Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Ao menos 37% dos profissionais de saúde relatam estresse ou sensação de pânico na pandemia

Levantamento divulgado pelo Conselho Federal de Medicina mostra trabalhadores com problemas que envolvem alimentação ou dificuldades no sono ao longo do combate à covid

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2021 | 00h01

RIO - O desafio de trabalhar em meio a uma pandemia de uma doença pouco conhecida e letal tem impacto nefasto na saúde mental dos médicos da linha de frente do atendimento à covid-19. Levantamento divulgado nesta quarta-feira, 7, pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) revelou que ao menos 37% dos profissionais de saúde do País relataram aumento do estresse e da sensação de medo ou pânico no enfrentamento à doença.

A elevação do nível de estresse foi apontada como principal impacto da pandemia por 22,9% dos 1,6 mil médicos que responderam à pesquisa conduzida pelo CFM em todo o Brasil. Lidar com o vírus novo e ver colegas adoecendo e morrendo também motivaram sensação de medo ou pânico para 14,6% dos profissionais ouvidos. 

“Tenho 40 anos de formado e nunca vi uma situação dessas em toda a minha vida”, contou o intensivista Hermann Tiesenhauser, de 72 anos, que coordena uma equipe de onze profissionais na Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte, referência no atendimento à covid-19. “Estamos trabalhando de oito a doze horas por dia, todos os dias por semana, lidando com uma doença desconhecida que chegou de forma avassaladora, sob o risco de falta de medicamentos. Estamos todos estressados e no limite.”

Mas o problema não é restrito ao local de trabalho. Os médicos temem levar o vírus para casa e infectar alguém da família. E sofrem, como toda a população, com as regras do distanciamento social. O levantamento mostra que 14,5% dos profissionais relatam redução do tempo dedicado às refeições, à família e ao lazer. Há ainda problemas com a qualidade do sono (7,6%).

“Durante muito tempo trabalhamos sem estarmos vacinados; o medo de levar a doença para dentro de casa era muito grande”, contou Tiesenhauser. “É uma situação permanente de angústia, então é difícil desligar; demoramos a pegar no sono, temos insônia, pesadelos.”

Segundo a pesquisa do CFM, a pandemia fortaleceu (16%) o elo de confiança estabelecido com os pacientes e familiares. Também tornou os pacientes mais receptivos às recomendações médicas (12,6%). Além disso, foi relatado por 13,7% dos respondentes que o estresse criado pela pandemia no paciente tornou tenso seu comportamento nas consultas. De forma geral, a grande maioria dos médicos (96%) afirmou que a pandemia causou algum impacto na vida pessoal ou profissional.

A pesquisa, aplicada entre setembro e dezembro de 2020, ouviu cerca de 1,6 mil médicos cadastrados nos Conselhos Regionais de Medicina (CRMs). Os profissionais atuam nos setores público (22%), privado (24%) ou em ambos (54%). Foram selecionados indivíduos de forma aleatória com representantes em todos os estados do País.

A amostra, composta por homens e mulheres com idade média de 49 anos, respondeu a um questionário estruturado que obedeceu proporcionalmente à oferta de profissionais pelo Brasil. A maior parte atua no Sudeste (53%), Nordeste (21%) e Sul (16%). Outras 6% trabalham em unidades de saúde do Centro-Oeste e 5% no Norte do Brasil.

Pelo menos 88% dos médicos ouvidos pelo CFM acreditam no surgimento de novas epidemias nos próximos anos. E para enfrentar possíveis desafios no futuro, quase 15% deles defendem que os médicos e outros profissionais da saúde sejam valorizados com a criação de carreiras específicas. Outros 15% apostam na priorização de pesquisas científicas e desenvolvimento de tecnologias e produção de insumos estratégicos.

“A pandemia deixará para o Brasil uma lição inquestionável: precisamos estar preparados. Investir mais no Sistema Único de Saúde (SUS), ampliar a capacidade de produção nacional de medicamentos e equipamentos, fortalecer o conhecimento científico e, sobretudo, valorizar a força de trabalho que tanto se dedica a oferecer atendimento de qualidade aos brasileiros”, ressaltou Mauro Ribeiro, presidente do CFM.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.