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Aplicação da 2ª dose se torna predominante no País e avanço da imunização tem de superar desafios

Brasil entra em nova fase da sua campanha de vacinação. Além da entrega de doses, sucesso da etapa pressupõe convencimento da população para retorno a postos de saúde

Ítalo Lo Re e Mariana Hallal, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2021 | 15h00
Atualizado 10 de setembro de 2021 | 19h42

A aplicação da segunda dose contra a covid-19 no Brasil foi predominante na semana passada pela primeira vez desde o início de maio, apontam dados do Ministério da Saúde. É apenas a quarta vez que isso ocorre e a primeira em um contexto de vacinação com a primeira dose avançada no País, o que indica uma nova fase da campanha de imunização. 

Além da entrega de vacinas, o avanço da aplicação da segunda dose de imunizantes contra a covid-19 no Brasil também envolve uma série de outros fatores: desde a realização de campanhas publicitárias para conscientização até a busca ativa de quem não tiver retornado para completar o esquema vacinal.

Especialistas ouvidos pelo Estadão apontam que ações como essas são de extrema importância sobretudo porque o espaço entre as doses foi expandido para alguns imunizantes no País, o que aumenta os riscos de evasão.

Para a epidemiologista Denise Garrett, vice-presidente do Instituto Sabin, vários fatores dificultam a aplicação da segunda dose no Brasil. A falta de vacinas é um deles. "Quando a pessoa vai ao posto e não encontra a vacina que precisa para a segunda dose, dificilmente irá em outro local ou voltará outro dia", explica.

Outro ponto levantado pela especialista é o esquecimento. O intervalo entre as doses das vacinas pode chegar a doze semanas. Muita gente fica ansiosa aguardando a data do reforço, mas outro tanto esquece de voltar ao posto. "Precisamos de algum mecanismo para lembrar a pessoa, seja uma mensagem de texto, ligação, e-mail...".

Para aumentar a adesão, ela pede que os governos facilitem o acesso à vacina. Se uma pessoa busca a segunda dose um ou dois dias antes do prazo, não deveria ser impedida de recebê-la, cita Denise. A especialista diz que ampliar o horário de funcionamento das unidades de saúde é outra forma de aumentar o acesso à vacina.

Campanhas publicitárias também podem fazer a adesão crescer. "Isso faz toda a diferença. Embora a gente tenha uma cultura pró-vacina muito forte, muitas vezes as pessoas esquecem da segunda dose", diz. A propaganda ajudaria a lembrar de completar a vacinação.

Denise ressalta que apenas uma dose da vacina não impede a pessoa de ser infectada pelo coronavírus, principalmente em um cenário que passa a ser dominado pela variante Delta. "Não tomar a segunda dose no tempo certo é desperdiçar os esforços feitos até aqui. A primeira dose sozinha evita parte das internações graves e mortes, mas não confere proteção contra a infecção".

A epidemiologista afirma que o Brasil tem o conhecimento suficiente para garantir que todos recebam a segunda dose no tempo certo, mas falta esforço por parte dos governantes. "Não adianta adiantar a vacinação para os mais jovens se a cobertura em pessoas mais velhas ficar prejudicada. É essencial olharmos para as taxas de segunda dose", diz.

O médico infectologista e diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) Renato Kfouri entende que a vacinação no País passa, de fato, por uma nova etapa. Com isso, o maior desafio que se apresenta agora, segundo ele, é o de terminar os esquemas vacinais. “Nós vamos precisar de uma campanha de comunicação muito forte, no sentido de divulgar a necessidade de terminar o esquema (vacinal)”, reforça.

Ele acrescenta que a suspensão das 12 milhões de doses da Coronavac e o atraso na entrega de insumos para produção da AstraZeneca são problemas que precisam ser contornados, permitindo aplicar a segunda dose na população de forma mais ágil e até encurtar o intervalo entre aplicações. “Quanto mais longo é o intervalo, maior é a taxa de abandono. Então, a gente encurtar esse intervalo é um expediente que colabora com a taxa de cobertura”, explica.

De acordo com o infectologista, ao mesmo tempo em que outros programas vão sendo introduzidos, como o de doses adicionais para idosos e vacinação com primeira dose para adolescentes, é fundamental não esquecer de incentivar a população a completar a vacinação. “É uma nova etapa e a comunicação é crucial”, explica, destacando a importância de ações como busca ativa e flexibilização de horários.

Para a epidemiologista Ethel Maciel, em um cenário de falta de segundas doses de AstraZeneca, como o que está ocorrendo neste momento, seria mais importante completar o esquema vacinal dos adultos, até com o uso heterólogo da Pfizer, por exemplo, do que seguir com a primeira aplicação em adolescente.

“O risco de adoecimento, internação e óbito entre os adultos é maior do que entre os adolescentes e crianças”, justifica Maciel. Segundo ela, ainda que a vacinação de adolescentes seja importante, estudos apontam que apenas uma dose de vacina contra a covid-19 não gera tanta proteção, sobretudo diante da variante Delta.

Desse modo, a epidemiologista defende que, principalmente em uma campanha da magnitude da vacinação contra a covid-19, é preciso reagir a novas variáveis de forma ágil e, se necessário, remodelar o planejamento inicial, até para atender novas descobertas que vão surgindo. “Se o estoque está acabando, já tem que pensar lá na frente. Não pode esperar o problema acontecer”, diz Maciel. “O ministério está sempre reagindo ao problema, ela não está agindo preventivamente.”

Coordenador na Rede Análise Covid-19, Isaac Schrarstzhaupt alerta que, mesmo no caso do uso heterólogo da vacina da Pfizer, por exemplo, o planejamento teria de ser feito “com bastante antecedência”. “Logística é sempre bem complicada, ainda mais em algo nacional, escasso e de tanta demanda”, explica. “Quando se trabalha com estoques ‘no limite’, quaisquer desabastecimentos podem, sim, gerar falhas. Ou seja, quanto menos ‘gordura’, maior a precisão necessária.”

Em nota, o Ministério da Saúde informou que o recebimento de imunizantes contra a covid-19 “segue o ritmo previsto”. “A pasta contratou mais de 600 milhões de doses das vacinas contra covid-19 para serem entregues até o fim do ano. O quantitativo é suficiente para vacinar toda a população adulta e completar o esquema vacinal”, apontou.

Auxílio financeiro e remanejamento de doses entre municípios são as estratégias do Mato Grosso do Sul

Mato Grosso do Sul é o Estado mais avançado na aplicação da segunda dose, com 46,9% da população completamente vacinada contra a covid-19. Há algumas semanas, o governo estadual reduziu o intervalo entre as doses das vacinas da Pfizer e AstraZeneca de 12 para oito semanas. 

O secretário estadual de Saúde, Geraldo Resende, conta que as estratégias de Mato Grosso do Sul para acelerar a vacinação incluem auxílio financeiro para que as cidades vacinem aos finais de semana e remanejamento de doses entre municípios. "Monitoramos diariamente os índices de vacinação nos municípios e não nos constrange ligar para um prefeito ou secretário quando a cobertura está baixa", diz Resende. 

Agora, o Estado está aplicando a dose de reforço em idosos e a primeira dose em adolescentes. A procura por parte dos mais velhos está baixa, então o Estado pretende veicular campanhas publicitárias convocando as pessoas acima de 70 anos para receberem a dose extra.

Mesmo estando com a vacinação adiantada, Resende reconhece que haverá uma demanda muito grande pela segunda dose da AstraZeneca nos próximos dias. Isso pode comprometer os planos do Estado de manter a aplicação da segunda dose em ritmo acelerado. "Estamos aguardando as remessas do ministério", diz.

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