Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Ao contrário do que informou Carlos Wizard, cidade paulista Porto Feliz tem 3 mortes por coronavírus

Cidade do interior paulista que adotou cloroquina tem 60 casos e 3 mortes; dados contrariam afirmação de não haver óbitos, dita por Wizard, convidado pelo presidente Jair Bolsonaro para ocupar cargo no Ministério da Saúde

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2020 | 16h54

SOROCABA – O uso de um kit de remédios que inclui a hidroxicloroquina na rede pública de Porto Feliz, no interior de São Paulo, não evitou que a cidade registrasse mortes pela covid-19, como disse ao Estadão, nesta quinta-feira, 4, o empresário Carlos Wizard. Convidado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) para ocupar cargo no Ministério da Saúde, Wizard é defensor do uso do remédio. Oficialmente, a cidade de 51.928 habitantes registra 60 casos positivos e três óbitos pela doença. A vizinha Salto, com o dobro da população – 104.688 moradores - e que não adota o medicamento, tem 64 casos e apenas uma morte.

O uso da hidroxicloroquina associada a outros medicamentos começou no início de abril, bem antes do protocolo de 20 de maio, do Ministério da Saúde, liberando o uso do medicamento para pacientes com sintomas leves. “Precisa ter mais evidência do que uma cidade com 75 mil habitantes, com mais de 500 infectados e sem nenhum óbito?”, questionou Wizard, em evidente conflito com os números reais. A prefeitura informou que foram notificados 309 casos, dos quais 214 foram negativos e 35 ainda aguardam resultados. Cinco pessoas com o vírus e duas com suspeita estão internadas.

 O kit de remédios foi colocado à disposição em dois postos de saúde e no pronto-socorro de Porto Feliz. A decisão foi tomada pelo prefeito Antônio Cássio Habice Prado (PTB), que é médico e cirurgião. Conforme a assessoria de imprensa, os pacientes que optam pelo uso do coquetel são avaliados em consulta médica e submetidos a exames laboratoriais, eletrocardiograma e tomografia. “Só então é decidido pelo médico assistente se há ou não indicação com segurança do uso das medicações.”

 Ainda segundo o município, não há distribuição de kits. O que existe é um protocolo de tratamento precoce prescrito por médicos em pacientes iniciais de covid-19, após a realização de exames como função renal e hepática, hemograma, gasometria arterial e outros. Também é necessária a autorização formal de cada paciente.

O coquetel inclui, além de uma dosagem de hidroxicloroquina durante cinco dias, azitromicina (antibiótico) pelo mesmo período, enoxaparina (anticoagulante) injetável por cinco dias e medicação anti-inflamatória e para náusea. O custo dos medicamentos está em torno de R$ 40. Até agora, cerca de 600 pacientes foram atendidos com esses remédios – quase o dobro do total de casos notificados. Segundo a prefeitura, os pacientes que morreram não tinham aderido ao tratamento.

Incluída na fase 2 (laranja) do Plano São Paulo de retomada das atividades econômicas, a prefeitura de Porto Feliz baixou decreto autorizando a reabertura das lojas, mas com medidas de controle. O uso de máscara continua obrigatório em toda a cidade e a prefeitura mantém a desinfecção de locais com maior fluxo de pessoas. A cidade tem dez leitos de UTI na Santa Casa local, mas só havia um leito ocupado nesta quinta-feira.

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