Kat Jayne/Pexels
Kat Jayne/Pexels

Ansiedade: o que é o transtorno, sintomas e como controlar uma crise

Apesar de ser uma sensação comum no cotidiano, o nervosismo excessivo ou fora de contexto deve ser observado e tratado com atenção

Diego Kerber, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2020 | 09h00

Sentir-se nervoso diante de uma situação importante, como uma entrevista de emprego, um primeiro encontro amoroso, uma apresentação importante ou prova de vestibular ou concurso público é uma reação normal. Essa ansiedade é uma característica evolutiva que prepara o corpo para reagir a situações de estresse, medo, angústia, dúvida ou expectativa. No entanto, nem sempre a sensação é benéfica e, quando acontece com intensidade e sofrimento acima do normal, deve-se ficar alerta.

Os últimos dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre o assunto, de junho de 2019, informam que o Brasil é o país com maior número de pessoas que sofrem com transtornos de ansiedade no mundo. Já uma pesquisa do Instituto Ipsos de junho de 2020 indica que o País é o que mais sofre de ansiedade por conta da pandemia do novo coronavírus numa lista de 16 nações.

Por isso é importante saber distinguir a ansiedade normal da ansiedade exagerada, aparentemente sem motivo e prejudicial à saúde. Veja abaixo as principais informações sobre esse transtorno e o que fazer se estiver nessa situação.

O que é e quais são as características de uma crise de ansiedade?

É importante fazer a distinção entre uma crise de ansiedade e um transtorno de ansiedade. O Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) é caracterizado por uma ansiedade geral e persistente que “não ocorre exclusivamente nem mesmo de modo preferencial em uma situação determinada”, de acordo com a definição da OMS. No caso de outros transtornos, a intensidade ou frequência do nervosismo varia. A Síndrome do Pânico, por exemplo, apresenta ataques recorrentes e imprevisíveis de ansiedade grave, enquanto outro transtorno, como a fobia social, se caracteriza por aumento de nervosismo em situações específicas, neste caso o contato com outras pessoas.

A professora da área de saúde mental da PUC-SP, Elisa Zaneratto Rosa, doutora em Psicologia Social, afirma que o que se costuma denominar como transtorno de ansiedade “se refere a situações que sujeitos vivenciam e apontam geralmente para um sofrimento provocado por incertezas em relação ao futuro ou a uma sensação de falta de controle.” “Acho que nunca deveríamos tratar um sofrimento como uma doença, mas a situação se torna preocupante e deve ser observada quando fica tão intensa que não se pode nem identificar o que a gerou, quando não se refere a uma situação específica”, completa ela.

“Quando falamos em crise de ansiedade, nos referimos aos momentos mais críticos e com um aumento das características sintomáticas, em que há um maior prejuízo cognitivo, por exemplo, impedindo a pessoa de se adequar à situação em que está”, define o psiquiatra e presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (APB) e da Associação Psiquiátrica da América Latina (APAL), Antônio Geraldo da Silva. Segundo ele, quando a pessoa passa por uma crise, ela “apresenta uma série de sintomas que a impede de pensar e agir claramente, devido ao pico de descargas químicas recebidas pelo cérebro.”

Silva explica que o principal hormônio ligado à ansiedade é o cortisol, que é responsável por manter o cérebro em alerta e o corpo pronto para agir rápido caso seja necessário. Na maioria das crises ansiosas acontece um mau funcionamento dos neurotransmissores que regulam a atividade do cortisol no cérebro. Isso faz com que o nível de nervosismo seja proporcionalmente muito maior em relação ao fato gerador da crise.

“Pacientes com transtornos ansiosos podem ter um mau funcionamento dessa regulação, causando um impacto negativo na interpretação das situações do dia a dia que as faz ver mais perigo do que o real em ocasiões simples. É como se, ao olhar um gato, o paciente enxergasse um leão e, aí, disparasse os alertas do organismo”, exemplifica ele.

O médico ainda explica que a gravidade do quadro ansioso depende da intensidade dos sintomas. Quanto mais acentuados os sintomas, maior a necessidade de atenção.

O que pode levar a uma crise de ansiedade?

Há várias situações que podem levar a uma crise ou um transtorno, que são conhecidas como “gatilhos”. No entanto, Silva afirma que isso varia muito de pessoa para pessoa. “Não podemos generalizar estes gatilhos, porque o que serve para mim, pode não servir de gatilho para o outro. Em casos como o Transtorno de Estresse Pós-traumático, por exemplo, há a necessidade de um trauma para o desenvolvimento do transtorno.”

Ele diz que, no caso dos transtornos ansiosos, normalmente os gatilhos estão relacionados a situações fóbicas. Eventos estressantes, porém, também podem levar a crises ansiosas. Como exemplo, a professora Elisa destaca o papel da atual pandemia de Covid-19, que tem gerado uma ampliação dos casos de ansiedade e doenças mentais.

“É um tempo em que nós vivenciamos profundas transformações nas nossas vidas, não só em relação ao presente, mas também em relação ao futuro, e nós não conseguimos minimamente visualizar a que essas transformações se referem. Essas mudanças se intensificam na medida em que vivemos uma situação de crise social, econômica e política, que acompanha a crise sanitária. Então a gente se sente pouco amparado, pouco protegido, pouco respaldado”, explica ela.

Ansiedade causa falta de ar?

A professora Elisa afirma que o paciente pode sim passar por um mal-estar físico, que é resultado de uma dificuldade de compreensão do que ele está sentindo. “Tudo aquilo que a gente não consegue dar sentido na forma de uma denominação é comum que se expresse no corpo.”

No momento de uma crise ansiosa, cada pessoa tem a sua particularidade, o que significa que os sintomas não serão os mesmos para indivíduos diferentes, segundo Silva. No entanto, há alguns sintomas comuns, entre eles a falta de ar e, em alguns casos, sensação iminente de morte.

Quais são os demais sintomas físicos?

Além da falta de ar, também são comuns os seguintes sintomas durante uma crise de ansiedade:

  • Palpitações e taquicardia
  • Preocupação excessiva
  • Medo em excesso de se expor a situações corriqueiras (como usar transporte público ou sair de casa, por exemplo)

Um episódio desse também pode vir acompanhado de:

  • Crise compulsiva de choro
  • Sensação de calor ou frio intenso
  • Alterações gastrointestinais
  • Tremores
  • Ânsia de vômito

O psiquiatra salienta, porém, que, “para caracterizar algo patológico, essas reações precisam ser maiores do que os estímulos que as provocaram. Se sim, é necessária avaliação médica.”

Como controlar a crise de ansiedade?

“Não sei se o controle é uma boa palavra, mas talvez como lidar com uma crise de ansiedade”, argumenta Elisa. Segundo ela, tentar controlar uma crise causada por uma situação de incerteza em relação ao futuro, em que já se tem pouco controle, pode piorar ainda mais a situação. “Muitas vezes, numa situação dessas, a pessoa fica tão tensa querendo achar uma solução para aquilo que vai ficando ainda mais ansiosa. O desejo de controlar a crise vai produzindo mais ansiedade. Esse é o Efeito Bola de Neve”, completa ela.

Antônio Geraldo da Silva explica que, no longo prazo, é realmente necessário o tratamento adequado para diminuir o número de crises e melhorar a qualidade de vida, mas há algumas coisas que podem ser feitas durante uma crise ansiosa para lidar com os sintomas. “É importante controlar a respiração e tentar se distrair. Se estiver com alguém conhecido, tente começar uma conversa e prestar atenção somente nela. Se estiver sozinho, pode tentar cantar uma música, recitar uma história, fazer listas ou qualquer outra atividade mental que te tire do problema.”

“Em vez de tentar se livrar dessa ansiedade imediatamente, deve-se pensar qual é o jeito de respeitar esse sentimento e aliviar minimamente a carga do que estamos sentindo para poder seguir”, recomenda Elisa. A professora afirma que é preciso entender que, apesar de não conseguir lidar com esse sofrimento no momento, é preciso compreender o que esse sentimento fala sobre você.

No longo prazo, há também outras dicas de como reduzir o número de crises de ansiedade e minimizar os seus efeitos negativos simultaneamente com o tratamento adequado. “É importante aprender a identificar em si qual o momento mais propenso às crises”, explica Silva. “Com esse autoconhecimento, é possível administrar melhor as rotinas do dia a dia, cuidando para evitar tais situações.”

Elisa também destaca o valor de conversar com alguém confiável, que suporte ficar ao seu lado disponível ao longo do tempo ou das condições necessárias para uma melhoria e sem cobrar que a situação seja resolvida logo. “Esse apoio pode ser, muitas vezes, uma ajuda profissional”, exemplifica ela.

Tratamentos para a ansiedade

O tipo de tratamento para a ansiedade vai depender do nível de gravidade. Silva argumenta que, no caso de transtornos mais leves, apenas a psicoterapia, seja por um psicólogo ou psiquiatra, pode ser recomendada. “Para quadros moderados a graves, é necessária a combinação da psicoterapia com o medicamento. Esta é a forma mais eficaz de tratamento, com melhor resposta e retorno da qualidade de vida”, complementa ele.

A professora Elisa argumenta que a ansiedade é algo bastante complexo. “Mais importante do que pensar se o mais recomendado é um psicólogo ou um médico psiquiatra é pensar qual é o profissional que vai ajudar a lidar melhor com essa situação, entendendo as suas múltiplas dimensões, seus múltiplos elementos.”

Ela alerta que essa experiência não deve ser reduzida a uma doença, que pode ser interpretada erroneamente como exterior à pessoa. Segundo ela, o mais importante é que o indivíduo compreenda o que está sentindo em função das suas condições de vida para, assim, poder superar esse sofrimento “a partir de uma transformação da vida, das ações cotidianas, das atividades em que se está inserido.” “Se nós acharmos que é uma doença da qual temos que nos livrar, nós nunca enfrentaremos a situação que de fato está posta. A pessoa tem que entender que essa ansiedade não é algo exterior a ela, como se fosse um vírus, e sim é algo que fala sobre ela”, esclarece.

Antônio Geraldo da Silva explica que, para aliviar os sintomas da ansiedade, é geralmente sugerido que, se possível, o paciente se afaste dos possíveis gatilhos de crises. “Por exemplo: caso o trabalho represente um fator diretamente agravante da ansiedade, podemos solicitar o afastamento laboral pelo tempo necessário ao indivíduo”, exemplifica.

O psiquiatra também aponta alguns hábitos que ajudam a evitar o desenvolvimento de transtornos mentais no geral, como ter uma alimentação saudável e praticar exercícios físicos regularmente. Já durante o tratamento, seja com uso de medicação ou psicoterapia, o médico ainda pode sugerir outras mudanças, como parar o consumo de álcool, cafeína e alimentos estimulantes. “Essas substâncias interferem no metabolismo e, consequentemente, na absorção dos psicofármacos”, explica ele.

Qual a relação da ansiedade com depressão e síndrome do pânico?

Muitas pessoas confundem a ansiedade como sintoma de algum transtorno e a ansiedade como transtorno em si. Silva esclarece que, quando é apenas um sintoma, a ansiedade “é uma característica de adaptação que pode estar exacerbada e se apresentar de forma natural nas atividades do dia a dia, mesmo para pacientes com depressão, por exemplo.”

“O transtorno ansioso, no entanto, considera o prejuízo às atividades corriqueiras, a intensidade do comportamento em relação ao seu estímulo, a duração dos episódios de ansiedade e o conjunto de manifestações físicas, como o estado ansioso e os outros sintomas já elencados”, completa ele.

Segundo Elisa Zaneratto, a relação entre a ansiedade e outros transtornos mentais semelhantes é que “são a expressão de uma situação de sofrimento do sujeito.” “Esse sofrimento pode estar relacionado a um quadro mais ansioso ou, diante de outras condições, se apresentar de uma forma mais depressiva”, afirma.

Tome cuidado com testes de ansiedade na internet

Vários sites na rede disponibilizam testes de ansiedade para que a pessoa verifique se precisa procurar ajuda especializada ou não. Apesar de muitas pessoas considerarem esses testes um bom termômetro do nível de ansiedade que alguém está passando, não se deve levar os resultados como diagnóstico definitivo.

“Processos de avaliação psicológica, psiquiátrica e de diagnósticos de saúde mental são absolutamente complexos e requerem uma investigação diagnóstica e a avaliação de um profissional. Não tem nada a ver com um teste que criaram e colocaram na internet, em que você responde algumas perguntas e o próprio teste responde se precisa de ajuda profissional ou não”, alerta a professora Elisa Zaneratto.

O doutor Antônio Geraldo explica que o diagnóstico só pode ser feito por médicos e profissionais qualificados. Segundo ele, confiar totalmente nesses tipos de teste “pode gerar mais malefícios que benefícios, é perigoso”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.