Apesar de queda mundial, novas infecções por HIV sobem 11% no Brasil

País tem 47% dos infectados na América Latina; mortes pela doença também cresceram 7% entre brasileiros

Fabiana Cambricoli, O Estado de S. Paulo

16 Julho 2014 | 12h52

Atualizada às 20h55

SÃO PAULO - Na contramão da tendência mundial de queda, o Brasil registrou alta de 11% no número de novas infecções pelo vírus HIV entre 2005 e 2013, conforme relatório divulgado nesta quarta-feira, 16, pela Unaids, agência das Nações Unidas voltada para o combate à aids. Em todo o mundo, o índice de novas infecções caiu 27,6% no mesmo período e 38%, se considerado o intervalo entre os anos de 2001 e 2013.

A mesma situação foi observada quando analisados os números de mortes decorrentes da doença. Enquanto o mundo teve redução de 35% nos óbitos entre 2005 e 2013, o Brasil viu o número de vítimas crescer 7% no mesmo período. No ano passado, foram registrados 2,1 milhões de novos casos de HIV em todo o mundo - 44 mil deles ocorreram no Brasil, o equivalente a 2% dos registros.

O desempenho do País também foi inferior ao da América Latina. O número de novas infecções caiu 3% no continente no período analisado. No México, a redução chegou a 39%. No Peru, a queda foi de 26%.

Nações vizinhas também tiveram redução no número de mortes por causa da doença. No Peru, Bolívia e Colômbia, os óbitos caíram 50%, 47% e 33%, respectivamente. De todos os novos casos registrados na América Latina, 47% estão no Brasil, onde, no fim de 2013, viviam cerca de 720 mil pessoas soropositivas.

Razões. Para especialistas e ativistas, falhas nos programas de prevenção e as realidades distintas dos países levaram a essa diferença entre os panoramas mundial e nacional. 

Diretora da Unaids no Brasil, Georgiana Braga Orillart afirma que, antes de analisar as falhas nos programas governamentais, é preciso lembrar que alguns países menos desenvolvidos, sobretudo os africanos, estão registrando só agora declínio de casos similar ao que o Brasil viveu no fim dos anos 1990 e início dos anos 2000. “Quando o tratamento começou a ser ofertado no Brasil, tivemos redução significativa de casos de transmissão vertical, em que o vírus é transmitido de mãe para o filho. Essa redução só está acontecendo agora em alguns países da África.”

Georgiana afirma, porém, que a alta de casos no Brasil também está relacionada com a discriminação e a falta de políticas de prevenção específicas voltadas para os grupos mais vulneráveis, sobretudo jovens homossexuais, principais vítimas das novas contaminações. “Faltam iniciativas voltadas para essa geração que está vivendo a chamada nova onda da epidemia. São aqueles que não vivenciaram o início da aids, não viram seus ídolos morrerem por complicações da doença, então não se cuidam, não usam preservativo, não fazem o teste”, afirma.

A diretora da Unaids diz que não há programas consistentes voltados para essa população. “Eles são discriminados. Tem receio de procurar os serviços de saúde porque o preconceito está em toda parte. Não adianta apenas fazer campanhas. Tem de ser algo trabalhado desde cedo. É preciso falar sobre o assunto na escola”, defende Georgiana.

Segundo o informe da Unaids, um terço de todos os novos casos de infecção por HIV registrados na América Latina no ano passado está concentrado entre jovens com idades entre 15 e 24 anos.

Resistência conservadora. Para o ativista Rodrigo Pinheiro, presidente do Fórum de ONGs Aids do Estado de São Paulo, o governo não consegue chegar até a população mais vulnerável, que, além de gays, inclui profissionais do sexo, usuários de drogas e transgêneros. “Qualquer ideia de campanha mais ousada que surge tem a resistência das bancadas mais conservadoras do Congresso e de setores do Executivo e acaba não sendo colocada em prática”, afirma. / COLABOROU PAULO SALDANA

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