TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO
Movimentação em unidade de saúde de São Paulo; com o avanço da variante Ômicron, procura por serviços médicos volta a crescer em todas as regiões do País TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO

Ao menos 13 Estados registram alta de internações por covid; capital paulista amplia leitos

São Paulo faz plano de contingência com reserva de 1,1 mil vagas em unidades de saúde, medidas semelhantes foram adotadas em outras regiões do País diante do avanço da Ômicron

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2022 | 05h00

Pelo menos 13 Estados tiveram alta no número de internações por covid-19 ou suspeita da doença em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) e enfermarias na comparação com o fim do ano passado. O aumento das hospitalizações ocorre após as festas de fim de ano e em meio ao avanço das contaminações pela variante Ômicron, mais transmissível.

Especialistas vêm alertando para a necessidade de planejar a assistência hospitalar diante da explosão de casos no Brasil. Outros países, como os Estados Unidos, já têm hospitais sobrecarregados por surtos de covid-19 relacionados à Ômicron. No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro minimizou os efeitos da variante e disse que a Ômicron é “bem-vinda”.

Houve aumento do número absoluto de internações tanto em leitos de UTI quanto em enfermarias em Estados das cinco regiões do País, conforme levantamento do Estadão com as secretarias de Saúde.

O total de hospitalizações agora não se compara ao verificado durante o pico da covid no 1.º semestre de 2021, graças à vacinação, mas pressiona serviços públicos e privados. Secretários abrem leitos para dar conta da demanda e avaliam cancelar cirurgias eletivas.

Em São Paulo, a prefeitura da capital anunciou na quinta-feira a reserva de 1.100 leitos exclusivos para tratamento da covid-19. A partir de segunda-feira, postos de saúde terão o horário de funcionamento ampliado e algumas unidades, inclusive, passam a ser 24 horas. Também serão montadas 23 tendas para acolher a população, além de já ter sido autorizada a contratação de mais médicos e equipes de enfermagem.

No Paraná, eram 175 pacientes em UTI com suspeita ou confirmação de covid-19 em 31 de dezembro. Doze dias depois, o número saltou para 249 – alta de 42%. O aumento foi ainda maior nas enfermarias do Estado, de 82%.

No Espírito Santo, dobrou o número de pacientes em enfermaria e UTI, na comparação com dezembro. Houve abertura de novos leitos nos últimos 30 dias e mais vagas devem ser abertas. “Já desenhamos um cenário, que desejamos que não ocorra, de cancelar cirurgias eletivas”, diz Nésio Fernandes, secretário de Saúde. Segundo ele, em relação às ondas anteriores da doença, há agora uma diferença maior entre os casos detectados e as hospitalizações, mas o volume de infecções preocupa.

Outros Estados que tiveram alta de hospitalizações pela covid ou síndrome respiratória são: Amazonas, Tocantins, Pernambuco, Maranhão, Alagoas, Paraíba, Bahia, São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso.

No Rio, as solicitações de leitos à central de regulação estadual, que estavam na média de 14 por dia, em dezembro, passaram para 51, em média, em janeiro. Em São Paulo, a Secretaria Estadual de Saúde vê aumento de 30% nas novas internações na última semana epidemiológica. A pasta disse ter desacelerado o redirecionamento de leitos de covid. E, se necessário, vai ampliar a assistência.

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, disse na quinta-feira que pessoas não vacinadas representam a maioria das internações. Em carta a Queiroga, o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) afirmou que a alta de casos “volta a impor desafios aos sistemas de saúde”. O Conass lembra que um terço da população não está vacinada com duas doses, o que deixa o Brasil “vulnerável a uma grande onda de casos, que também poderá acarretar pressão hospitalar”.

“Se o sistema hospitalar entrar em colapso, tanto na rede privada, quanto na rede pública, óbitos evitáveis poderão ocorrer pela não garantia de acesso à internação”, diz o conselho. Os secretários pedem ao ministério autorização imediata de funcionamento, “nas condições adotadas ao longo do ano de 2021”, de toda a rede hospitalar contra a covid-19.

Em Mato Grosso do Sul, o secretário de Saúde, Geraldo Resende, diz que leitos foram desativados pelo ministério e há “número exageradamente grande de casos” de covid entre pessoas que voltaram de viagem. “É assustador. Unidades vão sofrer impacto de internação, mesmo que quadros não sejam tão graves.” Para dar conta da demanda, o Estado deve reabrir até o fim de janeiro 40 leitos de UTIs e 45 leitos clínicos.

Por meio de nota, o Ministério da Saúde informou que a conversão de cerca de 6,5 mil leitos de UTI para covid-19 em leitos de UTI convencional foi feita após debate com Estados e municípios, “para o melhor aproveitamento dos leitos já existentes”. “A autorização de leitos de UTI Covid-19 é temporária e cabe aos Estados e municípios solicitarem a prorrogação do custeio, assim como a autorização de mais leitos, conforme a demanda e necessidades de cada região”, completou a pasta.

Alta de hospitalizações começou em dezembro após meses de queda

O aumento de hospitalizações pela covid-19 verificado agora ocorre após uma temporada de redução nas internações – e coincide com o avanço da Ômicron pelo País. Em São Paulo, o número de pacientes internados em UTIs estava em queda desde junho. A tendência se reverteu a partir da última semana de 2021.

No Espírito Santo, o número de leitos de UTI ocupados caiu a partir de novembro, mas voltou a subir no fim de dezembro – e mantém tendência de alta. No Rio, desde novembro, o número de pacientes na fila de espera por um leito não passava de 10. No último dia 12, o número chegou a 95.

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Internações por covid dobram em ao menos 3 hospitais privados de SP; Einstein registra maior alta

Unidades têm crescimento de hospitalizações diante do avanço da variante Ômicron; quadros dos pacientes têm sido menos graves do que na segunda onda

Ítalo Lo Re, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2022 | 05h00

Com o espalhamento da variante Ômicron, as internações por covid-19 mais do que dobraram em ao menos três hospitais privados de São Paulo, na comparação com o final do ano passado. No Hospital Israelita Albert Einstein, a alta foi de 707%, a mais expressiva entre as instituições consultadas pelo Estadão. Os hospitais Sírio-Libanês Oswaldo Cruz também se destacam.

Médicos que atuam na capital apontam que, apesar do aumento de hospitalizações, os quadros dos pacientes têm sido menos graves do que na segunda onda, até pelo avanço da cobertura vacinal no País. Ainda assim, reforçam que o momento pede cautela e manutenção das medidas de proteção, como distanciamento e uso de máscaras.

O Hospital Israelita Albert Einstein informou que no dia 31 de dezembro contava com 14 pacientes internados por covid-19, sendo 11 deles em leitos clínicos e três em unidades de terapia intensiva (UTI). Nesta quinta-feira, 13, o número de hospitalizados saltou de 91 para 99. Do total, são 81 em apartamentos e 18 em unidades de terapia intensiva e semi-intensiva. Três deles estão entubados.

“Com a variante Gama, por volta de metade dos pacientes precisavam de terapia intensiva, era um quadro bem mais grave. Agora, são casos em que os pacientes têm principalmente uma gripe forte. Não chegam a ter pneumonia, até tem casos, mas são mais raros”, explica o superintendente e diretor médico do Hospital Albert Einstein, Miguel Cendoroglo Neto.

“Em média, o paciente fica cerca de 3,2 dias internado por covid (no Einstein). Há um ano, quando estava começando a subir a Gama, o índice estava em 9,5 dias. O quadro clínico é bem mais brando”, acrescenta. Apesar do crescimento nas hospitalizações, Cendoroglo Neto reforça que o número segue bem abaixo do pico de internados com covid no hospital, que foi de 306 pacientes.

Ele reconhece, porém, que a tendência de alta pode se manter ainda por algumas semanas, até em razão do avanço da Ômicron. “Até agosto, tínhamos só a Gama. Então, começou a aparecer a Delta, ficando quase só ela. No comecinho de dezembro, apareceu a Ômicron, que chegou a 83% no início de janeiro”, explica. Segundo ele, o Einstein está preparado para o aumento da demanda, mas a alta recente de covid acabou afetando até mesmo os funcionários do hospital. Hoje, cerca de 4% estão afastados pela doença.

O Hospital Sírio-Libanês, por sua vez, informou que as unidades de São Paulo tinham 27 pacientes internados com covid-19 no dia 31 de dezembro. Desse total, 22 pacientes estavam em enfermaria e outros cinco em leitos de UTI. Já em balanço feito nesta quarta-feira, 12, o hospital contabilizou 67 pessoas hospitalizadas com a doença, 11 deles em UTI.

Assim como ocorre no Einstein, os números no Sírio-Libanês também estão inferiores na comparação com o período em que o País enfrentava a segunda onda da pandemia, impulsionada pela variante Gama. Em 22 de março do ano passado, havia 247 pacientes internados. Em UTI, estavam 63 deles.

Alta de casos

“Olhando por um panorama geral, o número de casos aumentou muito, é uma coisa notória. E quando a gente aumenta esse número absoluto de casos, por mais que eles aparentem ter um quadro clínico pouco severo, até por estarem associados a uma maior taxa de vacinação, a gente tem um aumento do número absoluto de hospitalizados”, explica a infectologista do Hospital Sírio-Libanês, Carla Kobayashi.

A médica complementa que, em um primeiro momento, a falta de testes em farmácias da capital não tem alterado o perfil dos pacientes que têm chegado ao hospital. “Seguem chegando pacientes em uma fase mais precoce da doença, muito em conta de terem o convívio com quase dois anos de pandemia. A gente já consegue entender melhor, interpretar quando é uma suspeita e quando não é”, aponta Kobayashi.

Entre os dias 1º e 12 de janeiro, 4,1 mil pacientes procuraram o pronto atendimento do Hospital Alemão Oswaldo Cruz com sintomas gripais. A positividade dos testes realizados foi de 47% para covid-19 e 19% para influenza. De acordo com o hospital, cerca de 97% dos pacientes apresentaram sintomas leves, sem necessidade de internação, enquanto 3% dos atendimentos evoluíram para internação.

Para se ter um comparativo, o número de pacientes com covid que estavam internados no dia 31 de dezembro era de 27. Nesta quinta, está em 84. Outras 20 pessoas foram hospitalizadas por influenza, que teve alta de casos em São Paulo.

A Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo apontou que nesta quinta contava com 115 pacientes internados para tratamento de covid-19 em suas unidades, sendo 34 deles em UTI. O número total representa um aumento de 74% em relação ao dia 31 de dezembro. Na ocasião, a rede tinha 66 pacientes hospitalizados, sendo 28 na UTI.

“Em virtude do aumento da demanda de pacientes com covid e influenza, a instituição reforçou suas equipes de prontos-socorros, com o objetivo de otimizar os fluxos de triagem, reduzir o tempo de espera e ampliar a capacidade de atendimento a pacientes graves”, informou a rede.

Em nota, a Rede D’Or São Luiz informou que, devido ao surto de gripe e ao aumento de casos de covid, seus hospitais na Grande São Paulo estão, em média, com um volume de atendimento em seus prontos-socorros 50% maior do que o habitual em semanas anteriores. A rede não especificou, porém, quais têm sido os impactos nos leitos.

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