Ahmad Gharabli/ AFP
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Antivacina na pandemia da covid-19: o negacionismo mata

Não temos ação global coordenada para combater o novo coronavírus, responsável por essa crise sanitária sem precedentes no nosso tempo

André Fran*, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2021 | 11h00

Estamos em meio a uma pandemia. Uma doença nova e ainda parcialmente desconhecida ameaça o planeta. Ainda não há remédios eficazes ou cura para essa tragédia. Não temos ação global coordenada para combater o novo coronavírus, responsável por essa crise sanitária sem precedentes no nosso tempo. Governos isolados aplicam medidas diversas na tentativa de minimizar danos. Já são milhões de mortos no mundo todo. Centenas de milhares só no Brasil, um dos países mais duramente atingidos pela doença.

E aí, numa bela segunda-feira, você abre o jornal e se depara com um manifesto publicado por uma questionável associação de médicos e que defende um suposto “tratamento precoce” contra a covid-19. Foram nove grandes veículos que aceitaram divulgar o tal texto (o Estadão não estava entre eles). Ele foi publicado como informe publicitário e trazia diversos dados falsos para defender algo sem comprovação científica. 

Alguns profissionais da saúde alertaram ainda que seus nomes foram incluídos entre os autores da publicação sem seu conhecimento ou autorização. O grupo “Médicos Pela Vida”, responsável pelas publicações, defende a hidroxicloroquina e a ivermectina, ambos repudiados pela comunidade científica no mundo todo. Nenhum país aposta nesse tipo de tratamento comprovadamente ineficaz. Mas, no Brasil, temos os médicos negacionistas. São os terraplanistas da pandemia, movidos a muito preconceito e lobotomizados por ideologias extremistas.

No dia seguinte, entidades sérias e especialistas em saúde se apressaram em redigir respostas ao tal manifesto tentando explicar a diferença entre elixir e remédio, ciência e crendice. Mas o mal já estava feito. Um número incontável de brasileiros foi ludibriado pelo comercial de desinformação em forma de matéria jornalística. Justamente no momento em que, entre tropeços e trapalhadas do nosso governo, começa a chegar ao Brasil, lenta e desordenadamente, a única esperança para esse mal que nos aflige a todos: a vacina.

Mas... no país dos médicos negacionistas até isso está sendo colocado em xeque. Se não bastasse o fato de a vacina ser o item mais cobiçado mundialmente no atual estágio da pandemia, a Organização Mundial de Saúde (OMS) sempre destacou a importância vital das mesmas. 

O órgão faz campanhas regulares informando que a vacinação é responsável por evitar de 2 a 3 milhões de mortes anualmente. Lembra que as vacinas são essenciais para proteger o organismo de doenças em todas as idades. Reforça que o custo-benefício da imunização é imensurável, pois as doenças prevenidas aliviam sistemas de saúde e hospitalares. Reitera sempre que vacinar é uma das formas mais efetivas e baratas de reduzir a mortalidade infantil. Destaca que grande parte das vacinas hoje garante proteção pela vida toda. E, ainda assim, uma lista elaborada recentemente pela OMS com as maiores ameaças à saúde teve de incluir entre seus itens o medo de vacina.

De uns tempos pra cá, ainda antes da pandemia, começou a surgir na Europa, nos Estados Unidos e no Brasil, um pequeno grupo de pessoas que contesta a necessidade de vacinação. A escolha, aparentemente individual, afeta todo mundo: a lógica da vacina é imunizar boa parte de uma população para impedir que o vírus se propague. Portanto, quanto mais pessoas vulneráveis, mais chances o agente invasor tem de espalhar a doença. É um pacto social. 

Até então, os antivacina eram teóricos de conspiração em batalha contra a indústria farmacêutica e uma turma meio “natureba” que alertava contra a suposta artificialidade da vacina (a turma que tem mais medo de glúten do que de sarampo). Com a pandemia, esse movimento escalafobético que já vinha sendo turbinado pelas redes sociais ganhou corpo com o aval de líderes extremistas e seu séquito de apoiadores. 

Com a ajuda de campanhas massivas de desinformação, ser antivacina virou questão ideológica. E foi assim que, por mais absurdo que pareça, o movimento começou a se espalhar de modo preocupante em um dos piores momentos possíveis.

Apesar do timing inoportuno, o movimento não surgiu agora. Ele teve início lá na década de 90, com um estudo do médico britânico Andrew Wakefield. Na verdade, um amontoado de sandices que sequer pode ser chamado de estudo. E que foi anulado assim que descobriram não haver qualquer evidência comprovando o que ele dizia. O tal médico, que de médico também não tem nada, teve sua licença cassada. 

Mesmo que todos os argumentos principais dos antivacina sejam absurdamente fáceis de refutar por especialistas, muita gente acaba sendo convencida por doutores charlatões, curandeiros profissionais, “médicos amadores” e muita desinformação nas redes sociais. As pessoas estão ouvindo mais o tio do Whatsapp do que o médico da família. E ignorando pesquisas e fatos comprovados cientificamente. Sintoma de um fenômeno com objetivos políticos que há algum tempo já vinha buscando desacreditar a ciência, a imprensa e a democracia em diversas partes do globo.

Enquanto o Brasil segue patinando na vacinação em função do negacionismo somado ao descaso e à incompetência das autoridades, tem um lugar que já começa a colher o resultado de seguir exatamente o caminho contrário. Israel deve ser o primeiro país do mundo a vacinar toda a sua população. Na contramão de nossa realidade nacional, a nação do primeiro-ministro Netanyahu combate os poucos casos de desinformação na internet com presença online ativa. 

Por lá, as autoridades usam as redes sociais para combater fake news de saúde. Apesar de ser um país pequeno com população de pouco mais de 9 milhões de habitantes, Israel fez uma campanha de comunicação eficiente, digitalizou todo o seu sistema de saúde e, claro, tornou prioridade máxima as negociações pela vacina. 

O sucesso dessas ações simples e alinhadas com as boas práticas científicas foi tamanho que a previsão é ter a população inteira imunizada até o fim de março. Quando isso acontecer, mais de 100 mil doses de vacinas serão doadas a cerca de 15 afortunados países parceiros. Apesar das bandeirinhas de Israel que proliferam no Twitter BR, o Brasil não está entre eles. Por aqui, o negacionismo segue matando os brasileiros. Até quando?

*É DIRETOR, APRESENTADOR DE TV E JORNALISTA, COM MAIS DE 60 PAÍSES CARIMBADOS NO PASSAPORTE

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