Antidepressivo agora é usado para emagrecer

Com o aumento do cerco à anfetamina - o Brasil é líder no consumo da substância e estuda medidas de controle à sua venda - médicos e pacientes começam a recorrer a antidepressivos em busca de emagrecimento rápido. A nova mania entre quem quer perder peso é tomar fluoxetina, princípio ativo do popular Prozac. O alerta é feito por médicos da área, preocupados com o uso exagerado e incorreto de um remédio que não é aprovado para esse fim. A percepção ganha força com dois levantamentos feitos em farmácias de manipulação. Um deles, da Vigilância Sanitária de Ribeirão Preto, descobriu que a fluoxetina associada a laxantes e diuréticos foi a substância mais vendida em uma farmácia de manipulação da cidade. Somente em um mês foram cerca de 143 receitas. Já a Vigilância Sanitária de Santa Catarina analisou as receitas retidas de três farmácias de manipulação de agosto a dezembro do ano passado. A fluoxetina foi responsável por 22% dos pedidos. Só vendeu menos do que a anfepramona, o derivado mais usado da anfetamina. "Há um vício em prescrever remédios para emagrecer. Por esse exagero de anfetamina estar sendo mais divulgado e questionado, começa a haver um desvio para a fluoxetina, que é indicada para depressão", afirma o médico psicofarmacologista Elisaldo Carlini, do Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas (Cebrid) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Ele explica que um dos efeitos colaterais da fluoxetina é a perda do apetite, principalmente por controlar a ansiedade. "Estão usando o efeito colateral de uma substância médica para um efeito cosmético", resume o médico, que deve iniciar uma pesquisa sobre o tema. Para quem usa, as conseqüências vão de dores de cabeça e irritação à dependência. A perda de peso é transitória e acontece apenas nos primeiros meses. "Sempre fui obcecada por regime. Fazia tudo que aparecia. Já fiz dieta da sopa, das proteínas, tomei remédios naturais e fórmulas com anfetamina até que procurei um médico que, em vez da anfepramona, receitou fluoxetina", conta a estudante de biologia Ligia Saretta, de 21 anos. Ela conta que emagreceu três quilos em dois meses e depois parou de perder peso. Desiludida, desistiu da fórmula. "O médico disse que faria eu parar de comer tanto, mas não senti isso. Nem sei porque ele receitou antidepressivo." Chefe do Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HC-USP), o psiquiatra Taki Cordas conta que é comum pacientes chegarem pedindo a fluoxetina. "Isso é considerado uma má prática médica que se populariza. Está sendo muito usado incorretamente." A proliferação das prescrições fez com que as sociedades de obesidade da América Latina chegassem a um documento no qual fica indicado o uso da fluoxetina apenas para obesos com depressão. Mesmo assim, na internet, em fóruns de discussão e sites sobre emagrecimento, não faltam depoimentos de mulheres trocando opiniões e discutindo dosagens e combinações. "É comum chegarem dizendo que ouviram falar de um antidepressivo que é bom para emagrecer, para tirar a fome. As pessoas querem milagres", afirma Marisa Cesar Coral, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Ela diz ainda que muitos desses remédios, assim como acontece com as fórmulas com anfetaminas, são receitados por médicos que não são capacitados para tratar a obesidade. Segundo a pesquisa de Santa Catarina, 50% das receitas foram dadas por clínicos gerais, dermatologistas, oftalmologistas, homeopatas e uma série de outras especialidades. Outros 47% foram assinadas por profissionais cujas especialidades não são nem reconhecidas, como ortomoleculares. Os endocrinologistas responderam por 2,6% das receitas.

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