esses boatos influencia a decisão das pessoas em relação a vários temas e pode interferir na aceitação da futura vacina contra covid. Transparência e ética serão essenciais para que as instituições saiam da pandemia garantindo a confiança da população.

*Dayane Machado, doutoranda do Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp e pesquisadora sobre desinformação na área de vacinas

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