FELIPE RAU/ESTADAO
FELIPE RAU/ESTADAO

Aplicação da dose de reforço em SP tem hesitação sobre Coronavac e encontro de gerações

Estado começou a aplicar nesta segunda-feira a dose de reforço em idosos maiores de 90 anos, enquanto adolescentes com 12 anos ou mais começaram a receber a primeira dose

Mariana Hallal, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2021 | 17h13

No primeiro dia de aplicação da terceira dose da vacina contra a covid-19 em idosos na cidade de São Paulo, houve hesitação de parte dos mais velhos em receber a Coronavac como imunizante de reforço. A rejeição foi observada pela reportagem do Estadão em três unidades básicas de saúde (UBSs) na manhã desta segunda-feira, 6. O calendário de vacinação representou um encontro de gerações, com o início da aplicação em adolescentes de 12 a 14 anos. 

A hesitação dos idosos era justificada pelo receio de que a Coronavac pudesse não oferecer proteção tão ampla quanto doses de outros fabricantes. O Ministério da Saúde pediu aos Estados que o reforço da imunização dos idosos seja feito com a vacina da Pfizer e, na falta dela, com AstraZeneca ou Janssen. Especialistas dizem que a dose de reforço com a Coronavac é segura, mas criticam a decisão do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), diante das evidências científicas de que a eficácia é menor nessa faixa etária.

Nos postos de saúde, as doses da Pfizer disponíveis foram destinadas aos adolescentes. O imunizante é o único aprovado pela Anvisa para ser usado nessa faixa etária. 

Carlos Avino, de 73 anos, saiu cedo de casa com o pai, Pasqual Alvino, de 98. O compromisso que fez pai e filho chegarem às 6h30min na UBS Alto de Pinheiros era muito aguardado: seu Pasqual, que recebeu a segunda dose de Coronavac há mais de seis meses, tomaria a terceira dose da vacina contra a covid. Quando ficaram sabendo que o reforço seria feito com o mesmo imunizante, voltaram para casa sem a dose extra.

"A gente vê os especialistas dizendo que é melhor dar Pfizer, AstraZeneca ou Janssen, mas eles querem dar a Coronavac. E aqui tem vacina da Pfizer, mas é só para adolescentes. Isso não está certo", reclamou Carlos.

Ele ficou pouco mais de duas horas em frente à unidade de saúde tentando convencer a equipe a aplicar outra vacina em seu pai e até abriu uma reclamação na ouvidoria do Sistema Único de Saúde (SUS), mas não adiantou. Foi embora sem a vacina e vai tentar de novo outro dia.

O Ministério da Saúde havia pedido aos Estados que começassem o reforço vacinal no dia 15 de setembro, data em que enviará doses suficientes para este ciclo. No entanto, o governador João Doria decidiu começar antes, nesta segunda-feira. 

São Paulo é a única unidade da federação que usará Coronavac de forma indiscriminada na terceira dose. No Rio, quem recebeu duas doses da Pfizer ou AstraZeneca poderá receber uma terceira de Coronavac, mas quem já tomou as duas de Coronavac receberá um imunizante diferente desta vez.

Na UBS Boracea, na Barra Funda, Josefa Ferreira, de 93 anos, também voltou para casa sem o reforço. A idosa foi levada pela filha, Roberta Ferreira, que não aceitou que a mãe fosse vacinada com a Coronavac. 

"Ela já tomou as duas doses da Coronavac. Não vou dar de novo", justifica. Ela também mencionou a orientação do Ministério da Saúde, que contradiz a ação tomada pela Prefeitura e pelo Governo de São Paulo. Josefa e Roberta foram atrás de outras unidades de saúde para tentar receber outra vacina.

Perto dali, na UBS Santa Cecília, Lisane Sahd levou sua mãe Eli Soares, de 90 anos, para receber a terceira dose, mas também se decepcionou. Dona Eli voltou para casa sem vacina. 

"A orientação que temos dos especialistas e do ministério é que a terceira dose não seja feita com a Coronavac. Eles até têm Pfizer aqui, mas estão dando para jovens, enquanto o idoso tem que tomar a Coronavac", diz. Ela pretende voltar outro dia com a mãe para tentar o reforço com um imunizante diferente.

A gestão estadual segue defendendo o uso da Coronavac para esse público. "Nós não podemos deixar nenhuma vacina (de) fora, nós precisamos que todas estejam e sejam incluídas no nosso Programa Nacional de Imunização", disse o secretário estadual da Saúde, Jean Gorinchteyn, na quarta-feira passada.

O coordenador do Comitê Científico do governo estadual, João Gabbardo, citou, na semana passada, a nota técnica 27/2021, do Ministério da Saúde, que apontou "amplificação da resposta imune" após utilização da terceira dose da Coronavac, para defender que a vacina seja administrada como dose adicional. Isso permitiria, segundo ele, antecipar a segunda dose da Pfizer em faixas mais jovens e incluir o grupo de trabalhadores da área da saúde no calendário da terceira dose.

'Vou continuar me cuidando'

Apesar da recusa de vários idosos, outros saíram das unidades de saúde com a terceira dose no braço. Regina Mattos, de 91 anos, foi uma delas. Em isolamento desde o início da pandemia, ela aproveitou a fila da vacina na UBS Santa Cecília para conversar com outras pessoas. 

"Meu filho não deixa eu sair de casa, fica sempre de olho. E agora vou continuar me cuidando", diz depois de receber a terceira dose. 

Eugênia Rinski, de 90 anos, se arrumou toda para receber a terceira dose na UBS Boracea. Colocou brinco, tiara, maquiagem e estava muito feliz com a oportunidade. "Foi ótimo, não tinha fila nenhuma. Agora vou para o supermercado", brinca. Ela não foi a única da família a receber a proteção: seu neto estava no posto de saúde esperando a segunda dose e o bisneto de 13 anos recebeu a primeira.

Antes de entrar na UBS Boracea, Carlos Bengio perguntou: é a Coronavac? Ele levou a mãe, Iolanda Bengio, de 93 anos, para receber a terceira dose. Quando descobriu que o reforço seria feito com a Coronavac, ficou aliviado. "Minha mãe tem um histórico forte de alergias, mas tomou duas doses da Coronavac e não sentiu nada. Então é melhor que continue sendo essa", explica. Com o reforço, dona Iolanda espera conseguir visitar mais os filhos.

'Vou ficar mais seguro para ir à escola', celebra jovem

A vacinação de adolescentes de 12 a 14 anos sem comorbidades ou deficiências começou nesta segunda-feira. Na UBS Boracea, eles eram a maioria da fila. Caetano Coutinho, de 13 anos, aproveitou para receber a primeira dose. "Estou muito feliz. Acho que a vacina veio no tempo certo", diz. O pai, Anselmo Coutinho, acompanhava o filho e estava aliviado. "A gente já estava protegido, mas se preocupava com ele."

Cristiano Ronaldo da Silva, de 14 anos, confessou que estava nervoso e com medo de tomar a vacina, mas foi mesmo assim. "Vou ficar mais seguro para ir à escola", acredita. A mãe, Maria Silva, diz que fica mais tranquila de ver o filho vacinado. "É ótimo, principalmente porque assim os idosos ficam ainda mais protegidos", diz.

Idosos que rejeitarem Coronavac não serão penalizados, diz Prefeitura

A Prefeitura de São Paulo informou que os idosos que recusarem a Coronavac como dose de reforço não serão penalizados neste momento. Na cidade, quem recusa um imunizante vai para o fim da fila de vacinação. Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde disse que a Coronavac será usada "normalmente como dose de reforço para o público elegível nesta fase da campanha".

Nesta terça-feira, 7, feriado nacional, os pontos de vacinação não irão funcionar na cidade. A imunização contra a covid-19 será retomada na quarta-feira. A terceira dose está disponível para idosos com 90 anos ou mais que tomaram a segunda dose da vacina há pelo menos seis meses. Idosos a partir de 60 anos podem se cadastrar nas UBSs para a xepa da terceira dose. A medida vale para quem tomou a segunda dose há seis meses ou mais. Imunossuprimidos acima de 18 anos que tomaram a segunda dose ou dose única há 28 dias também podem se inscrever na xepa.

Especialistas criticam Coronavac para reforço em idosos

Para Raquel Stucchi, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), a atitude do governo do Estado não é correta e "não prestou atenção ou não está seguindo" os dados científicos já publicados. "O objetivo dessa dose de reforço é aumentar os anticorpos e a proteção contra a variante Delta, que é a grande preocupação agora. E nós já sabemos, até por estudos no Brasil, que a Coronavac dá uma resposta menor nos idosos que nos mais jovens. Essa resposta diminui com o tempo e precisa de um reforço adicional", explica.

Ela aponta ainda que, caso a terceira dose seja administrada usando o imunizante da Sinovac/Butantan, nada impede que esses idosos tenham que se vacinar novamente daqui a três meses, quando o nível de anticorpos voltar a cair. "Nunca fui favorável a essa escolha de vacinas, mas neste momento, acho que os idosos estão absolutamente corretos em aguardar as orientações do Ministério da Saúde, que dessa vez tomou uma decisão acertada. O que eu aconselharia, agora, é que aguardassem as vacinas de outros fabricantes e o Estado de São Paulo mudar a postura sobre essa questão."

A infectologista reforça que a Coronavac foi importante no avanço da imunização no Brasil e ajudou a prevenir e diminuir mortes e hospitalizações pela covid, mas alerta que, como o País já tem opções de vacinas mais robustas para este público e este momento, "não justifica submeter esse público a uma vacina que não aumentaria tanto".

Renato Kfouri, infectologista e diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), também defende a postura do Ministério da Saúde e órgãos como o CONASS e o Conasems de optar pela preferência à Pfizer na aplicação da dose de reforço. "Os dados são inequívocos em mostrar que a resposta imune dela é mais robusta, principalmente nessa situação, principalmente com a disseminação da Delta."  /  COLABOROU JOÃO KER

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.