Tiago Queiroz/ Estadão - 21/12/2020
Tiago Queiroz/ Estadão - 21/12/2020

Análise: Sinalizar não basta, faltou ao Estado coragem para ser estraga-prazer da ceia de Natal

Governo furtou-se ao dever de dizer, de forma clara e sem rodeios, que reunir amigos e parentes vindos de diferentes domicílios, na situação atual da pandemia, é um convite ao desastre – pessoal, familiar e de saúde pública

Natalia Pasternak*, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2020 | 16h49

O governo paulista anunciou medidas restritivas para o período de festas de final de ano, que incluem o fechamento de toda atividade não essencial nos dias 25, 26 e 27 de dezembro, e 1º, 2 e 3 de janeiro de 2021. Estes dias incluem os feriados de Natal e ano novo, onde o comércio já estaria fechado de qualquer maneira, além de sábados e domingos. As compras de Natal costumam provocar aglomerações até dia 24 de dezembro pela manhã, e logo após o Natal também, quando há uma movimentação grande de trocas. 

Representantes do governo reconheceram que as medidas servem muito mais como um sinalizador do perigo para a população do que realmente como formas de restrição. Teriam o papel de um alerta vermelho, para conscientizar as pessoas sobre os perigos das aglomerações. 

Conscientização certamente é necessária, mas a julgar pelo comportamento visto nas grandes ruas de comércio da capital, onde aglomerações de pessoas sem máscara são rotineiras, medidas restritivas firmes também viriam a calhar. E faltou também uma mensagem clara sobre os perigos das reuniões de família no Natal e réveillon

Apesar de o secretário de Saúde ter mencionado que reuniões e festas caseiras não são desejáveis, independentemente do número de pessoas convidadas, o governo estadual furtou-se ao dever de dizer, de forma clara e sem rodeios, que reunir amigos e parentes vindos de diferentes domicílios, na situação atual da pandemia, é um convite ao desastre – pessoal, familiar e de saúde pública.

Cumprir as medidas preventivas de uso de máscara, distanciamento, não compartilhar objetos e higiene das mãos não é tarefa fácil em um jantar de família. Impedir que parentes que não se veem há um ano troquem beijos e abraços é uma possibilidade teórica de pouca plausibilidade prática. Faltou aos representantes do Estado coragem para ser o estraga-prazeres da ceia de Natal, em prol do bem comum. Quem se limita a apenas sinalizar hoje está assumindo o risco de ter de sepultar amanhã.

Natalia Pasternak é pesquisadora visitante do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, presidente do Instituto Questão de Ciência, "fellow" do Comitê para Investigação Cética (CSI) dos Estados Unidos e coautora do livro "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto)

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